Cristo e nada mais: Fidelidade

 

26Essa mensagem foi mantida em segredo por séculos e gerações, mas agora foi revelada ao seu povo santo, 27pois Deus queria que eles soubessem que as riquezas gloriosas desse segredo também são para vocês, os gentios. E o segredo é este: Cristo está em vocês, o que lhes dá a confiante esperança de participar de sua glória!

28Portanto, proclamamos a Cristo, advertindo a todos e ensinando a cada um com toda a sabedoria, para apresentá-los maduros em Cristo. 29Por isso trabalho e luto com tanto esforço, na dependência de seu poder que atua em mim.

1Quero que saibam quantas lutas tenho enfrentado por causa de vocês e dos que estão em Laodiceia, e por muitos que não me conhecem pessoalmente. 2Que eles sejam encorajados e unidos por fortes laços de amor e tenham plena certeza de que entendem o segredo de Deus, que é o próprio Cristo. 3Nele estão escondidos todos os tesouros de sabedoria e conhecimento.

4Eu lhes digo isso para que ninguém os engane com argumentos bem elaborados. 5Pois, embora eu esteja longe, meu coração está com vocês. E eu me alegro de que estejam vivendo como devem e de que sua fé em Cristo seja forte.

6E agora, assim como aceitaram Cristo Jesus como Senhor, continuem a segui-lo. 7Aprofundem nele suas raízes e sobre ele edifiquem sua vida. Então sua fé se fortalecerá na verdade que lhes foi ensinada, e vocês transbordarão de gratidão. (Colossenses 1.26—2.7)

Crise, crise, crise. Parece que o noticiário voltará ao monotema das crises, uma vez que a Copa do Mundo acabou. Agora, passada a euforia de Copa do Mundo, as coisas voltarão ao eixo de antes e voltaremos a ver, tomando conta da mídia, o que já é realidade na vida da gente. Não bastassem as crises gerais – economia, sociedade e segurança – ainda temos as nossas crises pessoais, que procuram nos abalar a fé e nos fazem questionar a mão de Deus sobre nós. Particularmente, temos vivido tempos difíceis em nossa igreja, com pessoas enfermas e carecendo de cuidados especiais. Outras pessoas têm passado por situações familiares difíceis e outras ainda passado por situações que elas sequer tiveram ainda a coragem de compartilhar. Nossas crises se somam. Tanta desilusão. Tanta desesperança. Tanta falta de amor. Mas há algo que também se soma e que é maior que nossas crises e maior que tudo aquilo que imaginamos: os laços de amor e encorajamento que nos une como Corpo de Cristo.

O amor de Cristo é maior que toda e qualquer crise e os colossenses estavam experimentando esta realidade quando Paulo recebe o relato de Epafras, que o motiva a escrever sua carta para a igreja de Colossos. Hoje vamos continuar caminhando pela carta aos Colossenses. Passamos pelo hino cristológico e chegamos ao encerramento das palavras de saudação de Paulo. Vamos ver como colossenses 1.24—2.7 nos convida a sermos fieis e, sendo fieis, vivermos a vontade de Deus para nós. Superando crises, colocando os problemas no seu devido lugar e entendendo que a vida é Cristo e nada mais.

Somos fieis, pois ele está em nós

Numa primeira leitura, os versos inicias de nossa meditação parecem uma defesa das atitudes e ações do apóstolo Paulo. Mas não, Paulo está criando uma linha argumentativa onde se une com os colossenses no sofrimento que é viver o evangelho. Os sofrimentos em favor da Igreja podem ser referência às perseguições e ao fato de ele estar preso. Mas também podem apontar para um estado de aflição pelo fato da Igreja estar passando por dificuldades, e isto incomodar o apóstolo. Este sofrimento não congela, nem paralisa, nem inibe o apóstolo, pelo contrário, o leva a seguir adiante na sua missão.

Qual a missão? Servir ao povo anunciando o evangelho. Direto e sucinto, Paulo reconhece que o servir a Deus é algo que ele não buscou, Deus lhe concedeu. Deus dá a Paulo a responsabilidade de servir o povo. Aqui a tradução Revista e Atualizada acaba usando um termo que não revela toda a grandiosidade do que significa servir. Ela traduz como “ministro do evangelho”. O ministro hoje é visto como uma pessoa de destaque, diferente do que serve. Naquele tempo, ministro era um serviçal. Mas Almeida usa Ministro, não sei bem porque, pois o termo grego é diakonós, portanto, servo.

Em que servia Paulo? No anuncio do evangelho. Eis aqui um conceito amplo, visto que a mensagem completa de Deus não significa necessariamente tudo o que Deus sabe, mas sim o que Deus revelou e sua revelação é plena, não há nada a ser revelado mais. Cristo é tudo. Cristo e nada mais. Esta mensagem, no entanto, já esteve oculta por um tempo, mas em Cristo ela é claramente visível e amplamente divulgada: o pecado foi vencido. Havia um segredo, não há mais. Ele foi revelado e alcançou os que não eram judeus, os gentios, e vem se espalhando pelo mundo. Paulo afirma que Cristo está nos colossenses, e isto lhes dá esperança confiante.

A fidelidade do povo de Deus se dá no chamado que Deus nos faz para servir. O povo da igreja de colossos vivia sob ataques de quem achava que era preciso se sacrificar para alcançar a Cristo. Paulo enfatiza que Cristo já estava neles. Estava neles e está em nós. Cristo não está distante, está conosco e sua presença é sentida quando passamos por dificuldades e não perdemos a esperança confiante de participar de sua glória. Esta esperança é fruto da ação de Deus em nós. A nossa fidelidade não é condicionada por ausências de crise, mas é em meio às crises da vida que somos intimados a sermos fieis a Deus e não devemos temer sermos fieis, pois Cristo está em nós.

Somos fieis, pois aprendemos com ele

A fidelidade a Deus nos é assegurada pela presença de Cristo em nós e quanto mais compreendermos isto, mais compreenderemos a necessidade de aprendermos de Cristo. É o que Paulo escreve aos Colossenses. Ao proclamar Cristo, ele adverte e ensina com sabedoria. Ora, a sabedoria a qual Paulo faz referência não é a sabedoria proclamada pelos falsos mestres. Os falsos mestres diziam ser possuidores de uma sabedoria que apenas serve para acessar as coisas espirituais, uma sabedoria que cria castas e divide pessoas. A sabedoria pregada e ensinada pelo apóstolo tem o proposito de conduzir o cristão à maturidade e, a maturidade cristã, consiste em ser servo e proclamador da mensagem do evangelho. Paulo não faz nada por mérito próprio, mas atua segundo o poder de Cristo que nele opera.

Quando nos dispomos a aprender com Cristo, nos dispomos a passar pela dor que é amadurecer. Amadurecer como seres humanos e como cristãos. amadurecer como cristãos implica em deixar de ser influenciado pelas palavras vazias de ensinos torpes e fáceis e passar a se deixar levar pela mensagem que transforma vidas e nos une como povo que pertence a Deus. Perceba que Paulo não fala que ele quer se apresentar maduro diante de Cristo, mas sim apresentar cristãos maduros para Cristo. O que isso significa? Que o apóstolo entendeu bem a missão de ser e fazer discipulo. Você tem se esforçado para que as pessoas que convivem com você sejam achadas maduras diante de Deus? Sem se apegar às coisas pequenas e sim àquilo que realmente importa: Cristo e nada mais!

Somos fieis, pois somos encorajados

A fidelidade que é possível por conta da presença de Cristo conosco e que aprendemos dela, é a fidelidade que nos encoraja a seguir adiante. Paulo compreende que seu ministério não se resume apenas às suas rotinas diárias, mas também se desdobra diante daqueles que não nos conhecem, mas tem acesso ao que vivemos e fazemos por meio de outras pessoas. É o testemunho que damos que se desdobra sobre a vida das pessoas de maneira a atingir quem não temos contato. Mesmo sem conhecer, Paulo servia de testemunho para os colossenses por tudo o que ele vivia em prol da mensagem do evangelho, não uma causa própria, mas o evangelho.

Tal atitude encorajava os colossenses a viver a mensagem do evangelho e era isto que Paulo desejava. Encorajados e unidos por fortes laços de amor. Encorajados pois o testemunho do apóstolo revelava que o sofrimento que eles passavam não era exclusivo deles, mas acontecia com todo aquele que enfrentava os poderes deste mundo por amor ao evangelho. Unidos por fortes laços de amor aponta para o que deve ser o cerne da comunidade cristã: o amor de Deus que nos une. Este amor transborda em todos os cristãos e fortalece os laços de amizade e companheirismo.

Paulo enfatiza, ainda, que em Cristo estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e conhecimento. Este termo precisa ser entendido dentro de seu contexto. Lembremos que os colossenses sofriam com os falsos mestres que ensinavam sobre conhecimentos ocultos que lhes daria acesso a Cristo. Aqui Paulo inverte a lógica: os conhecimentos que porventura estejam ocultos não serão alcançados pela ação humana, mas serão revelados na plenitude do tempo. O que há para se viver já está revelado em Cristo e esta é a mensagem que deve ser vivida. Todo conhecimento e sabedoria residem em Cristo.

Necessitamos compreender esta verdade para que possamos permanecer fieis a Deus, sendo encorajados a viver unidos com Cristo e com a Igreja. Encorajados e unidos por fortes laços de amor. Temos aqui o parâmetro de relacionamento que devemos cultivar na igreja. Triste é quando temos membros mais preocupados em reclamar que apoiar, afastar do que aproximar. O evangelho nos une como povo de Deus e nossa fidelidade ao evangelho é medida pelo quanto estamos ligados uns aos outros, encorajando uns aos outros e vendo a ação de Deus na vida de nossos irmãos como testemunho de fé e fidelidade em nossas vidas. Deus age em nós para que o evangelho seja proclamado. O laço que nos une deve ser o laço que nos aproxima de Deus e do nosso semelhante. A fidelidade a Deus nos levará à união e comunhão.

Somos fieis, pois somos fortalecidos

A fidelidade a Deus nos é assegurada pela presença de Cristo em nós e quanto mais compreendermos isto, mais compreenderemos a necessidade de aprendermos de Cristo e seremos, portanto, fortalecidos. Paulo enfatiza a necessidade de não se deixar enganar pelos falsos ensinos. “Que ninguém os engane com argumentos bem elaborados”. Há quem diga que Paulo está condenando o estudo. É o contrário, o apóstolo está condenando justamente a falta de estudo que não permite que o cristão tenha o discernimento do que que é discurso bem elaborado e ensino sólido do evangelho. O chamado é para ser consciente e não inocente diante daquilo que é apresentado com roupagem de mensagem cristã, mas não passa de palavras vazias.

A fidelidade em Cristo fortalece o testemunho do apóstolo e dos próprios colossenses. Ele se une aos colossenses como pertencente ao mesmo corpo, o corpo de Cristo. Mesmo longe, o coração do apóstolo sofre os sofrimentos dos colossenses. Esta unidade cria no apóstolo a alegria em saber que os colossenses têm permanecido, apesar de todos os ataques dos falsos mestres, fieis a Cristo. A fé dos colossenses é exaltada como sendo uma fé forte neles e fortemente ligada a Cristo. A fé deles é o que os une e deve mantê-los ainda mais firmados e fortalecidos no evangelho.

Uma vez que eles têm a fé em Cristo, os colossenses devem continuar a seguir a Jesus Cristo. Esta afirmação revela um conceito paulino de que a fé não é estática, mas sim dinâmica e viva. Ela pode ser alimentada e fortalecida, mas também pode ser enfraquecida. O que Paulo recomenda é que, uma vez que os colossenses tenham dado os primeiros passos, que não cessem a caminhada, mas sigam adiante, pois eles receberam a Cristo como Senhor, portanto, aquele que rege suas vidas, o que tem a primazia, o poder sobre tudo em suas vidas.

Por fim, Paulo diz como a fé fortalecerá a vida dos colossenses: aprofundem nele suas raízes e sobre ele edifiquem suas vidas. Não se constrói um edifício sem alicerces. As raízes que Paulo se refere são justamente os alicerces da fé dos colossenses. O apóstolo já havia referenciado este alicerce nos versos iniciais da carta e agora ele mostra como esta fé, fortalecida e firmada com raízes profundas em Cristo, os fortalecerá na verdade que o evangelho prega. A consequência da fidelidade a Deus e o fortalecimento da fé dos colossenses é o crescimento neles da gratidão, que transbordará em suas vidas.

A gratidão é uma das formas que avaliamos se o cristão está ou não firmado no evangelho. Cristãos são pessoas gratas. Gratas pela salvação, pelos laços de amor, pelo encorajamento, pela Igreja, pelo apoio dos irmãos, pelas tristezas, pelas batalhas. A gratidão é uma das marcas do cristão e ela tem sido deixada de lado. Pessoas cuja fé é firmada e fortalecida no evangelho são pessoas gratas. Desconfie dos discursos de crentes que não expressam gratidão em suas vidas. Cristo tem transformado nossas vidas e isto gera em nós fidelidade, obediência e gratidão.

Conclusão

Concluindo. Paulo escreve aos colossenses para orientá-los como viver sua fé e como desenvolver sua vida cristã. Embora não conheça os cristãos de Colossos, Paulo escreve a eles firmado no testemunho do pastor da igreja, Epafras, e orientado pelo Espírito Santo. Em sua carta, o apóstolo convida os colossenses a uma vida de dedicação e fidelidade a Deus, sem deixar de lado a necessidade de exercitar e aumentar a fé em Cristo. Ao escrever a carta, o que Paulo faz é se aproximar da comunidade mostrando que o sofrimento que eles enfrentam é também o seu sofrimento e é o sofrimento de todos aqueles que desafiam os poderes do mundo para viver o amor de Cristo por nós.

O desafio para nós, hoje, é compreendermos que Cristo está em nós e isto gera fidelidade. Gera fidelidade pois aprendemos como viver com Cristo, somos encorajados por ele e pela comunidade de fé e somos fortalecidos pelo Espírito Santo, na comunhão com Cristo e com os irmãos. Fidelidade a Cristo gera gratidão. Transbordemos em gratidão e amor, ou seja, expresse em atitudes e palavras a gratidão que você tem a Deus pela salvação em Cristo Jesus. A fidelidade a Cristo não nos isola, não nos distancia da Igreja, não nos afasta um dos outros. Desconfie de quem vive uma fé isolada, ou parcialmente isolada. Procure uma vida de fé em comunidade. Contato com as pessoas, pois é aí que os laços se fortalecem.

Vivemos cercados de situações que querem nos afastar de Cristo. As crises se avolumam e, muitas vezes, não conseguimos contemplar a mão de Deus em cada situação. Como é difícil manter a fé firme em meio as crises. É neste momento que Deus nos convida a fortalecermos nossas raízes, estudando a Bíblia e orando. É também neste momento que Deus nos convida a edificar nossas vidas, apertando mais ainda os laços de amor e encorajamento que nos une como Corpo de Cristo. Quando compreendemos que a vida cristã é comunitária e com fortes laços de amor a nos unir, compreendemos que a vida, em sua essência e razão de ser, é Cristo e nada mais.

Reverendo Giovanni Alecrim
Pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil

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