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O preço de ser justo

Artigo escrito para a edição de 2 de dezembro de 2017 do Jornal Info o Povo do Estado do Rio de Janeiro.

Qual deve ser a nossa reação diante da corrupção? Quando olhamos para o noticiário e vemos a quantidade de notícias de corrupção, se sobrepondo umas as outras, qual deve ser a nossa reação? Buscar a justiça é diferente de desejar justiça. Quando desejamos justiça, é apenas um desejo, mas quando a buscamos, agimos para tal, e isto nos trará consequências.

Nos tempos de Jesus

Então Jesus entrou no Templo e começou a expulsar todos que ali estavam comprando e vendendo animais para os sacrifícios. Derrubou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas, dizendo: “As Escrituras declaram: ‘Meu Templo será chamado casa de oração’, mas vocês o transformaram num esconderijo de ladrões!”. Mateus 21.12-13

Semana passada fizemos uso deste texto de Mateus para mostrar como a corrupção existia nos tempos de Jesus, aliás, ela existe há muito tempo. O que quero destacar é a reação de Jesus, que numa primeira leitura é uma reação violenta, mas que deve ser entendida dentro de seu contexto, ou sejam, sua época.

Jesus não chegou do nada e começou a derrubar tudo no pátio do Templo. Ele já estava pregando as boas novas de salvação há três anos. Ele caminhava e anunciava o que Deus haveria de fazer e isto incomodava os poderes que dominavam a religião e o governo da época. Diante de toda a mensagem de justiça que ele já havia pregado, ele entra no templo e expulsa os mercadores dali. Ele tinha a autoridade dada por sua integridade e por sua mensagem, mais ainda, ele tinha a autoridade das escrituras. Dois profetas falaram o que Jesus disse. Isaías 56.7 afirma que “Eu os levarei ao meu santo monte e os encherei de alegria em minha casa de oração. Aceitarei seus holocaustos e sacrifícios, pois meu templo será chamado casa de oração para todas as nações”. Já o Profeta Jeremias afirma em 7.11: “Vocês mesmos não reconhecem que este templo, que leva meu nome, se transformou em esconderijo de ladrões? Certamente vejo todo o mal que acontece nele. Eu, o SENHOR, falei!”. Jesus se apropria destes princípios que regiam a sociedade de seu tempo para exercer justiça naquele lugar. Se continuarmos a leitura, você verá que nos versos 14 a 17 de Mateus 21 Jesus cura enfermos, mostrando a real função do culto a Deus: mostrar sua glória e poder, restaurando a dignidade do ser humano.

Claro que Jesus pagou um preço por ter feito o que fez, não apenas naquele dia, no pátio do Templo, mas ao longo de três anos de ministério. O preço foi uma sentença dura. Condenado pelo tribunal dos judeus, seguiu para ser condenado pelo tribunal dos romanos. Em outras palavras, foi condenado pela religião e pelo governo a açoites e depois enviado para crucificação.

Como reagir diante da corrupção

A indignação contra a corrupção não pode ser personificada nem pontual. Ela deve ser correta e constante. Explico. Jesus não se voltou contra o sacerdote do Templo enquanto pessoa, mas sim enquanto promotor de uma corrupção imensa naquela ocasião. A ação de Jesus não foi pontual. Este não é o único relato em que encontramos Jesus combatendo a opressão do sistema religioso. Ele o faz no episódio da mulher adúltera, quando cura um homem ao sábado, quando cura a mulher com fluxo de sangue, isto só para citar alguns relatos.

Quando olhamos para a situação atual do Estado do Rio de Janeiro, e de nossa nação em geral, não devemos cair na tentação de seguir o fluxo da maioria e personificar a corrupção. O problema não são só as pessoas, mas sim o sistema de governo que foi montado e que privilegia a existência da corrupção. Não basta apenas remover as pessoas corruptas dos cargos, é preciso uma reforma institucional plena em nosso país. Não se tratam de nomes. Eles precisam pagar pela corrupção que cometeram, observado do devido processo legal. Mas se trata de mudança da estrutura. Quando Jesus entrou no templo, ele não denunciava só a prática corrupta, mas principalmente o sistema corrupto que estava ali, dando condições para que a prática ocorresse.

Diante da corrupção, nossa reação deve ser a de sermos justos e apontarmos os erros. Cumprir com nossas obrigações nos dará o aval moral para apontarmos atos de corrupção. De nada adianta eu achar que todos os presos por corrupção são uns “safados corruptos” se eu não promovo justiça por meio de minhas atitudes. Em outras palavras, de nada adianta eu odiar os corruptos presos se eu também sou corrupto em certas situações da minha vida. Precisamos de uma renovação ética para que o Estado do Rio de Janeiro, e também a nação brasileira, se reerga fundada em novos padrões de justiça. No entanto, não se constrói casa nova sobre alicerce comprometido de casa velha. É preciso derrubar tudo, limpar o terreno para se reconstruir, lançar novos alicerces e termos uma sociedade mais justa.

Não tenho comigo a utopia de uma sociedade sem corrupção, mas tenho o desejo e busco uma sociedade onde os índices de impunidade beiram o zero, onde a sensação de justiça caminha de mãos dadas com a justiça de fato e de direito. Não podemos mais tolerar um sistema que corrompe quem entra nele e que sem corrupção não se caminha e não se faz nada. O relatório do Banco Mundial, publicado em 21 de novembro de 2017, aponta que o Estado brasileiro não é eficaz na gestão dos recursos públicos e que gasta, sempre, mais do que arrecada e o que faz, gasta mais do que precisaria para fazer. Ou seja, se algo custa 10, o governo gasta de 12 a 15 para fazer. Por que? Por causa daquilo que os empresários asiáticos da década de 1980 chamavam de “custo Brasil”. Evitavam investir aqui pois o custo de se fazer algo para o governo era alto, não pelos impostos, mas pelos comprometimentos jurídicos que teriam caso fossem descobertos.

É tempo de reerguer esta nação sobre novos patamares éticos. Ser justo, no entanto, tem um preço a ser pago. Inúmeras são as histórias de advogados, juízes, promotores, fiscais, cidadãos de bem que morreram por denunciar esquemas de corrupção. Não foram mortos em vão. Devemos honrar a memória e a luta daqueles que lutaram por justiça. Como? Continuando a buscar a justiça, a construir uma nação que condena o corrupto e abomina a corrupção.

Reverendo Giovanni Alecrim
Pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil

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