MC Diguinho: respeito e dignidade

Artigo escrito para a edição de 28 de janeiro de 2018 do Jornal Info o Povo do Estado do Rio de Janeiro.

O polêmico funk de MC Diguinho foi pauta esta semana nos mais diversos círculos. Sites de entretenimento, grupos religiosos, movimentos de defesa dos direitos da mulher, enfim, de toda parte houveram manifestações contrárias à letra e questionando os limites do artista e seu trabalho. O funk, em si, já é um estilo musical bastante controverso. Na mesma medida que diverte, traz consigo letras que objetificam a mulher, idealizam a vida criminosa e expõe comportamentos e mazelas de uma parcela considerável da população.

Há uma preocupação da classe artística, desde o ano passado, com o policiamento e cerceamento da produção de arte no país. Há limite para a arte? Como fica o “eu lírico” nestas obras? Difícil responder, até mesmo porque há quem não considere o funk como música e, portanto, não é arte. A discussão hoje, neste espaço, no entanto, não tomará este rumo. O que quero aqui é trazer o olhar de Jesus para a mulher e, especificamente, nesta questão da objetificação da mesma. O episódio é conhecido de muitos cristãos. Não cristãos com certeza já ouviram a frase “aquele que não tem pecados atire a primeira pedra”. Estou falando do encontro de Jesus e a mulher pega em adultério.

“Mestre, esta mulher foi pega no ato de adultério”, disseram eles a Jesus. “A lei de Moisés ordena que ela seja apedrejada. O que o senhor diz?” (João 8.4-5)

A cena é a seguinte: Jesus estava, desde a madruga, no templo, ensinando o povo. Havia, portanto, uma quantidade de pessoas considerável ouvindo Jesus quando os mestres da lei e fariseus chegaram trazendo uma mulher surpreendida em adultério. Esperando uma reação legalista de Jesus, eles o questionam. A resposta de Jesus, no entanto, parece não ter nexo com a situação toda, mas veremos como tem.

Há uma situação não dita neste texto que precisam se destacada: o ato da mulher pega em adultério ser trazida e não o homem. A lei, no livro bíblico do Levítico, diz que “Se um homem cometer adultério com a mulher do seu próximo, o homem e a mulher que cometeram adultério serão executados”. A cena narrada pelo evangelista João nos mostram que apenas a mulher pega em adultério estava presente. Onde estava o homem? Não estava. Os mestres da lei e os fariseus cometeriam um erro primário destes? Ou o homem tinha influência o suficiente para não estar ali? O fato é que só a mulher estava, e isto aponta para uma atitude de opressão sobre a mulher. Temos, portanto, uma manifestação completamente unilateral de opressão contra esta mulher. Qual a atitude de Jesus?

Eles continuaram a exigir uma resposta, de modo que ele se levantou e disse: “Aquele de vocês que nunca pecou atire a primeira pedra”. João 8.7

A atitude de Jesus foi igualar a todos presentes no local. O reconhecimento da condição de pecadores nos iguala. Não há diferença. No entanto, não é na condição de pecadores que Jesus enfatiza, mas sim no amor de Deus que restaura a vida. Ao apontar para o pecado de todos os presentes, Jesus estava apontando para a necessidade de todos se arrependerem e mudarem de vida. Não adianta julgar e apedrejar o lado mais fraco, se com sua vida você está desrespeitando a vontade de Deus para favorecer o mais forte.

Antes de seguir é preciso afirmar que Jesus não atacaria MC Diguinho, pelo contrário, daria a ele o mesmo tipo de resposta que deu aos mestres da lei e fariseus: uma resposta que o colocaria em pé de igualdade com as mulheres que se sentiram ultrajada, a ponto de, envergonhadamente, se retirar e repensar em suas atitudes.

Muitos, equivocadamente, consideram a Bíblia um livro que atenta contra a dignidade da mulher. Embora eu possa ser acusado de não ter “lugar de fala”, quero contrariar esta afirmação. A Bíblia possuí livros que são o relato de seu tempo., e isto significa um grande espaço de tempo, séculos. É o reflexo da cultura e modo de vida que estão no passado. No entanto, quando olhamos para a maneira como Jesus incluiu as mulheres, percebemos que ele estava dando dignidade e lugar a quem a sociedade considerava um objeto, uma propriedade. Até bem pouco tempo atrás, no Brasil, tinha-se uma imensa dificuldade por conta de a mulher estar sempre ligada ao homem, ela praticamente não existiria se não tivesse o pai ou o marido. Pergunte a uma senhora de mais de 70 anos como eram tratadas as mulheres desquitadas e você terá uma ideia de como era.

Jesus não olhava para as mulheres como propriedade. Ele curou mulheres, como a que sofria com uma hemorragia constante (Mateus 9.20-22), dando a elas um lugar de volta no circulo social. Ele apontou para uma mulher, não judia, como exemplo de grande fé (Mateus 15.21-28). Ele tinha em seu círculo de discípulos Marta e Maria, mulheres que se assentavam para ouvir os ensinos de do mestre.

Quero concluir afirmando que composições como a de MC Diguinho não contribuem em nada para a dignidade da mulher, nem a dele, em a de tantos outros artistas, quer brasileiros, quer estrangeiros. Como sociedade, precisamos aprender a respeitar e cuidar daqueles que são oprimidos e perseguidos. Entre pesquisa e escrita, fora três horas para produzir este texto. Do momento que comecei ao momento que terminei, 1.509 mulheres foram agredidas, e cerca de 600 delas são declaradamente cristãs. Numa sociedade completamente imersa na violência, não podemos concordar com composições que querem divertir ensinando a estuprar. Precisamos ter a coragem de Jesus, de enfrentar aqueles que querem matar nossas mulheres. Por uma cultura de paz e de igualdade, sigamos a Jesus.

Reverendo Giovanni Alecrim
Pastor da Igreja Presbiteriana Independente de Tucuruvi, São Paulo, SP
http://www.ipib.orghttp://www.giovannialecrim.com.br

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