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O garoto da foto

Artigo escrito para a edição de 13 de janeiro de 2018 do Jornal Info o Povo do Estado do Rio de Janeiro.

Como uma foto de um menino sozinho despertou discussões sobre amizade, fé e esperança.

A foto de Lucas Landau rodou o Brasil. Foi assunto nas redes sociais, nas conversas entre amigos e até destaque nos jornais televisivos. A cena do menino, de pé na praia, recém-saído da água, com frio natural de quem, molhado, se expõe ao tempo sem sol, escuro, mas com o olhar fixo e fascinado com o explodir dos fogos à beira mar. Ao fundo, a multidão se abraçava, comemorava a chegada de 2018, ignorando que ali, poucos metros mar a dentro, uma criança se fascinava com a chegada de um novo ano. A iluminação, o foco, a composição da imagem, tudo mérito de Landau, que brilhantemente captou aquele momento e nos possibilitou, como ele mesmo afirmou, diversas interpretações daquele momento.

O menino da foto, não sei se você fez essa leitura, tem tudo haver com o período que vivemos. Numa primeira leitura, vejo sua relação com o Natal, recém comemorado, quando um menino veio ao mundo e, tal qual aquele menino da foto, nasceu distante dos prazeres e benefícios de seu tempo. Foi humilde, pobre mesmo, e como tal, experimentou as dificuldades de quem era marginalizado no primeiro século. A noite, o frio, o isolamento da grande multidão, de uma festa para poucos, embora ali houvessem muitos. Toda a cena me remete ao menino de Belém, que fugiu para o Egito com os pais, que cresceu em Nazaré e se tornou o homem que mudou a história.

Outra leitura que faço da foto é do isolacionismo que vive a imensa maioria da nossa população, que é obrigada a ouvir dos poderosos de Brasília que os preços baixaram, que a comida está mais barata, mas não têm dinheiro para o gás de cozinha, para cozinhar o almoço e a janta. Enquanto muitos comemoravam na praia, no mar o retrato do Brasil se apresentava. A solidão, a contemplação de um show que não resolverá o problema de sua vida, mas que, de alguma forma, naquele olhar fascinado, nos remete a uma esperança. O brasileiro, certa vez ouvi, é um povo esperançoso. Talvez seja fruto da famosa frase “O Brasil é o país do futuro”. E vivemos a aguardar e esperar este futuro que não vem, que não chega, e o hoje parece ser tão urgente que nos esquecemos do menino, sozinho, na praia, fascinado com as luzes e as explosões dos fogos.

A foto do menino, sozinho na praia tão cheia de gente, contemplando os fogos, num primeiro momento me trouxe esperança. Ainda há os que se fascinam com os fogos de artificio, com a beleza do momento, que contemplam o que acontece no momento exato e aproveita o evento pelo evento em si, pelo que se está vivendo naquela hora. Quantos “feliz ano novo” sinceros você recebeu? Quantos sinceros você disse? Vivemos numa sociedade de relacionamentos de aparências e curtidas em redes sociais. Todo mundo curte tudo, todo mundo comenta tudo. Poucos são os que buscam o relacionamento direto e sincero entre amigos e parentes. Poucos aproveitam o momento que vivem. Não percebemos, mas estamos tão centrados em nossas satisfações pessoais que não percebemos que o outro também precisa de atenção, cuidado e presença amiga. Somos uma imensa maioria de solitários amontoados em grandes cidades, que incentivam o isolamento e não promovem o bem-estar e a convivência social.

Mas há uma esperança, há um garoto que se fascinou com o momento, com o evento, que não ficou preocupado em dar um “feliz ano novo” qualquer, mas que curtiu como se deve curtir o momento. Fascinado, encantado com o novo, o ano novo. O menino é uma esperança não em si mesmo, mas é uma esperança pois seu olhar nos revela uma natureza, que poderá ser moldada e evoluída, ou destruída. Mas há uma esperança.

Quando nasce um novo ano, renasce a esperança. Todos fazemos planos, sonhamos, desejamos o melhor para nós e para nossos queridos. Nada de errado nisto. O errado é colocar a esperança nisto, ou seja, nestas coisas. A nossa esperança deve ser posta naquele que, nascendo humilde, nos ensina como viver tranquila, mansa e suavemente, mesmo em meio às dificuldades e desgovernos da vida. Jesus nos convida a esta realidade, uma esperança que não é espera vazia, mas realidade constante. A justiça que Jesus nos oferece não se corrompe. A paz que ele nos dá não acaba por conta das circunstâncias. A esperança que ele nos desperta não cessa dias depois da virada do ano. Meu desafio para você é que, ao contemplar a foto de Landau, você possa contemplar a esperança e a necessidade de mudarmos para uma sociedade mais justa e pacífica. Tal mudança só é possível com Jesus, Deus que se fez criança.

Toda criança quer ser homem.
Todo homem quer ser rei.
Todo rei quer ser Deus.
Só Deus quis ser criança.
(Leonardo Boff)

Pois um menino nos nasceu, um filho nos foi dado. O governo estará sobre seus ombros, e ele será chamado de Maravilhoso Conselheiro, Deus Poderoso, Pai Eterno e Príncipe da Paz. Seu governo e sua paz jamais terão fim. Reinará com imparcialidade e justiça no trono de Davi, para todo o sempre. O zelo do SENHOR dos Exércitos fará que isso aconteça! (Isaías 9.6-7)

Reverendo Giovanni Alecrim
Pastor da Igreja Presbiteriana Independente de Tucuruvi, São Paulo, SP
http://www.ipib.orghttp://www.giovannialecrim.com.br

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