Conto e Crônica

Você

Hoje eu acordei com você em minha mente. Novidade. Como se não fosse assim toda manhã. Eu não sei como foi acontecer. Mas você está em mim como nunca jamais alguém esteve. Já te disse uma vez: não foi tempestade de verão, foi como um rio, que nasce suave e logo toma conta de todo seu leito. Mas hoje acordei com você em minha mente. Tudo o que fiz e pensei, ao longo do dia, me remeteu a você. O café, a xícara, o aroma, o pão, tudo. Você estava lá. E por mais que eu prestasse atenção nas rotinas do dia, era você que permeava minhas atitudes e pensamentos. Como pode? Tanto tempo sem te ver, e você aqui, pulsando em mim.

Estamos tão distantes. Não nos falamos decentemente faz tanto tempo. E ainda assim você me acompanha em cada momento. Lugares que não estivemos, lá está algo que me remete a você. Sabores que não experimentamos juntos, lá estão sensações que levam a você. Canções que não dividimos, está lá aquela frase que fala sobre você e eu. Incrível. A vida gira, o mundo revira, ainda assim, tudo é você, tudo é lembrança, tudo é esperança.

Ao longo de minha caminhada, até aqui, tentaram te arrancar de dentro de mim. Usaram técnicas persuasivas, quiseram me vitimizar, depois, me culpar, por fim, fizeram o que sempre pedi: me deixaram comigo mesmo. Então, depois de sessões e sessões, descobri uma verdade que já sabia: é impossível, não dá para te tirar de mim. Tenho a convicção que nem mesmo o tempo pode fazê-lo. Você está aqui, já te disse, cravada e marcada eternamente em mim. Eterno. Não dizem que é eterno o amor? Terno e eterno. Dói. Como dói o silêncio. Mas ainda assim, é eterno e terno.

Um dia me disseram que, se eu quisesse, eu poderia te esquecer. Juro que tentei. Com todas as minhas forças eu tentei. Mas não consegui. Eu me apaixonei meia dúzia de vezes desde a última vez que te vi. Paixões bobas, outras mais intensas, mas todas paixões infantis. Todas para tentar preencher uma ausência que, eu sei muito bem, só você pode preencher. Mas amar, amar de sonhar, de querer, de pensar, só um nome me vem à mente: o seu. Mesmo que eu queira, todas as paixões que despertam em mim, me remetem a você. Seu olhar, sorriso, jeito de andar, de falar meu nome. Sua pele, suas mãos, seu perfume. Tudo. Tudo me leva até você.

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Conto e Crônica

Ele sabe

Seu pensamento não cabia em si mesmo. Ele viajava em devaneios e sonhos tão loucos que lhe parecia possível ser verdade o que era só imaginação. Era duro reconhecer, mas ele tinha que admitir. Aquela moça de cabelos negros esvoaçantes, sorriso largo, olhar penetrante, coxas grossas e quadril envolvente o havia fisgado com apenas meia dúzia de palavras. Idiota. Mais uma vez estava apaixonado por alguém impossível. Paixões impossíveis. Quem soubesse de suas paixões poderia pedir uma lista de nomes que ele daria facilmente. Idiota. Parece que se apaixona tão fácil que não se dá conta.

E lá estava ele, sonhando acordado, fazendo conexões entre seus devaneios e as canções que ama. Como ficar ileso diante daquele charme? Impossível. Mas ele é assim. Se apaixona na fila do pão, no vagão do metrô, no ponto de ônibus e no restaurante. Tudo num mesmo dia. Coisa boa é se apaixonar. Não é mesmo? Cada paixão uma história. Mas, seria ele um instável, que não sabe o que quer? Ou seriam suas paixões o refúgio de suas palavras, sonhos e desejos? Nada mais fugaz que uma paixão. Nada mais natural que apaixonar-se e desapaixonar-se. Ele sabe, no fundo dele, que viverá amando uma só mulher. Ele sabe, no fundo dele, que esse amor não o impedirá de se apaixonar e desapaixonar diariamente. Ele sabe que tais paixões são chuva de verão, vem e vão, causam impacto, mas não permanecem. Ele sabe. O que mesmo que ele sabe?

Conto e Crônica

Um ato único à dois

Os olhos inchados denunciavam: chorara por muito tempo. Era pouco mais de onze e meia da noite de uma sexta-feira quando entrara em casa e sentou-se ao lado do pai, que no sofá assistia pela enésima vez Sociedade dos poetas mortos.

Esse DVD ainda não furou, pai?

Disse tentando disfarçar a voz embargada

Pois é filha, essa história não para de me fascinar.

Seu jeito reservado nunca o fez perguntar diretamente para a filha o que acontecia, apenas a deixava a vontade para falar.

E você, filha, o que te fascina?

Histórias de amor…

Foi o suficiente para encostar a cabeça no ombro do pai e voltar a chorar. O pai a abraçou e acolheu sua filha. Respirou fundo. Sempre que a filha passava por situações difíceis, lembrava-se da esposa, que saíra de casa para trabalhar numa manhã e nunca mais voltou. Seu corpo nunca foi encontrado. Ninguém sabe dela. Esse vazio consumia-o, ao mesmo tempo em que tinha que encontrar forças para educar a filha.

Após alguns minutos de choro, ela se recompõe. O pai, que já havia desligado a TV, levantou-se e acendeu a luz. Olharam-se calados, e no silêncio já sabia o que havia acontecido. O namoro com Mauricio terminara e não foi ela que terminou.

Ele tem outra pai… tanto amor, tanta dedicação para isso…

O pai apenas a ouviu e deixou que chorasse. Não há nada a ser dito nessa hora, não agora, apenas ouviu a filha chorar e sentir no coração a dor de uma traição, de um fim de relacionamento. Lentamente, após horas de lágrimas e lamentos, ele a conduziu para o quarto, beijou sua testa e pediu à filha que descansasse, conversaria com ela pela manhã.

O sábado amanheceu preguiçoso como devem ser os sábados: uma pequena chuva a convidava para ficar mais um pouco na cama, mas o cheiro do pão assando na cozinha a convidava a se levantar. De pijama, foi até a cozinha e parou na porta olhando para seu pai. Quase cinquenta anos, cabelos ralos e brancos, via nele uma fortaleza.

Você está aí filha? Fiz um pão de mandioca, receita de sua bisavó, lembra? Fiz pela última vez no meu aniversário ano passado.

Claro pai, adoro quando você faz pão!

Deliciaram-se com um pão inteiro, acompanhado de café fresco. Após alguns instantes de trivialidades sobre a vida, ela resolve falar um pouco mais sério.

Pai, como soube que minha mãe era o amor de sua vida?

Nunca soube, filha. Até hoje não sei. Ela saiu e nunca mais voltou, mas nunca soube, pois amar sempre foi dúvida, nunca foi certeza.

Mas isso não é angustiante demais?

Para mim não, para mim era a missão diária de conquistar sua mãe. Pelo visto falhei…

Fez-se um silêncio enquanto se entreolhavam e a filha pôde ver dos olhos do pai, fechados, correrem lágrimas.

Mas, mesmo que tenha falhado com sua mãe, e por isso ela nunca mais voltou, ainda creio que com você eu tenho acertado, pelo menos tento…

Você é a melhor mãe e o melhor pai do mundo, pai.

Voltaram a se olhar e disputaram, no riso, o último pedaço de pão.

Pai, como vou saber que encontrei a pessoa certa para minha vida? Se amar é dúvida, como saberei?

Filha, não tente saber, amor não se sabe, amor se vive. Por isso não admito, mesmo que seja possível, conjugar amor no plural, pois para mim amar é ato único de múltiplos seres, é estar unido, mesmo que distante.

Por um momento, filha e pai se reconheceram naquela manhã preguiçosa de sábado como duas pessoas sós. Ela, não sabia onde estaria e quando viveria esse amor de que seu pai falava. Ele, sabia bem quem ele amava e o quanto esperava que ela o procurasse. Mesmo que naquele dia ele não soubesse dela, ele a esperava, pois a espera o fazia crer no milagre de um amor único, sentido e vivido por duas pessoas que não sabiam mais uma da outra.

Conto e Crônica

Calmamente

Sorriu-lhe calma e serenamente. Ele não sabia bem por quê, mas ela lhe sorria. Seu sorriso realçava o brilho de seu olhar e seu cabelo, preso como rabo de cavalo, balançava de um lado para outro enquanto o convidava para entrar.

Venha, sente-se aqui, fique a vontade que já venho para conversarmos.

 Ele saíra de casa cedo e cruzara a cidade para uma conversa com uma cliente. Surpreendera-se com a simplicidade daquela jovem, com seu jeito menina por trás de seu olhar de vinte e poucos anos. Voltou para a sala e sentou-se no sofá ao lado dele. Sorrindo, ela conta sobre sua empresa e como ele poderia ajudá-la no dia a dia com os funcionários. Ele, consultor, olhava atentamente para aqueles olhos negros e profundos, mas tão brilhantes que lhe iluminava a alma.

Após duas horas de conversas, ela abre o jogo.

Posso ser sincera?

Claro!

Não te chamei aqui por causa da minha empresa.

Não?

Não. Assisti uma palestra sua na empresa de uma amiga. Acompanhei da sala dela e me encantei com seu jeito, você é muito inteligente. Queria te ver e conversar com você. Adoro homens inteligentes.

Mas para isso não precisava agendar um horário.

Não?

Não, era só me ligar e me convidar para sair.

 Olharam-se calmamente. Silenciaram a conversa e devoraram-se com os olhos. Calmamente beijaram-se. Calmamente, ela invadiu o coração dele e fez uma revolução, silenciosa e serena. Revirou seu coração procurando as dores e abraçou-o como se abraça um homem, que também chora menina morena, mas que deseja mais que um colo, deseja uma mulher. Naquele dia, ela deixou de ser menina para ser a mulher que ele tanto precisava, e não sabia, para ser a mulher que recolocou sua vida nos trilhos do amor e da paz.

Conto e Crônica

Você é o amor que quero viver

Estava em seu apartamento, sentado no sofá, quando bateram à porta. Estranho demais, pois não conhecia tão bem assim seus vizinhos a ponto deles virem ao seu apartamento. Levantou-se, foi até a porta e abriu-a. Deparou-se com uma moça, vinte e poucos anos, cabelos longos e olhos cor de mel. Surpreso ouviu um bom dia com um sorriso fascinante.

Bom dia, consegui convencer o porteiro a me deixar subir sem me anunciar, lembra de mim?

Coçou a cabeça como se quisesse estimular a mente. Parecia-lhe familiar, mas não lembrava quem poderia ser. Ela interrompeu os segundo de silêncio:

Fernanda, você foi meu vizinho na Lapa por cinco anos.

Entraram e começaram a conversar. Ele foi até à cozinha passar um café pensando o que fazia ali aquela menina. Ele a vira sair da infância e entrar na adolescência e tinha mais que o dobro de sua idade e estava constrangido sem entender o que ela fazia ali. Chamou-a à cozinha e ficaram ali conversando. Soube que ele foi o primeiro a dar-lhe de presente um livro de Fernando Pessoa. Soube também que ela visitava diariamente seus site e lia compulsivamente seus textos. Ela falou de personagens e situações que ele escrevera que ela achava lindas, intrigantes e fascinantes.

Café pronto, sorveram-no olhando-se por sobre a caneca. Ela era linda, jovem, cheia de vida, ele apenas um cara solteiro de quase quarenta anos de idade. Facilmente ele se encantou com aquela menina. Sentaram-se no sofá e passaram a manhã inteira conversando sobre Antonio Cícero, Fernando Pessoa, Carlos Heitor Cony, Moacir Scliar e outros autores que ambos gostavam.

Após horas de conversa fez-se silêncio. Apenas se olharam, e em seus olhos ele pôde ver algo que não via há muito tempo. Um sorriso que não estava em seus lindos lábios, mas vinha da alma, um sorriso de quem ama por amar e não precisa de um motivo, mas simplesmente do amor. O amor pelo amor foi o que viu em seus olhos. Ela inclinou-se em sua direção, sorriu-lhe, sussurrou seu nome e acariciou seu rosto. Beijaram-se. Era o que ela mais queria desde os treze anos. Ele, em êxtase com o doce sabor de seus lábios, afastou-se assustado. Ela sorriu.

Não me venha com papo de idade, eu sei o que quero, e o que quero é amar. Você é o amor que quero viver.

Por três anos namoraram. Por mais de trinta anos foram casados. Dois filhos. Quatro netos. Anos mais tarde, já na velhice, quando ele morreu, vítima de um enfarto ela calou-se. Os filhos e netos lhe davam alegria, mas ela apenas calou-se e numa fria noite de inverno, deitou-se no sofá de sua casa, com o livro de Fernando Pessoa que ganhara dele em suas mãos e, num suspiro melancólico mas feliz, morreu de amor.