O cristão e a necessidade do diálogo

O direito de firmar posição é um direito inegociável na democracia. Você pode ter sua opinião sobre o assunto que tiver e, mesmo que sua opinião seja racista, exclusivista e incoerente. A sua opinião é sua e ninguém tem o direito de tirá-la. Mas, como tudo na vida, existe um senão e o senão aqui está nas relações sociais, que são complexas, variáveis dentro de fatores como região, pessoas e grupos além de outras complexidades que existem no tecido social. Vivemos dias tensos no país, e não, não começou em 2018, nem em 2016, foi semeado na criação do “eles contra nós” na virada do século XX para o XXI. De lá para cá, o cenário político criou rivalidades e as redes sociais permitiram que surgissem pessoas capazes de influenciar massas. Uma serie de fatores fizeram com que trocássemos o consenso e o diálogo – construir ponte, diria Ju Wallauer do PodCast Mamilos – pelo embate em busca da destruição e aniquilação do outro. Quando vejo pessoas pedindo o fim do partido de oposição às suas ideias, eu não vejo um debate de projetos e de ideologias para uma construção social, o que vejo é a necessidade da eliminação do outro para que nada nem ninguém impeça o meu ponto de vista de ser o correto. Nesse contexto, famílias se dividem, amizades encerram e até mesmo nas igrejas as pessoas deixam de falar uma com as outras.

É aqui que eu quero chegar. Eu vejo mais postagens de pessoas cristãs sobre política do que a ação política dessas pessoas. Falar de política, problematizar, relativizar, teorizar e enfrentar é fácil. Difícil está em colocar em prática o que se teoriza. Vejo poucos cristãos que dizem querer combater a corrupção agindo de forma a, de fato, combatê-la. Como exemplo dou o simples fato de pedir Nota Fiscal de suas compras, com o intuito de não permitir que o comerciante venha a sonegar. Apenas isso. Sem contar uma infinidade de exemplos que poderia dar aqui. O testemunho cristão é uma das formas como pregamos o evangelho. Tenho visto cristão pregando intolerância, rechaçando pecadores, condenando pessoas ao inferno e, acredite se quiser, desejando a morte de pessoas. Não sei qual o cristo que elas servem, pois, o Cristo, Jesus, Filho de Deus, não é. Servem interesses pessoais em primeiro lugar e acomodam-se em políticos para justificar seus posicionamentos pessoais para, por fim, fundamentar sua inercia na proclamação do evangelho. Triste? Sim, mas é o retrato da realidade da maioria das igrejas cristãs pelo Brasil. Os grupos de WhatsApp tornaram-se em redutos políticos para firmar posição sem se abrir para o diálogo. As rodas de conversas, quando chegam no assunto política, tendem a se diluir caso haja divergências. Enfim, falta aquilo que é mais precioso para a democracia e que aprendemos com Jesus: o diálogo com o diferente. Sim, Jesus conhecia bem os seus conterrâneos – fariseus, saduceus, zelotes, sacerdotes, etc. – e com eles dialogou. Somos tentados a pensar que ele sempre teve embates com os Fariseus, mas temos relatos de que, nesses embates, havia diálogo, havia firmar de posição sem deixar de construir pontes para transformação de vidas. Nunca foi via de mão única, sempre foi dialogada. Com os diferentes, não apenas de opinião social e religiosa, mas de nação, ele nunca se furtou a dialogar. Mulher samaritana, mulher sírio-fenícia, centurião romano, helênicos, apenas para citar alguns dos diferentes com quem Jesus dialogou. Se Jesus dialogou, por que nós não podemos dialogar? Porque muitos consideram que seu ponto de vista é tão fundamental que não pode ser mudado, provado, dialogado e reconsiderado e o pior, consideram que, se as pessoas não concordam com o seu ponto de vista, elas são inimigas.

Concluo este texto, em tom de desabafo, dizendo que estou cada dia mais convicto que os cristãos genuínos não estão interessados nesses debates, não estão interessados no firmar de posições ou de brigar nas redes sociais por causa de política, mas antes, estão preocupados em viver o evangelho. Quem muito grita, pouco faz, pois perde tempo gritando. Enquanto assistimos o fundamentalismo religioso firmando posição, enquanto assistimos líderes religiosos dizendo em quem você deve votar, enquanto assistimos líderes políticos dizendo amém para todos os deuses, vemos uma imensa massa de membros de igrejas, de todos os tipos – Reformados, Pentecostais, Neopentecostais, Católicos – se rendendo à falácias ao invés de se renderem ao Evangelho. Eu sigo me policiando e controlando para “Que as palavras da minha boca e a meditação do meu coração sejam agradáveis a ti, SENHOR, minha rocha e meu redentor! (Salmo 19.14)

Reverendo Giovanni Alecrim
Pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil

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