Conto

Acordado

Abriu os olhos lentamente, sentido pesar as pálpebras. Olhou para a parede à sua frente e tentou reconhecer onde estava. Lentamente virou-se e reconheceu o despertador sobre o criado mudo. Tentou levantar. Não conseguiu. Sentia seu corpo dolorido. Dor, muita dor. Olho aberto, fito na luminária apagada de seu quarto, tentou lembrar-se do que fizera seu corpo sofrer a ponto de acordar com dor. Minutos que pareceram horas e nada. Tentou mais uma, duas, três vezes e enfim conseguiu erguer-se se apoiando no travesseiro com os dois braços.

Um minuto? Cinco? Dez? O que importa? Conseguiu sentar na beirada da cama e, para quem sentia cada milímetro do corpo doer, como se tivesse levado uma surra, isso era uma vitória que o tempo não apagaria, pelo menos não naquele instante. Sentado, olho aberto, fito na parede, ele tentou erguer-se. Não conseguiu. O tempo passou. Tentou mais uma, duas, três vezes e enfim conseguiu se erguer apoiando na parede. Respira fundo e olha para porta do quarto, aberta. Por que está aberta? Não gosto de dormir com a porta aberta. Pensou. Só pensou. Sentindo as pernas doendo, ensaia um passo. Move-se para frente, lentamente. Parede, agora, era sua muleta. Apoiava-se nela como um inválido à um par de muletas. Inválido. Apesar de sentir seu corpo, e como sentia dor, era como ele se sentia. Passo a passo, lentamente, caminhou até o banheiro.

Apoiou-se com certo esforço na pia. Ergueu os olhos e fitou sua imagem no espelho. Observou seu rosto atentamente. A imagem que via ali era desoladora. Um rosto abatido, sem vida, sem ânimo, refletido naquele espelho. Baixou a cabeça. Quis chorar. As lágrimas não vieram. Ele as sentiu correndo por seu corpo, a gritar desesperadas querendo jorrar de seus olhos, mas não conseguiu chorar. Ergueu novamente a cabeça, olhou-se no espelho, e fitou-se. Foi então que se lembrou do que acontecera: sua alma! Não era mais dele, não pertencia mais a ele. Desalmado! Entregou sua alma a outra pessoa. Tudo era dela. E ele, ele sentia a dureza das palavras como um soco. Então se lembrou do que leu, do que viu e porque seu corpo doía: levara uma surra na alma. Acordado, porém sem vida, sem perspectiva, não conseguia mais reencontrar-se consigo mesmo. Perdeu-se em seu próprio olhar. Sua alma saiu… e nunca mais voltou…

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