Sexta-feira da Paixão

14Visto, portanto, que temos um grande Sumo Sacerdote que entrou no céu, Jesus, o Filho de Deus, apeguemo-nos firmemente àquilo em que cremos. 15Nosso Sumo Sacerdote entende nossas fraquezas, pois enfrentou as mesmas tentações que nós, mas nunca pecou. 16Assim, aproximemo-nos com toda confiança do trono da graça, onde receberemos misericórdia e encontraremos graça para nos ajudar quando for preciso. (Hebreus 4:14-16) (NVT)

A carta aos Hebreus é um dos textos mais desafiadores para lermos no Novo Testamento. Afirmo isto sem medo de errar. As imagens narradas pelo autor nos fazem ir diretamente ao Antigo Testamento. E aí está a nossa dificuldade. Há ritos, práticas e elementos que não dominamos nem conhecemos muito bem. Por isso mesmo, ler a carta aos Hebreus torna-se tão difícil. Para se construir a imagem que o autor nos apresenta, é preciso primeiro conhecer esta tradição e estes elementos. Não obstante a dificuldade de se ler Hebreus, a carta é um convite ao reconhecimento de que Jesus é o Filho de Deus, o Messias prometido, que é superior a Moisés, a Arão e qualquer outro sacerdote que tenha existido ou que venha a existir. Ele é o salvador e nele perseveramos diante das adversidades. É o que devemos crer e ter em mente quando lemos a carta aos Hebreus.

Dentre estas imagens do Antigo Testamento, o nosso texto coloca Jesus como o Sumo Sacerdote. O texto do Levítico nos apresenta o um sacerdote que é o maior sacerdote entre seus irmãos. O título Sumo Sacerdote surge após o exílio e ele é pouco usado durante muito tempo da história do povo de Israel. Nos tempos de Jesus, este título já estava consolidado. Segundo R. de Vaux, uma outra designação para sumo sacerdote, usada no Antigo Testamento, é Príncipe Ungido. Este título expressa uma realidade que já estava consolidada nos tempos de Jesus: a ideia de que o sumo Sacerdote ocupava, simbolicamente, o papel de rei. Perante o povo, o que cabia ao rei em sua relação com Deus, agora era transferida para o Sumo Sacerdote. O que o autor aos Hebreus faz é tomar esta imagem e dizer que não há mais necessidade de uma linha sucessória pois a função do sumo sacerdote foi tomada de uma vez por todas por aquele que entende nossas fraquezas. Por ele, temos acesso ao trono da graça. Por ele recebemos misericórdia e encontramos graça.

O texto que lemos é parte do terceiro bloco do texto aos Hebreus, uma carta de autoria desconhecida. De Paulo a Priscila, muitas foram a tentativas de se dar um autor ou autora ao texto ao Hebreus. O que sabemos é que, quem a escreveu, dominava bem o Antigo Testamento, tinha profundos conhecimentos da língua grega e o dominava o estilo helenístico de escrita. Possuía uma visão bem fundamentada de que tudo no Antigo Testamento culminava em Jesus. Tanto que sua carta apresenta uma estrutura lógica para dizer que Jesus é superior aos anjos, superior a Moisés, superior a Arão, superior ao ministério sacerdotal e, portanto, devemos perseverar na fé, pois com Jesus há vida.

O texto de Hebreus, proposto pelo nosso calendário litúrgico para o dia de hoje, pode parecer fora da temática. Quando reservamos um dia para olhar para a traição, prisão, abandono, julgamentos, condenação, açoites, torturas e morte o calendário litúrgico nos coloca uma epístola a falar de misericórdia e graça. Mas este texto fala também de como a fé é o meio pelo qual entramos no descanso de Deus, como nele temos o livre acesso à Palavra de Deus que é viva e eficaz. Esta Palavra nos convida a olhar para a figura do Sumo Sacerdote e entender que não necessitamos mais dele, pois o que havia para ser feito, foi consumado.

O sumo sacerdote oferecia, nas grandes festas, o sacrifício em nome do povo. O sacrifício poderia ser oferecido pelas mais diversas razões. Desde o desmame de uma criança à expiação dos pecados. Ao colocar Jesus como o sumo sacerdote, a carta aos hebreus tipifica todo o processo de sacrifício em uma só pessoa. Von Allmen nos diz que “no ofício de Sumo sacerdote Jesus revelou o mediador perfeito, o sacrificador acabado e a vítima consumada”. O que a carta aos Hebreus nos convida é nos apropriarmos destas imagens e compreender que o que aconteceu na sexta-feira da paixão é a consumação de tudo o que Deus havia determinado para que em Jesus a vida prevalecesse sobre a morte. Assim, Jesus é levado para a cruz para que a vontade de Deus se cumprisse.

Hoje é sexta-feira, mas o domingo vem aí. Apeguemo-nos firmemente àquilo em que cremos. O que rememoramos hoje é parte essencial daquilo que cremos. Hoje deixamos de lado os cânticos de vitória, os textos de consolo e orientação, as palavras de amor e de esperança e passamos a usar em nosso vocabulário palavras duras: morte, sofrimento, dor, tortura, cravos, pregar na cruz, cruz, coroa de espinhos, abandono, solidão, amargura, perfuração. É uma cena da qual ninguém gosta de olhar, mas é necessário, em nossa jornada de fé, olharmos para a sexta-feira santa. Nela está expressa toda a dor e sofrimento vivenciados por Jesus, não porque ele mereceu, mas porque nós deveríamos estar ali.

Hoje é sexta-feira, mas o domingo vem aí. Cremos que Jesus sofreu na cruz. Seu sofrimento não foi para nos colocar em lugar de destaque, mas para que entremos pelo santo dos santos, na presença de Deus, firmados naquilo que cremos. Cremos que Jesus ressuscitou, mas para ressuscitar, ele teve que morrer. Portanto, cremos que ele morreu, ele passou pela experiencia da morte e foi a morte mais dolorosa de todas. Ele levou sobre si as nossas dores, ou seja, o pecado que era minha condenação, estava ali, no abandono, no julgamento, nos sofrimentos, na cruz. O meu e o seu pecado.

Hoje é sexta-feira, mas o domingo vem aí. Não sei o que você passa neste momento de sua vida, mas sei que todo sofrimento tem seu fim. Cremos que Jesus morreu, e confessar esta verdade é um grito de socorro. É o grito de quem está diante da dor e do sofrimento temporal e reconhece em Jesus, naquela cruz, a sua dor cravada ali, naquelas chagas. Tanta dor, que nosso sofrimento temporal é minimizado diante do sofrimento da cruz. Ao contemplar a cruz, nossa reação pode ser de vergonha e dor, mas nela está o baluarte da nossa fé. A cruz, com Jesus nela pendurada, é o símbolo da dor, mas antes, é o símbolo da nossa fé.

Hoje é sexta-feira, mas o domingo vem aí. Hoje é sexta-feira, ele morreu, pendurado no madeiro, o mundo lhe virou as costas, Deus calou-se no céu e a terra tremeu. Hoje é sexta-feira e Jesus está morto. Seu corpo, retirado da cruz, é enrolado em panos, como costume da época, e levado para o túmulo. Um túmulo que não era seu. Seu também não eram os açoites, as ofensas, o escárnio. Mas ele os recebeu. Recebeu os açoites, as ofensas, o escárnio, os pregos, a lança, a cruz, o túmulo. Não eram dele, mas ele recebeu, calado, suportando a dor mais insuportável, a dor do pecado.

Hoje é sexta-feira, mas o domingo vem aí. Jesus morreu para nos unir com Deus, ele morreu pois Deus, em sua trindade santa, decide fazer-se ser humano, perfeito como no Éden, para que tenhamos a oportunidade de sermos novamente visitados por Deus, todos os dias, e experimentemos sua santa presença e sua santa vontade. Hoje é sexta-feira, mas o domingo vem aí. Deus faz-se homem, vive como um de nós e experimenta as sensações de cada um de nós. Ele se fez um de nós, para nos unir a Deus, por meio dele. É Deus sendo homem, é homem unindo-se a Deus. Nesta experiência de ser homem, Jesus tem no caminho a cruz, a cruz da nova aliança em seu nome, ele é a aliança. Hoje é sexta-feira, Jesus morreu, mas o domingo vem aí. A nova aliança é, por ele e nele, estabelecida. Não precisa de papel, não precisa de protocolos, não precisa de leis, a lei é Deus e ele a escreve, por meio do Santo Espírito, em nossos corações e, ao escrevê-la em nós, ele limpa nossas vidas do pecado. Deixe o pecado na cruz, porque hoje é sexta-feira e Jesus morreu, mas o domingo vem aí e o pecado fica na cruz, morto, sepultado, vencido.

Hoje é sexta-feira, Jesus morreu, mas o domingo vem aí. O domingo vem para que tenhamos vida. Precisamos viver a vida que Jesus nos oferece. Não temos mais o que temer, sem hesitação, podemos caminhar em direção a Deus, entrar no Santo dos Santos e louvar, e adorar e bem dizer, mas só o podemos porque hoje é sexta-feira, Jesus morreu, mas o domingo vem aí. Vem trazendo a luz da vida, a razão de ser da humanidade. Estamos unidos com Deus, novamente, plenamente, a morte foi vencida. O que é a morte? O que é a vida? A morte é uma vírgula no parágrafo da nossa história, é uma pausa para respirarmos e seguirmos para a vida eterna.

Hoje é sexta-feira, Jesus morreu, mas o domingo vem aí. Ele morreu para que vivamos. Com sua morte, o pecado, o meu e o seu, ficou naquela cruz, ele morreu e levou consigo o meu e o seu sofrimento, a minha dor e a sua, o meu erro e o seu. Deus! Tem piedade de mim, que sou pecador, e não dou o valor à sua cruz! Eu a ignoro, eu a esqueço, eu não a vejo! Sou mais um dos doze, que traiu, negou, ignorou, fugiu e se escondeu da cruz! Mas tua misericórdia e teu amor, ó Deus, são maiores que a minha falha, que o meu pecado. E tu olhas para mim, pecador, e vê, em mim, o sangue do cordeiro, o sangue de teu filho, a limpar, purificar e transformar a minha vida. Não sou merecedor, ninguém é, do seu amor. Hoje eu olho para a cruz, olho para o calvário e contemplo a dor. Eu tenho que contemplá-la, eu tenho que olhar para a cruz e ver ali o meu pecado, a minha falha, o meu erro! Eu tenho que ver Jesus ali, hoje, na sexta-feira, pois sem vê-lo na cruz, não posso celebrar o domingo.

Concluindo. Hoje é sexta-feira, Jesus morreu, mas o domingo vem, cheio de vida, cheio de criatividade para que o amor, a coragem e a ajuda floresçam. O mesmo amor que levou Deus a enviar seu filho por amor de nós, nos levará a amar incondicionalmente nosso semelhante. Ele veio para nos amar! A mesma coragem que Jesus teve para enfrentar a cruz, nós fará enfrentar as dificuldades de nossas vidas. Ele veio para nos dar vida! A mesma ajuda que o Espírito Santo deu a Jesus, estando com ele em todo seu ministério, ele nos dá hoje para que possamos ajudar o nosso próximo, sermos auxiliadores um dos outros. Ele está conosco.

Hoje é sexta-feira, Jesus morreu, e daí? E daí que o domingo vem aí, e todo o mal terá seu fim, todo pecado terá seu perdão, porque as sextas-feiras da vida insistem em nos lembrar que Jesus morreu, mas nós não podemos nos esquecer jamais, que hoje é sexta-feira, Jesus morreu, mas o domingo vem aí, com vida, com vitória com Jesus conosco. Ele veio! Ele morreu! Hoje é sexta-feira, mas o domingo, ah meu querido, o domingo vem aí.

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