O Cabo e a Igreja no monte

Desde 13 de agosto um candidato à presidência do Brasil está recluso, num monte, em contato com o mundo exterior apenas pela internet, orando e jejuando. De tradição pentecostal, imerso em contatos com as igrejas neopentecostais, os discursos e participações de Daciolo soam como um culto neopentecostal, e não como um político. Sempre de Bíblia na mão e com o sotaque e fala de pastor carioca, ele não hesita em usar o nome de Deus em seus argumentos.

A candidatura de Cabo Daciolo é uma síntese da realidade evangélica brasileira. Totalmente desconectada da realidade social, imersa em sua realidade religiosa, presa no monte com suas tendas armadas e sem contato com o povo, que clama no pé do monte, por socorro. Interessante que a relação bíblica com os montes é sempre de habitação e manifestação de Deus e não dos homens. O lugar do homem não é no topo do monte, mas antes, no pé dele. Assim, o lugar de Moisés não é no Sinai, mas junto ao povo, para que a Lei trouxesse transformação. Para o profeta Habacuque, o monte é de onde vem o Senhor, Javé, para exercer a justiça, o profeta não deseja estar no monte, deseja que Deus venha até ele para promover transformação. O salmista canta que ele eleva os olhos para os montes para saber de onde lhe virá o socorro. É a mesma perspectiva de Habacuque: a salvação vem do Senhor, quando ele sair de sua habitação, o monte, a salvação virá. Nos evangelhos, temos o monte da transfiguração, onde Pedro, Tiago e João desejam armar as tendas e ali ficar para sempre. Mas não é ali o lugar de quem é chamado e enviado por Deus. Jesus mostra que quem é seu seguidor e carrega seu nome, Cristo-cristão, é gente do povo, que ama o povo e deseja estar com o povo. E isso não era nenhum ensino novo. Moisés desceu para orientar e corrigir o povo. Habacuque desejava a vinda de Javé do monte para corrigir e salvar o povo. Jesus desceu o monte para ensinar, curar e libertar o povo. O monte era evento, o povo era a rotina.

A igreja tem se prendido ao monte. Chamamos este monte, hoje, de templo ou evento. Temos uma imensidão de crentes, em igrejas pentecostais, neopentecostais, tradicionais, conservadoras, liberais, que têm vivido uma fé pautada em estar no templo e em torno do templo. É o monte, é bom estar lá, é lá que é o meu refúgio quando tudo está mal. Acontece que este templo, físico, com CEP e tudo mais, se estende para a vida das pessoas. Elas não são capazes de olhar ao redor do monte, ao redor delas mesmas e ver os que clamam, os que pedem, os que sofrem com as injustiças do mundo e, pior, os que estão perdidos em seus medos e anseios. Atente que a rotina de igreja, do dia a dia da igreja pode levar você e eu a nos esquecermos do que é primordial para a vida cristã: o contato com o povo. Jesus veio para buscar e salvar o perdido, não para ficar no monte. Jesus nos enviou a pregar o evangelho a toda criatura, isso se dá no templo? Também, mas não somente. Se dá no dia a dia e precisamos entender e compreender a urgência de sair do monte e estar em contato com o povo. O resumo de tudo que escrevo aqui é: sem contato com o povo não se prega o evangelho. Conecte-se, una-se, junte-se, comprometa-se com as pessoas. Não estou dizendo para você deixar de ir à igreja, estou dizendo que Igreja é gente, sem gente não tem igreja. Evangelize, fale do amor de Deus, viva este amor. Desça do monte!

Reverendo Giovanni Alecrim
Pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil

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