Não é de hoje

Artigo escrito para a edição de 25 de novembro de 2017 do Jornal Info o Povo do Estado do Rio de Janeiro.

Na última terça-feira, 21 de novembro, o Banco Mundial publicou um relatório onde aponta proposta de ajustes fiscais no país. Em resumo, o relatório diz o que todos nós já desconfiámos: as políticas fiscais do Brasil favorecem a minoria rica em detrimento da maioria pobre. Como solução o Banco Mundial aponta para ajustes fiscais para que os que realmente necessitam tenham acesso ao que precisam. Não é de hoje que isso acontece.

Nos tempos de Jesus

Então Jesus entrou no Templo e começou a expulsar todos que ali estavam comprando e vendendo animais para os sacrifícios. Derrubou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas, dizendo: “As Escrituras declaram: ‘Meu Templo será chamado casa de oração’, mas vocês o transformaram num esconderijo de ladrões!”. Mateus 21.12-13

Este é um episódio que os cristãos conhecem. Após entrar em Jerusalém montado num jumento (celebrado no Domingo de Ramos, antes da Páscoa), Jesus se dirige ao Templo e expulsa os vendedores e compradores que estavam ali. Por que ele fez isso? Qual o problema de vender os animais no Templo? Vamos entender o contexto. Era costume o judeu subir ao Templo para oferecer sacrifícios. Para tal, havia uma lista de exigências para que o animal seja aceito. Como garantir que o animal que você trazia por dois ou três dias de viagem atendia às exigências do Templo? Não dava, só o sacerdote, que era do Templo, podia dizer. Além disso, imagine um Judeu que saía de uma distância de mais de uma semana de viagem trazendo um cabrito ou rolinhas para o sacrifício. Difícil né? Como resolver essa questão? Vendendo animais com “selo de qualidade”. Até aqui podemos pensar que há uma boa vontade e ajuda do Templo para com as pessoas. O problema era como era feita essa venda. Primeiro, quem chegava de longe tinha que converter a moeda do império na moeda aceita pelo templo, por isso havia cambistas por lá. Quem determinava a taxa de câmbio? O Templo. Essa taxa era justa? Não. Quem tinha condições de adquirir os animais para os sacrifícios? Quem tinha muito dinheiro. Assim, o Judeu pobre era colocado à margem das principais festas do povo. Havia um claro sistema para privilegiar os mais ricos em detrimento dos mais pobres. Por isso Jesus expulsa os vendedores do Templo.

Primeiro quero pontuar que não é pecado ser rico, pecado é deixar que a riqueza domine seu coração. A parábola do Rico e Lázaro, em Lucas 16.19-31, nos mostra tal verdade. O sistema político e religioso do tempo de Jesus nos revela que os ricos oprimiam e menosprezavam os pobres. Faziam exigências impossíveis deles cumprirem para que pudessem ter acesso ao Templo.

Segundo, quero pontuar que a generosidade é a marca de Jesus. Ele não fez diferença entre pessoas, recebeu a todos, tratou a todos com justiça e conforme a vontade de Deus. Jesus estabelece um novo parâmetro do uso das riquezas. Os ricos são intimados por Jesus a serem generosos para com os mais necessitados. De nada adianta ter a conta bancária mais gorda do mundo, se o dinheiro é a razão de sua vida. A vida não se resume a acumular riquezas, a vida é somente Deus quem pode dar e ele é a razão da vida. Portanto, uma pessoa que possua recursos deve ser generosa a ponto de dar condições dos mais pobres melhorarem sua condição. Trata-se de justiça.

Nos dias de hoje

Parece que pouca coisa mudou. Numa semana onde todos os Governadores do Estado do Rio de Janeiro desde 1998 e todos os presidentes da Alerj, desde 1995, estão presos, fica claro e evidente que os poderosos e ricos de nossos tempos continuam oprimindo e se valendo dos benefícios do poder para tirar vantagem. Não há como não desanimar diante do fato de que os brasileiros estão sofrendo, não é de hoje. Falta honestidade, competência e senso de coletividade. Uma prova disto é o próprio relatório do Banco Mundial que aponta a falta de eficiência dos serviços públicos prestados pelo Estado em todas as esferas. Em linhas gerais, o relatório aponta que, para se fazer o que se faz hoje, gasta-se mais do que custa. Ou seja, daria para fazer o que se faz, gastando menos, ou fazer melhor pagando o que se paga.

O grande paralelo entre o texto que citamos acima é o fato dos poderosos continuarem a oprimir as classes menos favorecidas. Este não é um discurso político, mas sim social. Se desejamos uma sociedade mais pacificada, mais justa e mais inclusiva, devemos lutar para que os governantes sejam vistos como funcionários dos interesses públicos. As investigações não devem cessar. O direito de defesa deve ser assegurado, mas os poderes que corrompem os governantes devem ser combatidos a todo custo. E tudo começa com nossas atitudes, votando em quem não tem condenação nem suspeita de corrupção, não querendo que algum funcionário público “quebre essa” para gente e sem incentivar atitudes que visam vantagens pessoais em detrimento do bem comum social. E tal prática não está apenas na gestão pública

O que vale mais: o lucro ou a sinceridade? É o que me pergunto sempre que leio notícias de empresas ou pessoas que tentaram tirar vantagem em algo. Parece ser de nossa cultura o que nossos pais chamariam de “Lei de Gerson”, que, segundo consta, é a lei da vantagem. Se puder tirar vantagem em algo, tire, não importa se isso vai prejudicar alguém. Essa regra da vantagem é o cúmulo da ganância e do egoísmo. Todo mundo sabe que nos preços de serviços e produtos já está embutido o lucro. Por que querer ganhar mais? Da mesma forma, quando se paga um valor por um serviço ou produto, espera-se dele a qualidade compatível com o preço. Por que empresários e prestadores de serviço se nivelam, em sua maioria, por baixo? Os custos justificam tal prática? Já não há lucro em seus preços? Por que então prejudicar aqueles que o sustentam, o cliente.

Creio que as respostas estão nas duas palavras que já citei: ganância e egoísmo. Querem tirar vantagem porque enxergam o lucro fácil e imediato. Esquecem-se que é melhor colher frutos por um longo tempo e sempre ter o que colher, do que colher tudo de uma vez e um dia ficar sem nenhum fruto. São pessoas pautadas pelo egoísmo, que querem somente o melhor para si, e não para os outros. Mais uma vez, percebam, tudo passa pela educação e formação que recebemos. É difícil lutar contra um sistema egoísta e ganancioso, mas se os bons se calarem, o que será da humanidade? Estará entregue à própria sorte. Precisamos compreender que uma sociedade justa começa em casa, começa em cada um de nós, sem jargão, depende de nós mesmos que corrupção não seja sinônimo de brasileiro. Cabe a cada um de nós mudar, primeiro em casa, depois na sociedade, este conceito que temos carregado há tempos.

Não é de hoje que há corrupção na sociedade, ela está aí, não há uma sociedade no mundo sem corrupção, mas precisamos lutar para que ela seja minimizada e seus efeitos não promovam uma transferência de renda sistemática dos mais pobres para os mais ricos, e sim o contrário.

Reverendo Giovanni Alecrim
Pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil

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