Teologia faz bem?

Artigo escrito para a edição de 16 de dezembro de 2017 do Jornal Info o Povo do Estado do Rio de Janeiro.

“Cabral e Adriana Ancelmo são aprovados em curso de teologia”. A noticia correu a boca do povo, principalmente nas redes sociais, e os comentários, fundamentados apenas na chamada da matéria, eram dos mais sensatos aos mais sem pé nem cabeça. Em nota, a Faculdade Batista se limitou a dizer “Destacamos que os detentos passam pelos mesmos critérios de correções de notas e redação, como qualquer outro candidato que se dispõe à vaga, sem regalias, privilégios ou coerções de terceiros”. Mas, afinal, é tão ruim assim estudar teologia?

Não vou entrar no mérito do casal, visto que o próprio ex-governador afirmou por meio de seu advogado que o curso foi escolhido “porque era o curso oferecido neste momento”. Cabral não foi o primeiro detento conhecido a se matricular em teologia. Em 2013 Fernandinho Beira Mar se matriculou no mesmo curso. O que quero chamar sua atenção não é para o recurso do estudo como forma de diminuição de pena, mas sim no fato do curso de teologia ser oferecido, dentre tantos outros, no sistema penitenciário do Estado do Rio de Janeiro.

O leitor e leitora mais atento verá, no final deste texto, meu nome antecedido por um título, e uma descrição do que faço da vida. Reverendo, o título concedido pela Igreja, Pastor, meu ofício no dia a dia à frente da Igreja que estou trabalhando. Para chegar a usar este título precisei passar, dentre muitas etapas, pelo estudo no qual sou formado, a saber, Bacharel em Teologia, cursado ao longo de cinco anos, presenciais, no Seminário Teológico de São Paulo da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil. Este caminho foi trilhado com muita leitura e estudo. Presume-se, em linhas gerais, que ao se formar, o/a Bacharel em Teologia terá as ferramentas necessárias para produzir e analisar teologia, interpretar e expressar conceitos teológicas e também propor novos caminhos e leituras da teologia em face à realidade em que vive. Em linhas gerais, um/a Bacharel em Teologia tem nas mãos ferramentas para levar o povo mais próximo da vontade do sagrado para suas vidas.

Até bem pouco tempo, ao ingressar numa faculdade de Teologia, se presumia que o/a aluno/a já pertença àquela linha teológica que a faculdade pertencia. Se a pessoa era de tradição Católica Romana, procurava um seminário Católico Romano, se Presbiteriana, um seminário Presbiteriano. Com a regulamentação pelo Ministério da Educação, no início do século, dos cursos de Teologia, tal premissa continua forte, mas não é mais regra. Assim, temos alunos que estão cursando Teologia sem pertencerem à tradição teológica daquela faculdade. Nada contra, pelo contrário, é enriquecedor para o desenvolvimento e conhecimento pessoal. A cadeira de Teologia, embora reconhecida pelo MEC recentemente, é presente na história das universidades há séculos, vem se desenvolvendo como todas as áreas de conhecimento e tem campo vasto de trabalho, além das comunidades religiosas. Não é um invencionismo recente, mas um dos mais antigos cursos de formação que temos.

Afinal, estudar Teologia faz bem? No caso específico dos presidiários, que diferença pode fazer em suas vidas? Falando especificamente da Teologia cristã, pode sim fazer muita diferença. A Teologia cristã possuí um instrumento de análise de onde brota todos os seus pressupostos e serve de base, fundamento, para sua existência: a Bíblia Sagrada. Não importa a tradição cristã, toda Teologia brota da Bíblia. Assim, a Bíblia é objeto de estudo em todo o curso de Teologia e dela brotam demandas de diálogo com a história, geografia, linguística, arqueologia, filosofia e sociologia. Apenas para citar algumas áreas de conhecimento com as quais a teologia dialoga. Portanto, há aqui dois eixos que podemos destacar para responder à pergunta “teologia faz bem?”.

O primeiro eixo é o texto bíblico. Ao ler o texto sagrado como peça de estudo, objeto de análise, somos confrontados com nossa própria realidade e condição humana. Tal leitura desperta uma chamada à consciência e a reflexão pessoal. Mesmo que lendo apenas academicamente, ainda assim, cremos no que a Teologia chama de “revelação e inspiração” do texto que fala à alma do ser humano. Se não promover transformação, apenas o fato de levar à reflexão de suas atitudes já terá sido algo positivo na vida da pessoa, mesmo que esta resolva rechaçar o que leu.

O segundo eixo é o do saber. O estudo é nobre. Tal afirmação não é para tornar o estudo mais digno do que é, mas sim para afirmar que estudar é necessário e não paramos de fazê-lo. Aquele que para de estudar, para no tempo, não se atualiza, não evolui como profissional e como ser humano. Tendo a oportunidade, estude. Estude coisas da sua área de conhecimento, coisas que não são da sua área de conhecimento, exercite sua mente e sua capacidade cognitiva.

Teologia faz bem? Sim, faz bem, e incentivo o leitor e a leitora a estudar Teologia, se não para ser sua profissão, como uma área de conhecimento e pesquisa para desenvolver seu trabalho. Acredite, há muita relação entre a Teologia e as mais diversas áreas do conhecimento, da física à medicina, da engenharia ao direito, da agronomia à enfermagem.

Quando nos deparamos com notícias de pessoas conhecidas, presas, que estão cursando Teologia, o principal pensamento é “estão pousando de bonzinhos”. Baixe a guarda e dê a eles a oportunidade de estudarem, se desenvolverem e, com a graça de Deus, terem uma vida transformada pelo poder do Espírito Santo. Sempre que me deparo com notícias de condenados famosos cursando Teologia fico na linha tênue entre o “que bom, houve restauração” e “ah não, não tão fazendo marketing em cima disso”, seja qual for a intenção, estudar sempre será bom e deve ser incentivado. Que o estudo leve à transformação de vida e à busca de arrependimento e reparo do mal cometido. É sonhar muito esperar que aconteça? Não, é crer naquilo que a Teologia define como “mistério de Deus”, e que a Bíblia chama de “loucura para os que se encaminham para a destruição, mas para nós que estamos sendo salvos ela é o poder de Deus” (1 Coríntios 1:18).

Reverendo Giovanni Alecrim
Pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil

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