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Sugestões para os 500 anos da Reforma – parte 3: vestimentas

A pedido da Aliança de Igrejas Presbiteriana e Reformadas da América Latina – AIPRAL, escrevi a seguinte sugestão de vestimentas para as celebrações dos 500 anos da Reforma Protestante.

Com as festividades dos 500 anos da Reforma Protestante, nossa ideia quanto às vestimentas não é estabelecer uma regra única, ou um modelo único, mas sim apresentar quatro sugestões que perpassam a história da fé reformada desde seu início até os dias de hoje e que, acreditamos, devam ser representadas nas celebrações. A ideia é que na celebração dos 500 anos não se tenha uma uniformidade de vestimentas, mas sim a diversidade histórica e litúrgica, tão característica de nossas comunidades latino-americanas.

Litúrgico

A ideia é que a pregadora ou pregador da celebração esteja trajando a vestimenta litúrgica tradicional reformada. Toga, estola, gola clerical. A toga deve ser a modelo genebrina, preferencialmente na cor preta, conforme a usada por João Calvino. A estola sugerimos o uso da cor vermelha, própria para as festividades. No entanto, se pode usar uma estola multicor ou branca com símbolos reformados. A gola clerical pode ser usada a tradicional ou a que possui duas faixas brancas para baixo. Não estimulo o uso da gravata por pregadores, no caso desta celebração específica, por estarmos fazendo referência aos primórdios da Reforma. Demais componentes da mesa, que não seja a pregadora ou pregador, podem usar togas das mais variadas cores e estolas na cor vermelha, própria para as festividades.

Tradicional

É salutar que os componentes da mesa da celebração expressem a diversidade histórica das Igrejas Reformada, assim, ao invés de estimular uma única forma de vestimenta, sugerimos que pastores e pastoras procurem expressar em suas vestes a historicidade da fé reformada. O uso do terno com gola clerical ou gravata pelos pastores, ou tailleur pelas pastoras, é parte da história de muitas de nossas comunidades latino-americanas. Igrejas mais tradicionais e menos litúrgicas fazem uso de tal vestimenta e devem estar representadas.

Contemporâneo

Recentemente muitos pastores e pastoras têm usado apenas a camisa clerical, às vezes até sem o clerigma, e uma calça social ou de sarja. Outros tipos de vestimenta, como camisas xadrez e calça jeans, ou outros modelos que pastores e pastoras vem adotando não devem ser proibidos. Tal uso deve ser estimulado visando expressar nossa diversidade litúrgica.

Contextualizada

Uma das principais características da Igreja Reformada na América Latina é sua contextualização cultural. Assim, é salutar que comunidades inseridas em contextos culturais específicos sejam representadas conforme sua realidade cultural.

Concluindo

O objetivo, conforme dissemos no início deste texto, não é criar uma regra a ser seguida, mas contemplar a diversidade. Estimulo você a dialogar com a comunidade e as comunidades que participarão das celebrações, visando representar o máximo possível a diversidade de nossa fé em nossa região. Uma conversa preliminar com pastoras e pastores também se faz necessária para estabelecer a liberdade e a linearidade dos que participarão das celebrações. Desejamos que nossas Igrejas, mais que celebrar a história, se vejam como parte dela, da construção da fé reformada na América Latina.

Reverendo Giovanni Campagnuci Alecrim de Araújo
Secretário de Música e Liturgia de IPIB
Pastor da IPI de Araraquara, SP
sml@ipib.org – gcalecrim@gmail.com


Texto escrito para coluna mensal da Secretaria de Música e Liturgia da IPIB em O Estandarte.

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5 lições que o conservadorismo teológico tem me ensinado

Do início de minha caminhada teológica, até o presente momento, fiz uma jornada de desconstruir e reconstruir minha forma de ler e interpretar a Palavra de Deus. Tal exercício é fundamental, independentemente de sua linha teológica. Quando olho para o que produzo de teologia, o que me influencia e o que cala em minha mente e coração, claramente não me identifico com a maioria conservadora que toma conta dos rincões reformados (e ditos reformados) brasileiros. Por outro lado, os meus amigos progressistas e liberais teologicamente tendem a dizer que, por vezes, sou conservador demais. Eu amo cada um deles do mesmo jeito, apesar de tal definição.

Faço todo esse arrazoado para entrar no tema do artigo. Tenho convivido com pastores e líderes alinhados ao lado mais conservador da força (não resisti o trocadilho com Star Wars) e percebi que existem coisas que precisamos — progressistas, liberais e demais correntes — aprender com eles. Vamos a elas.

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Sugestões para os 500 anos da Reforma – parte 2: músicas

Com as festividades dos 500 anos da Reforma Protestante, continuamos com a série de três artigos que pretendem apresentar sugestões quanto aos momentos litúrgicos, canções e vestes litúrgicas para as celebrações nas Igreja Locais, Presbitérios e Sínodos de nossa Igreja. O intuito não é que todas celebrações sejam iguais, mas sim que se tenha algumas ideias e recursos para auxiliar os liturgistas na elaboração de suas celebrações. Assim, nesta segunda parte, apresento as sugestões de cânticos. Embora a tentação aqui seja indicar canções do Cantai Todos os Povos, não o farei, pois creio que os liturgistas, naturalmente, incluirão hinos na liturgia, principalmente o CTP 409, Castelo Forte. A ideia deste artigo é apresentar canções contemporâneas para louvor a Deus, publicadas de 2001 para cá, lançando nossos olhos para fora do meio Presbiteriano Independente.

É de coração

De Gerson Borges, álbum É de coração, 2008 (https://www.facebook.com/gerson.borges)

A canção expressa o que toda Igreja deve ter em mente ao louvar e dedicar sua vida a Deus: “Se as palavras não mostrarem / Como é grande a minha gratidão / Mesmo assim, Senhor / Receba o meu louvor / É de coração”. É o convite a louvar a Deus com gratidão no coração e dedicando tudo ao Senhor de nossas vidas.

Na glória do poder

De Stênio Marcius, álbum A beleza do rei, 2010 (http://www.tantopradizer.com)

Uma canção que exalta a volta de Jesus, num ritmo bem brasileiro, relatando como toda a criação irá se mover e se comover com a chegada daquele que virá na glória do poder. Trata-se de uma canção que aponta para a nossa missão de clamarmos Maranata, ora vem Senhor Jesus!

Tu és Santo

De Ronaldo Bezerra, álbum Ao vivo, 2009 (http://www.ronaldobezerra.com.br)

O cântico de Ronaldo Bezerra, pastor da Comunidade da Graça, apresenta a majestade de glória de Jesus, o único digno de louvor e adoração. Além disso, é a declaração da comunidade de fé que seguiremos os caminhos de Jesus todos os dias de nossas vidas.

Tua graça me basta

De Vineyard Brasil, álbum Mais do que paixão, 2004 (http://www.vineyardmusic.com.br)

Claramente inspirado em 2Coríntios 12.9, Tua graça me basta é uma canção que nos desafia a viver debaixo da graça de Deus, que é poder sobrenatural e presente de Deus para nós, nos capacitando e dando forças para prosseguir em nossa jornada.

Maranata

De Ministério Avivah da Igreja Batista Palavra Viva, 2016 (http://clicpalavraviva.com.br)

O cântico exalta a esperança e a certeza da volta de Jesus, declarando que somente ele é a luz e a salvação de nossas vidas. Assim, se andarmos com Cristo, estaremos seguros e certos de que com ele viveremos.

Santo Espírito

De Paulo César Baruk, 2016 (http://www.baruk.com.br)

A canção enfatiza a presença do Espírito Santo na vida do cristão e expressa o desejo de ser inundado pela glória de Deus em nossos corações. Ela aponta para a necessidade que temos de clamar pela presença do Espírito Santo em cada momento de nossa vida como Igreja.

Entendo os cânticos contemporâneos como uma expressão mais atual da fé cristã na condução do culto a Deus. Observei as letras das canções e o estilo musical das mesmas antes de selecioná-las e sugeri-las. A ideia é que os tradicionais hinos comunitários e do coral sejam parte do culto tanto quanto os cânticos contemporâneos.

 

Reverendo Giovanni Campagnuci Alecrim de Araújo
Secretário de Música e Liturgia de IPIB
Pastor da IPI de Araraquara, SP
sml@ipib.org – gcalecrim@gmail.com


Texto escrito para coluna mensal da Secretaria de Música e Liturgia da IPIB em O Estandarte.

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Sugestões para os 500 anos da Reforma – parte 1: textos litúrgicos

Com as festividades dos 500 anos da Reforma Protestante, iniciamos agora uma série de três artigos que pretendem apresentar sugestões quanto aos momentos litúrgicos, canções e vestes litúrgicas para as celebrações nas Igreja Locais, Presbitérios e Sínodos de nossa Igreja. O intuito não é que todas celebrações sejam iguais, mas sim que se tenha algumas ideias e recursos para auxiliar os liturgistas na elaboração de suas celebrações. Assim, nesta primeira parte, apresento as sugestões de textos litúrgicos para a Adoração, Confissão, Louvor, Santa Ceia, Ofertório e Envio.

Adoração

A adoração é o momento inicial do Culto. Recomendamos aqui uma leitura bíblica do texto do Salmo 78, que exalta os poderosos feitos de Deus e seu agir ao longo da história. Recomendamos a leitura alternada, que pode ser entre vozes masculinas e femininas, ou oficiante e congregação. Por se tratar de um salmo longo, 72 versículos, opcionalmente pode-se separar os versos iniciais, 1-8, como destaque.

Confissão

O momento de confissão de pecados deve ser marcado pelo reconhecimento de nossos erros, como Igreja, na proclamação do Evangelho. Assim, propomos a leitura de Efésios 2.1-10 antes do momento de oração silenciosa, um texto clássico da Reforma Protestante e que expressa bem o motivo da nossa salvação. Após a oração de confissão de pecados, propomos a leitura de Efésios 2.11-22.

Louvor

Uma vez perdoados, somos chamados a louvar a Deus por tão grande amor e misericórdia. Vamos tratar das sugestões de cânticos no próximo artigo, por isso, aqui, quero propor que, antes dos cânticos de louvor, seja feita a leitura de Isaías 57.15, enfatizando que o poder do Espírito Santo é quem vivifica nossas vidas, mantendo nossa Igreja fiel à palavra e à herança reformada

Santa Ceia

Para a celebração da Ceia do Senhor recomendamos que se faça uso da liturgia da página 337 do Manual do Culto da IPIB (2ª edição). Mesmo que sua Igreja tenha o costume de celebrar a ceia com fórmulas litúrgicas mais condensadas, uma boa explicação sobre esta parte da liturgia, antes de celebrá-la, é uma oportunidade de mostrar à comunidade como o zelo de João Calvino e outros reformadores com a Ceia foi importante para a preservação da fidelidade bíblica da mesma.

Ofertório

Queremos desafiar as Igrejas, Presbitérios e Sínodos, em suas celebrações, a realizarem um momento de ofertório com recursos revertido para a Secretaria de Evangelização da IPIB. Tal momento deve ser feito tendo em mente o envio dos missionários por João Calvino ao Brasil, ainda na primeira metade do século XVI. Mais que parte de nossa história, o investimento e envio de missionários é parte de nosso princípio de fé.

Envio

Estamos nos preparando para o encerramento da celebração, assim, apontamos para o desafio de vivermos nossa fé com fidelidade bíblica. Para tal, sugerimos a leitura em uníssonos de Hebreus 11.32-40, olhando para os heróis da fé, não nomeados, e vendo neles a inspiração para nossa jornada cristã, sabendo que fomos chamados por Deus para vivermos e proclamarmos o Evangelho em nossa geração.

 

Reverendo Giovanni Campagnuci Alecrim de Araújo
Secretário de Música e Liturgia de IPIB
Pastor da IPI de Araraquara, SP
sml@ipib.org – gcalecrim@gmail.com


Texto escrito para coluna mensal da Secretaria de Música e Liturgia da IPIB em O Estandarte.

Sermões

Deus fala: Ele fala

1“Ouçam em silêncio diante de mim, povos do outro lado do mar; preparem seus argumentos mais convincentes. Venham agora e falem; o tribunal está pronto para ouvir seu caso. 2“Quem instigou esse rei que vem do leste e o chamou para o justo serviço de Deus? Quem lhe dá vitória sobre muitas nações e permite que ele pisoteie seus reis? Com sua espada, reduz exércitos a pó; com seu arco, dispersa-os como palha ao vento. 3Ele os persegue e segue adiante em segurança, mesmo que caminhe em território desconhecido. 4Quem realizou feitos tão poderosos e chamou cada nova geração, desde o princípio dos tempos? Eu, o SENHOR, o Primeiro e o Último, somente eu.”

5Os povos do outro lado do mar observam com temor; terras distantes estremecem e se aprontam para a guerra. 6Cada um encoraja seu amigo, dizendo: “Seja forte!”. 7O escultor anima o ourives, e o que faz moldes ajuda na bigorna. “Muito bem”, dizem, “está ficando bom.” Com todo o cuidado, juntam as partes e fixam o ídolo com pregos, para que não tombe. 8“Quanto a você, meu servo Israel, Jacó, meu escolhido, descendente de meu amigo Abraão, 9eu o chamei de volta dos confins da terra e disse: ‘Você é meu servo’. Pois eu o escolhi e não o lançarei fora. 10Não tenha medo, pois estou com você; não desanime, pois sou o seu Deus. Eu o fortalecerei e o ajudarei; com minha vitoriosa mão direita o sustentarei.

11“Sim, todos os seus furiosos inimigos ficarão confusos e humilhados. Quem se opuser a você morrerá e não dará em nada. 12Você procurará e não encontrará aqueles que tentaram conquistá-lo. Quem o atacar será reduzido a nada. 13Pois eu o seguro pela mão direita, eu, o SENHOR, seu Deus, e lhe digo: ‘Não tenha medo, estou aqui para ajudá-lo. 14Embora você não passe de um verme, ó Jacó, não tenha medo, pequenino Israel, pois eu o ajudarei. Eu sou o SENHOR, seu Redentor, eu sou o Santo de Israel’. 15Você será um novo instrumento de debulhar, com muitos dentes afiados. Despedaçará seus inimigos e transformará os montes em palha. 16Você os lançará para o alto, e o vento os levará embora; um redemoinho os espalhará. Então você se alegrará no SENHOR e se gloriará no Santo de Israel.

17“Quando os pobres e necessitados procurarem água e não a encontrarem, e tiverem a língua ressequida de sede, eu, o SENHOR, os ouvirei; eu, o Deus de Israel, jamais os abandonarei. 18Abrirei rios para eles nos planaltos e lhes darei fontes de água nos vales. Encherei o deserto de açudes e a terra seca, de mananciais. 19Plantarei árvores no deserto: cedro, acácia, murta, oliveira, cipreste, abeto e pinheiro. 20Assim, todos que virem esse milagre entenderão o que ele significa: o SENHOR fez isso, o Santo de Israel o criou.

21“Apresentem a causa de seus ídolos”, diz o SENHOR. “Que eles mostrem o que são capazes de fazer”, diz o Rei de Israel. 22“Que nos digam o que aconteceu há muito tempo, para que analisemos as provas, ou digam o que o futuro reserva, para que saibamos o que acontecerá. 23Sim, anunciem o que acontecerá nos dias por vir; então saberemos que são deuses de fato. Façam alguma coisa, boa ou má! Façam algo que cause espanto e nos encha de medo. 24Mas não! Vocês são menos que nada e nada podem fazer; os que escolhem vocês contaminam a si mesmos.

25“Eu, porém, levantei um líder que virá do norte; desde o leste ele invocará meu nome. Eu lhe darei vitória sobre os líderes dos povos; ele os pisará como o oleiro pisa o barro.

26“Quem lhes falou desde o começo que isto aconteceria? Quem previu estas coisas e os fez admitir que tinha razão? Ninguém disse coisa alguma, nem uma só palavra! 27Eu fui o primeiro a dizer a Sião: ‘Veja! O socorro está a caminho!’. Enviarei a Jerusalém um mensageiro com boas notícias. 28Nenhum de seus ídolos lhes disse isso, nenhum deles respondeu quando perguntei. 29São objetos tolos e sem valor; todos os seus ídolos são vazios como o vento.” (Isaías 41)

O livro de Isaías é uma fascinante coleção de textos produzidos ao longo de um vasto período histórico e comumente divididas em três partes. A redação final do livro uniu estes textos dando encadeamento e composição para que possamos compreendê-lo hoje como abrangendo três grandes períodos da história de Judá: monarquia, exílio e restauração. O nosso texto pertencente ao Deuto-Isaías, o segundo livro, cujas profecias proferidas datam de entre 550-540 a.C. O autor, neste período, fala aos remanescentes do exílio, aqueles que ficaram em Judá e não foram levados para a Babilônia. É neste contexto que temos um interessante discurso de Javé.

Em nosso texto, o capítulo 41, Javé está lançando um desafio aos outros povos para que eles tragam os seus deuses para confrontá-lo. Ele chega a falar, para mim, num tom de deboche, que o ourives, o escultor e o modelador “com todo cuidado” fixam o ídolo com pregos para que não tombe. Como que dizendo “que deus é esse que precisa ser fixado para não cair, que não pode se mover”. Em seguida, Javé faz outro desafio, incitando os outros deuses a falar do passado e do futuro. A partir daí, Javé passa a dizer como cuidará e restaurará seu povo e sua palavra é palavra de vida e restauração.

Quando pensamos nesta série de mensagens, tínhamos em mente o fato de que a maioria de vocês sabe que Deus fala. Pelo menos é o que penso, pois se você é de fato um cristão, você saberá que ele fala pois você conversa com ele. No entanto, muitos de nós, tomados pela sistematização de nossa relação com Deus, pode ser levado a crer que Deus está mudo. O desafio desta série é mostrar a você que ele fala, e isto faz toda diferença em nossas vidas. Assim, hoje vamos conversar sobre o fato de Deus falar. Vamos ver que, antes da fala, há o silêncio; que não há outro Deus que fale e que sua palavra é vida.

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