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Caminhada pastoral

O pastorado é uma das funções que temos na igreja de Cristo. O pastor é aquele que é separado pela comunidade para preservar a memoria e história da igreja, se capacitar para capacitar outras pessoas a viver a vontade de Deus, cuidar e administrar o dia a dia da comunidade. Dentre seus membros, a igreja escolhe, sob orientação do Espírito Santo, quem é vocacionado para o pastoreio. É uma função nobre, segundo o apóstolo Paulo. É uma função de serviço e entrega. O cristianismo, ao longo dos séculos, tendeu a personificar e supervalorizar a função pastoral. Pastor como “estrela” não é mérito dos nossos tempos. No passado se supervalorizou homens e mulheres. O pastor é supervalorizado, mesmo quando ele não quer. O crente quer que o pastor ore por ele, não outra pessoa. Só para exemplificar.

Hoje, seis de março, completo treze anos de ordenado ao Ministério da Palavra e dos Sacramentos da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil. No dia 6 de março de 2006, em Reunião Extraordinária do Presbitério Ipiranga, recebi a imposição de mãos de pastores, pastoras, presbíteros e presbíteras que me legaram a ordenança de pastorear e servir o rebanho de Cristo. Ao longo de treze anos converti-me ao pastorado, rendi-me aos pés de Cristo inúmeras vezes e procurei dedicar-me com zelo à missão que ele me confia todos os dias. Adoeci, não por culpa da igreja, nem do pastorado, e minha doença não me impede de seguir adiante, continuo a caminhar, a arar a terra, a limpar a ovelha ferida, a cuidar do rebanho, mesmo me sentindo índigo para tal.

Obrigado, Jesus, por treze anos de confiança, apensar de mim mesmo.

Reverendo Giovanni Alecrim
Pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil

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Que a poesia nos mostre o caminho

Parafraseio o verso de Oswaldo Montenegro para abrir este texto pois é na poesia que sempre encontrei eco para minha alma, quando não lendo, escrevendo. Deus me conduz, sempre, à poesia, quando a aflição é grande e incompreensão é maior ainda. Mais poesia, por favor, para aguentar a loucura desses dias e dessas palavras que escrevo em tom de desabafo. Se ao final deste texto você tiver algo a me dizer, não me diga, ore. Ore por mim, por você, por nós. Estamos precisando.

Faltam pouco mais de vinte minutos para a meia noite, de um dos dias mais importantes para a história do protestantismo, quando me assento para escrever estas palavras. O que me traz ao teclado é o sentimento que sempre me moveu a escrever quando a alma, inquieta e perturbada, não consegue aquietar-se e alinhar o pensamento: angústia. Sempre que a angústia toma conta do meu coração recorro às palavras do Salmista. Há um salmo, em particular, que leio, o Salmo 13, aqui, na Tradução Contemporânea A Mensagem:

Por muito tempo, ó Eterno —
Tu me ignoraste por muito tempo.
Por muito tempo, eu só conseguia ver
tua nuca. Por muito tempo,
Carreguei esse enorme fardo de problemas,
vivia com o estômago doendo.
Por muito tempo, meus arrogantes inimigos
me olhavam do alto de sua soberba.
Dá uma boa olhada em mim, ó Eterno, meu Deus!
Quero olhar a vida de frente,
Para que nenhum inimigo tire vantagem de mim
ou dê risada quando eu cair de cara no chão.
Eu me atirei em teus braços —
e celebro teu resgate.
Canto com todas as minhas forças,
depois de tantas orações respondidas.

Este Salmo diz muito sobre minha caminhada de vida. As dificuldades sempre me levam a ele. Não foi diferente hoje. Ele fala de uma pessoa que está cansada de sofrer e que, diante da dor e do sofrimento, encara o fato de que precisa voltar a viver e, ao fazê-lo, sabe que só o Eterno pode dar vida.

Ao longo das últimas semanas somei-me à árdua jornada de um grupo de cristãos em ouvir e acolher pessoas que estão sendo vítimas de assedio moral por conta das eleições. Tenho recebido, antes e depois do segundo turno, contatos de pessoas de todo o Brasil que estão sendo olhadas com soberba. Não tem espectro político aqui. Não tem PTRalha e Bolsominion. Ouvi e li muita coisa aconselhando as pessoas. Pais tirando prato da mesa e mandando filho arrumar comida na casa dos amigos comunistas. Filho dizendo que não vai mais ver a mãe porque ela ia votar no Bolsonaro. Não tem santo nessa história. Essas foram apenas algumas das coisas que ouvi e li nos atendimentos pastorais que fiz. Gente angustiada, oprimida, cansada do discurso de ódio e de pavor ao seu redor.

No meio disso tudo tive que lidar com a triste realidade de ter amigos tripudiando de mim por não declarar apoio a um candidato e outra parte a condenar meu não apoio a ele. Até de “pastor de satanás” fui chamado nesse processo e, diante disso tudo, a única coisa que me vinha à mente era a sentença do verso inicial do Salmo 13, mas do meu jeito: Deus, eu estou te ouvindo, o Senhor está me ouvindo? Estou ouvindo o povo, conversando com as pessoas, mas meu coração está doendo por tudo que estou vendo e lendo. Deus, eu estou te ouvindo, o Senhor está me ouvindo? Essa angústia toda está me consumindo, está doendo em mim, meu coração não está entendendo o teu povo gritando ódio ao invés de libertação. Deus, eu estou te ouvindo, o Senhor está me ouvindo?

Toda essa dor do outro doeu muito em mim. Ver que há, em pessoas tão longe, e ao mesmo tempo tão próximas, dores e dissabores tão intensos me fez olhar para minha dor pessoal e ver que minha dor não é nada. No entanto, tanta dor me tirou, por um instante, o brilho dos olhos, o amor pela vida e eu me achei exausto. Ao longo do dia, Deus colocou dois bons ouvidos para me ouvir, a quem eu louvo pela vida deles, embora não tenha dito nem cinco porcento do que tenho a dizer. Mas foi o refrigério. À noite, me deparei com um texto de uma irmã de fé e caminhada cristã que me fez sorrir pela beleza de Cristo naquelas palavras. Foi a hora do refrigério.

Ao longo desses dias fui atacado, criticado, chacoalhado por todos os lados. Gente que defende Bolsonaro me acusando de “passar pano para bandido”. Gente que defende PT me acusando de “passar pano para torturador”. E no meio de tudo estou eu, politicamente não alinhado com nenhum dos dois, profundamente democrata e representativo, afinal sou pastor PRESBITERIANO.

Por isso, faço do clamor do salmista o meu clamor: Dá uma boa olhada em mim, ó Eterno, meu Deus! Quero olhar a vida de frente. Não quero permitir que os relatos de ódio sejam maiores que os abraços de paz. Não sou capaz de tirar a angústia de cada um que ouvi, ouço e atendo, mas Cristo é, e por isso eu clamo a ti, ó Deus, que teu Filho nos mostre o caminho, mesmo quando não há um. E encerro aqui com três poesias, uma do salmista, uma de Oswaldo Montenegro e uma minha. Só a poesia pode nos ajudar a reencontrar a beleza da alma nessa hora.

Salmo 133, Salmo de Davi

Como é bom e agradável
quando os irmãos vivem em união!
Pois a união é preciosa como o óleo da unção,
que era derramado sobre a cabeça de Arão
e descia por sua barba,
até a bainha de suas vestes.
É revigorante como o orvalho do monte Hermom
que desce sobre os montes de Sião.
Ali o SENHOR pronuncia sua bênção
e dá vida para sempre.

Metade, de Oswaldo Montenegro

Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio
que a morte de tudo em que acredito
não me tape os ouvidos e a boca
pois metade de mim é o que eu grito
a outra metade é silêncio

Que a música que ouço ao longe
seja linda ainda que tristeza
que a mulher que amo seja pra sempre amada
mesmo que distante
pois metade de mim é partida
a outra metade é saudade.

Quer as palavras que falo
não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor
apenas respeitadas como a única coisa
que resta a um homem inundado de sentimentos
pois metade de mim é o que ouço
a outra metade é o que calo

Que a minha vontade de ir embora
se transforme na calma e paz que mereço
que a tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada
porque metade de mim é o que penso
a outra metade um vulcão

Que o medo da solidão se afaste
e o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso
que me lembro ter dado na infância
pois metade de mim é a lembrança do que fui
a outra metade não sei

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
pra me fazer aquietar o espírito
e que o seu silêncio me fale cada vez mais
pois metade de mim é abrigo
a outra metade é cansaço

Que a arte me aponte uma resposta
mesmo que ela mesma não saiba
e que ninguém a tente complicar
pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
pois metade de mim é plateia
a outra metade é canção.

Que a minha loucura seja perdoada
pois metade de mim é amor
e a outra metade também

Habitação, de Giovanni Alecrim

Quando pensei que haveria empatia,
encontrei indiferença
Quando pensei que haveria solidariedade,
encontrei condenação
Quando pensei que haveria mutualidade,
encontrei inimizade
Quando pensei que haveria acolhimento
encontrei rejeição

Mas não tem nada não, meu irmão,
Sua escolha política não pode
Te transformar em meu inimigo,
Mesmo que me vires as costas
Mesmo que me cerres o punho
Mesmo que me negues o ouvido
Mesmo que me empurres para longe.

Jesus veio morar no meio de nós,
e é comigo e contigo, irmão
que ele veio habitar.
Que Cristo habite em ti.
Que Cristo habite em mim.
Que Cristo habite em nós.

Reverendo Giovanni Alecrim
Pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil

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Mudança

Somos temporais. Lidamos com o tempo e, muitas vezes, lutamos com ele. O tempo passa. O sábio escreveu “E sei que tudo que Deus faz é definitivo; não se pode acrescentar ou tirar nada. O propósito de Deus é que as pessoas o temam” (Eclesiastes 3.14). Tudo o que Deus faz é definitivo. Ele assim o determinou e assim acontece. Um pouco antes, o mesmo sábio afirmou que “E, no entanto, Deus fez tudo apropriado para seu devido tempo. Ele colocou um senso de eternidade no coração humano, mas mesmo assim ninguém é capaz de entender toda a obra de Deus, do começo ao fim. Concluí, portanto, que a melhor coisa a fazer é ser feliz e desfrutar a vida enquanto é possível” (Eclesiastes 3.11-12).

A melhor coisa a se fazer é ser feliz. A nossa vida, por vezes, toma rumos inesperados. Deus nos conduziu, em 2013, de São Paulo para Araraquara. Aprouve a Deus, em 2018, nos levar de volta para São Paulo. Assim, no próximo ano não serei mais pastor da IPI Araraquara, SP, mas assumirei, com a graça de Deus, a IPI Tucuruvi, em São Paulo, SP.

Deus conduziu todo o processo, da decisão de minha saída de Araraquara ao convite pela Igreja do Tucuruvi, ensinando a mim e minha família como confiar e crer que ele tudo provê.

Araraquara estará marcada eternamente em nossos corações. Nosso menino Antônio cresceu até os cinco anos aqui, deu seus primeiros passos e aprendeu suas primeiras palavras. Nosso menino José nasceu aqui, um araraquarense que Deus nos deu para nos ligar eternamente com a cidade que aprendemos a amar.

À IPI Araraquara, minha gratidão por cinco anos de amizade e muita confiança, firmados na Palavra de Deus. Nossa amizade é para a eternidade.

À IPI Tucuruvi, minha gratidão por confiar em mim e pelo convite. Caminharemos juntos, com a graça de Deus!

Estamos de volta à São Paulo.

Família Alecrim
Giovanni, Tatiana, Antônio e José

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Deslizes

Já não existe nem o certo, nem o errado…

Tomo o título e um verso da canção de Raimundo Fagner para um desabafo gramático-ortográfico. Sinto que preciso voltar aos bancos da sala de aula, quiçá numa dessas escolas de reforço escolar, para reaprender as regras gramaticais e ortográficas. Não me preocupam os erros cometidos por deslizes, com certeza você lerá um deles aqui, mas sim aqueles que estão se perpetuando entre postagens de textinhos no Twitter e textões no Facebook.

As vírgulas, os pontos, as concordâncias. Esqueça tudo. Está cada dia mais difícil entender uma frase. Til, agudo, circunflexo. Esqueça também. Nada faz sentido mais. Por falar em mais, qual a diferença entre “mas” e “mais”? Haja interpretação de contexto para se perceber qual deveria ter sido usado, mas não foi.

Escrever corretamente ficou para os burocratas, advogados, escritores e os “metidos a intelectuais”. Saber escrever bem anda de mãos dadas com saber ler bem. Quem lê um texto bem escrito sabe escrever bem. No entanto, temos um monte de gente capaz de encontrar solução para os corruptos, os conservadores, os liberais, os atrasos da nação e as mazelas políticas, mas são incapazes de ler um texto e tirar conclusões plausíveis do mesmo. Da mesma forma, são incapazes de usar corretamente uma virgula ou concordar o sujeito com o verbo e o objeto. Assim, retomo o verso supracitado e concluo que, em questões de escrita, “Já não existe nem o certo, nem o errado…”.

Reverendo Giovanni Alecrim
Pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil

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Tecer amor

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