Conto

Transbordar

Hoje eu não estou cabendo em mim. Sabe aquela sensação de que o mundo ao seu redor te comprimiu e tudo o que é você não é mais você? O vazio, o silêncio, a lágrima. Parece que não há mais espaço em mim mesmo, nem mesmo para mim. Tanto vazio, tão pouco espaço. Sinto como se a vida me fosse indiferente. Sinto o que há anos não sentia. Uma vontade de, um desejo de. De o que? Não dá para dizer. Não ouso pronunciar. Essas noites que não passam, e eu que não sou mais um menino, sinto como se a vida me tragasse de volta aos anos da juventude. Quero. Desejo. Não faço. É como se a vida, por conta do cansaço e da pressão, tivesse transbordado e, num diluvio, me esvaziado. Quero. Desejo. Falta coragem. Hoje encarei, novamente, aquela que vivia a me seduzir anos a fio, e por um momento, quis abraça-la, deixar me envolver por ela.

São 13h, acabei de almoçar. A multidão do shopping parece não fazer eco em mim. Solidão. Sinto aquele caroço, que a angústia coloca em nós, de repente, e parece que não nos deixa gritar, vomitar nem engolir. Fica li, parado, entre a respiração, a fala e a alma. Só queria recuperar o fôlego, mas o silêncio gritante que há em mim me consome. Essa vontade de gritar, que não permite a voz sair. Essa vontade de calar, que me faz querer gritar. O espelho me consome. Olho, não me reconheço ali. Vejo quem fui, que insiste em querer voltar, insiste em querer retornar. Calo-me. Paro de escrever. Há tanto a confessar, nada a fazer. A vida transbordou, mas também me esvaziou.

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Conto

Particularmente

Hoje você estava particularmente linda. O sorriso leve nos lábios, o olhar atento ao que acontecia. Havia em você uma beleza, entranhada a um sentimento que não sei dizer o que era. Havia paz em mim, quando olhava para ti, mas havia também um turbilhão de sensações. Como queria poder viver meus sonhos com você. Como queria poder ser aquele que te acolhe, abraça, faz feliz. Sua beleza me cativou. Cativar. Tornar cativo. Cativeiro do meu coração. Sequestraste-me? Não, fui levado para dentro de ti, pelo suave sussurrar da amizade, pelo fogo intenso da paixão. Fiz-me cativo. Fiz-me? Não sei, só sei que, quando dei por mim, estava aí, dentro de ti, ou seria você dentro de mim? Quem me dera estar dentro de ti! Quem me dera ser alvo do seu pensamento, dos seus suspiros, dos seus sorrisos. Hoje você estava particularmente linda e estou particularmente ainda mais apaixonado.

Conto

Sorriso

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Em silêncio, à distância, contemplo o teu sorriso. Tanto a dizer. Nada a falar. Tanto a sonhar. Sonhar. É o que tenho podido fazer. Sonhar com você, seu abraço, seu sorriso, seu olhar. Há tanto barulho em mim. Ruídos de desamor, de egoísmos, de indiferença. Mas em meio aos ruídos da minha alma, seu sorriso abriu caminho, entrou devagar, iluminando meu interior, afastando a escura solidão, acabando com o gris da indiferença e me trazendo paz. Seu sorriso me dá paz. Paz. Muita paz. Em silêncio contemplo você me inundando de paz.

A cena parece não mudar. Quanto tempo passou depois que eu comecei a te contemplar? Um minuto? Dez? Vinte? Uma hora? O que importa? Ver-te assim, linda, fez meu corpo inteiro estremecer. O sorriso veio fácil em minha boca. Sorriso de satisfação, de desejo, de paixão. Teu sorriso me cativa, faz minha alma renascer. Como eu queria seu sorriso sorrindo para mim. Como que queria seu sorriso me dominando por completo. Queria. Queria. Querer. Querer nem sempre é poder. Por isso sonho. Por isso escrevo. Por isso choro.

Canções me vem à mente. De repente, você curte as mesmas canções que eu, os mesmos assuntos, as mesmas ideias. De repente, o sorriso tá mais vivo, brilha mais, me encanta mais. De repente. Como eu queria, de repente, mudar o mundo, revirar a história, recontar a vida. Como calar os olhos que insistem em buscar teu sorriso? Como calar a razão que insiste em dizer “não-sim”? Como calar o coração que insiste em sussurrar seu nome, no meio da noite, quando o travesseiro acolhe minhas lágrimas pela dor que sinto e que, não se preocupe, não foste tu que causaste?

Mas eu continuo ali, parado, contemplando a cena. O sorriso. Precisa mais que um sorriso para mudar meu dia? Quantos sorrisos teu eu já contemplei? Quantas vezes, inquieto, esperei você? Você não veio. Você veio. Se estás, o sorriso me acolhe. Se não estás, a lembrança do teu sorriso me conforta. Agora mesmo, no meio do ruído da cidade, entre uma demolição e uma conversa por um punhado de dólares, estou aqui, vendo outros sorrisos e me lembrando apenas do seu sorriso, do seu olhar, da sua voz, do seu jeito, de você. O teu nome pulsa em mim. O teu nome corre em minhas veias.

Coração bagunçado esse o meu. Estava de boa, calado, adormecido e entorpecido pela certeza do silêncio e da desilusão de uma espera que se desenha eterna. Agora está inebriado pelo seu sorriso, imerso em você, desejoso de ter você. Coração bagunçado, insatisfeito, mas ainda assim desejoso. Parece que não há mais saída, terei que conviver com a bagunça que tomou conta de mim, começando pelo coração que foi arrebatado pelo teu sorriso, iluminado por ele, alcançado por ele.

A luz do dia, final de tarde, batia sobre seu rosto. O seu sorriso, suave e constante, conversando e saboreando algo, me cativava na mesma medida que me acolhia, me prendia na mesma medida que me libertava, me seduzia na mesma medida que me aconchegava. Como deixar de olhar para esse sorriso? A grama, a árvore, a luz do sol, a pele, o sorriso, você. Queria congelar a cena. Tudo é luz. Tudo é poesia. Tudo é você.

Conto

Vendar

Bateu um desejo de me vendar, deixar de ver, para não sofrer. Balela, como se o coração não visse tudo, mesmo oculto dentro em mim.

Tudo que preciso é haurir. Ex-haurir, expulsar de dentro de mim o que me faz sonhar, querer, desejar e viver. Não consigo. Sou fraco demais, sou impotente diante de tudo.

E você continua aqui, do jeitinho que chegou: sem saber, sem querer, sem desejar roubou-me de mim. Devolva-me ou pelo menos tenha a (in)sensatez de sequestrar-me pra sempre.

Conto

Foto em branco e preto

Aquele cara, de chapéu, na foto em branco e preto, tem no olhar o desejo de ser, ter, viver.

Sofre, se angustia, mas tem de levantar, todas as manhãs, e sorrir, ajudar, apoiar.

Uns o tem por egoísta, outros por um idiota que facilmente se usa.

O que ele é?

Ele é ele, e nada mais.

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