Artigos, Sermões

500 anos da Reforma Protestante do Século XVI

Pois não me envergonho das boas-novas a respeito de Cristo, que são o poder de Deus em ação para salvar todos os que creem, primeiro os judeus, e também os gentios. As boas-novas revelam como opera a justiça de Deus, que, do começo ao fim, é algo que se dá pela fé. Como dizem as Escrituras: “O justo viverá pela fé”. (Nova Versão Transformadora)

Sempre que leio o texto de Romanos 1.16-17 eu me recordo de minha adolescência quando, na casa de minha avó, numa tarde de inverno paulistano, eu me debrucei sobre uma Bíblia que acabara de ganhar de minha tia-avó Diva e abri no texto de Romanos, que havia sido tema da aula de Escola Dominical no domingo anterior. Uma nota de rodapé, associada ao final do verso 17, apontava para um outro texto: Habacuque 2.4, que diz “Eis o soberbo! Sua alma não é reta nele; mas o justo viverá pela sua fé”. Esta sequência de versículos caiu como uma bomba em meus pensamentos, dinamitando paredes que bloqueavam minha compreensão e trazendo luz para meus questionamentos mais sinceros sobre a vida na Igreja e a vida com Deus. O fato de ter nascido numa família cristã não me livrou, em nenhum momento, das aflições e questionamentos sobre Deus, igreja e família.

Quando me debrucei a escrever estas palavras, me lembrei que os estudos daqueles dias, sobre o texto de Romanos e de Habacuque me levaram a reconhecer três pilares que, hoje, olhando para os 500 anos da Reforma, reconheço como essência daquela retomada do povo de Deus de sua vida com o Pai. Quero falar com você, hoje, sobre a prática da oração, a vida de louvor e o testemunho. Vamos conversar sobre como os reformadores viveram tais pilares e como nós devemos vive-los hoje. Comecemos pela prática da oração.

A prática da oração

Se eu fosse tão dedicado à oração quanto o cachorro de Peter Weller se entrega à comida, hoje mesmo minhas orações seriam capazes de trazer o Dia do Juízo; esse cachorro não pensa em mais nada o dia inteiro além de lamber sua tigela. (Martinho Lutero)

A frase de Martinho Lutero está num contexto bastante interessante. Ele versava sobre a importância da oração e o quanto cristão deveria se dedicar a ela como forma de se relacionar com Deus. Buscando uma forma de exemplificar esta dedicação, Lutero usa a imagem do cachorro a lamber totalmente a tigela de comida com voracidade. Esta dedicação a fazer o que se tem prazer é que faz Lutero proferir sua frase, que é um desafio a nos apaixonarmos de tal forma pela oração que seríamos capazes de contemplar o que nosso coração mais deseja: a volta de Cristo, aqui posto como o Dia do Juízo.

A vida de oração de Lutero é registrada por diversos biógrafos. O mais interessante é notar que Lutero tinha hábitos bem marcados quanto à oração. Quando se dirigia ao seu quarto para orar, diariamente, fazia uso constantemente da oração do Pai Nosso. Por vezes, orava os Dez Mandamentos, por outras orava sobre um ou outro assunto mais específico, no entanto, a base de sua vida de oração foi a oração que o Senhor Jesus nos ensinou. Não é impressionante pensar que um dos homens que mudou a história, o fez orando o Pai Nosso? Uma oração que muitos reclamam quando feita semanalmente em nossas igrejas, chamam de repetição mecânica, reza, não a praticam por puro preconceito.

Muitas vezes fui levado à oração pela irresistível convicção de que este era o único lugar para onde podia ir. (Martinho Lutero)

Interessante notar que Lutero considerava a oração um lugar para onde se deve ir. Isto nos coloca diante da verdade bíblica que Jesus nos ensinou de buscar um lugar, um quarto, para conversarmos com Deus. É como se Lutero estivesse nos dizendo que, diante de determinadas situações, somos levados diante de Deus, em particular, para conversarmos e nos confessarmos. A necessidade de uma conversa franca, por vezes, é urgente. Com Deus não é diferente. Ele nos chama para uma conversa, em oração, para nos orientar e apaziguar. É quando somos confrontados e confortados com sua graça e misericórdia.

Orar é estar diante de seu Deus e Pai para conversar com ele. Como um filho busca a orientação de seu pai, assim buscamos a orientação de Deus na oração. Mas a oração não é apenas para buscar orientação, nela adoramos a Deus pelo que ele fez e fará, mas principalmente pelo que ele é. Na oração confessamos nossos erros, louvamos a Deus e contamos nosso dia a dia, como numa conversa entre amigos. O que nos levará a um hábito constante de buscar a Deus não na necessidade, mas por alegria e satisfação em ser filho de Deus.

Retomo aqui uma pergunta feita lá atrás: não é impressionante pensar que um dos homens que mudou a história, o fez orando o Pai Nosso? E complemento: não impressionante que a prática deste homem, hoje, seria tida como uma prática idólatra de repetição? O que, então, difere a vã repetição, que Jesus condenou, com a prática de Lutero? O Reformador estava orando a oração que o próprio Jesus ensinou como contraponto às vãs repetições, e o fazia com seu coração posto em Deus. Esta é a diferença. Quem determina o mecanicismo não é o ambiente, mas o coração de quem ora.

Os que acusam a oração do Pai Nosso de ser mecânica, são os mesmos que fazem as orações do mesmo jeito, sem perceber que se entregaram a vãs repetições. O que me remete a Romanos 1.17, quando Lutero se depara com a sentença “O justo viverá pela fé”, que nos levará ao seu registro original, no profeta Habacuque: “Olhe para os arrogantes, os perversos que em si mesmos confiam; o justo, porém, viverá por sua fidelidade a Deus”. (Habacuque 2.4). A arrogância e a perversidade de nosso coração nos cegam diante da nossa necessidade de arrependimento e conversão. A vida de oração é uma vida de constante arrependimento e conversão.

Viver pela fé é ter a certeza que a vida de oração é mais que necessária para nossa vida. Uma das marcas da Reforma foi ter tirado a oração das mãos dos mercadores da fé e colocado nas mãos dos que andavam oprimidos e perdidos em sua cegueira espiritual. A Igreja confinou Jesus ao sacrário, ao altar, a Reforma jogou no chão tal mentira, levando a Igreja de Cristo a olhar novamente para Deus como fonte de misericórdia e perdão, e não exclusivamente de punição e condenação. A vida de oração é uma vida de contato direto com Deus, esta verdade foi vivida pelos Reformadores e é um desafio para vivermos hoje.

O primeiro pilar, portanto, é a prática da oração, que nos leva ao segundo pilar que é a vida de louvor.

A vida de louvor

Assim que a moeda no cofre tilintar, a alma do purgatório irá saltar. (Johann Tetzel)

Tetzel, frade dominicano, andava de vila em vila para coletar recursos para a construção da basílica de São Pedro em Roma. A frase era cantada enquanto ele passava diante de uma multidão que, ávida, esticava seus braços com moedas, muitas vezes, tudo o que tinham, para livrar do purgatório seus entes passados e seus até entes futuros, pagar pelos pecados passados e até conseguir um salvo conduto para pecados futuros. Tetzel era fruto do seu meio, um eficiente frade a serviço do que acreditava ser verdade. O que ele cantava enquanto passava pelas vilas se tornou tão conhecido que chegou aos nossos dias. Talvez não na rima, mas na essência.

Em nossos dias muitos cristãos levam a essência da canção de Tetzel em suas vidas. Encaram o louvor a Deus como uma forma de agradar a Deus para obter bênçãos. Não desejam o perdão dos pecados, mas desejam bens e benefícios imediatos. Se pudesse parafrasear Tetzel para os dias de hoje, diria “Assim que sua boca começar a louvar, a benção que queres dos céus irá saltar”. De fato, louvar a Deus é fonte bênção em nossas vidas, mas não as bênçãos que nós queremos, mas sim as que Deus tem reservado para nós. Precisamos inverter esta lógica, que não é exclusiva de igrejas neopentecostais, comunidades diversas ou adeptos da teologia da prosperidade, mas está presente no coração de muitos de nossos irmãos.

Martinho Lutero valorizava demais a música. Com o advento da imprensa, suas composições foram amplamente divulgadas e se tornaram o motor propulsor da divulgação dos ideais reformados. A mensagem do evangelho atingiu lugares longínquos por meio das canções, que se tornaram populares. A música foi uma das formas que Deus usou para alcançar aquela geração e marcar, em definitivo, a vida daquelas pessoas. Que tipo de música? Basta olhar para a letra de Castelo Forte e já se vislumbra que não se trata de poesia qualquer, mas que aponta para a exaltação de Deus como Senhor e a dependência dos homens ao poder divino.

Devemos tomar todo o cuidado para não fazer da música um elemento de entretenimento; ao contrário, a música é para adoração do Criador e para a edificação da Igreja. (João Calvino)

A música na Igreja não é para você ter uma sensação especial. Se você sente algo especial durante uma canção na Igreja, que não seja o sentimento de total rendição e submissão a Deus, você está adorando a você mesmo, e não a Deus. O maior problema das canções no dia de hoje é que elas buscam, em sua maioria, satisfazer interesses pessoais, e não adorar a Deus. Encontrar, em meio a tanta música egoísta, algo que seja biblicamente correto e que exalte a Deus, é trabalho árduo. Acontece que muitos músicos não estão interessados em garimpar tais canções e outros tantos não estão interessados em terem bagagem bíblica para saber filtrar. “Se gravou e fez sucesso, então é bom”. Já ouvi esse argumento em diversos lugares.

Para Calvino, e também para Lutero, a música não serve a mim ou a você, ela serve a Deus. Consideramos extremada a posição de Calvino em afirmar que se deve cantar apenas o que está na Bíblia. Também acho extremado, em certo ponto, pois desconsidera a beleza da criação poética inspirada em textos bíblicos. Mas a posição de Calvino deve servir de direção para nós, ao escolhermos quais músicas cantar e porque vamos cantá-las. A essência não é a satisfação pessoal, mas a adoração e o louvor a Deus, que são marcas de quem é edificado na Palavra, na comunhão e na oração.

A vida de louvor não se resume ao simples momento de cânticos na Igreja, ela começa com a prática da oração e como, ao longo de toda a minha vida, eu me posiciono diante das pessoas: louvando a Deus em tudo, ou apenas confinando meu louvor a Deus a três ou quatro cânticos semanais. O que me remete a Romanos 1.17: “O justo viverá pela fé”. Viver pela fé é viver em constante louvor a Deus. Sem soberba e sem arrogância, mas com o coração posto naquele que é digno de todo louvor. Os Reformadores tiraram o foco do louvor da pessoa da Igreja e o colocou de volta na direção de Deus. É para adorar ao criador que louvamos, é para sermos edificados que louvamos. A vida de louvor é uma vida em constante se prostrar diante de Deus.

O primeiro pilar, a prática da oração, nos leva ao segundo pilar, a vida de louvor, que está ao lado do terceiro pilar, o testemunho.

O testemunho

Faça um bom sapato e venda por um preço justo. (Martinho Lutero)

Um sapateiro perguntou a Lutero o que poderia fazer para servir melhor à Deus e ser um cristão melhor. Lutero respondeu: Faça um bom sapato e venda por um preço justo. O testemunho cristão é uma das marcas da Reforma. Basta você olhar para o resumo do pensamento Reformado, expresso nos Cinco Solas, que você verá que todos eles exigem de nós uma atitude. SOLA FIDE, somente a fé, exige de nós a confiança e a certeza de que “O justo viverá pela fé”. SOLA SCRIPTURA, somente a Escritura, exige de nós ler constantemente a escritura para dela conhecer e proclamar. SOLUS CHRISTUS, somente Cristo, exige de nós a atitude de reconhecer, em todas as decisões de nossas vidas, que Cristo reina sobre tudo. SOLA GRATIA, somente a graça, exige de mim e de você a confiança de que somente pela graça de Deus somos salvos. Não há nada que eu possa fazer para me salvar. Por fim, SOLI DEO GLORIA, glória somente a Deus, exige de nós o negarmos as glórias deste tempo para rendermos a devida glória a Deus. Cinco máximas que conhecemos, e que foram exaustivamente repetidas nos 500 anos da Reforma, e que são máximas que exigem de nós atitudes.

O testemunho é como nós vivemos a fé que professamos. Muitas pessoas se filiam a uma igreja sem compreender a mensagem do Evangelho. Alguns por herança familiar. O bisavô era, o avô é, a mãe é e eu sou. Outros por se converterem ao local, ao ambiente da Igreja, ao conjunto de louvor, às pessoas, mesmo acreditando que aquilo tudo é Jesus. E não é. Quando Cristo nos chama, ele nos coloca em uma comunidade de fé, e ele faz isto com uma razão bem clara: aqui é onde você deve aprender como viver comigo, aqui é a minha noiva. Muitos membros têm falado mal da Igreja fora da Igreja. O que não percebem, é que falam mal da noiva de Cristo para pessoas que nem sabem o que é a vida com Cristo. Dão mal testemunho.

Deixar de dar as boas-vindas à felicidade de um irmão, com genuína alegria, é um sentimento de inveja; e deixar de demonstrar tristeza em seu infortúnio é sinal de desumanidade. (João Calvino)

Pessoas que dão mal testemunho são, em essência, ingratas e invejosas. Ingratas pois não conseguem reconhecer na Igreja a mão de Deus que as acolhe, ensina e exortar. Invejosas pois não conseguem se alegrar com os que se alegram, não conseguem ver nas vitórias dos irmãos motivos para se alegrarem com eles, e nem na perda e dor motivos para com eles chorarem. É triste reconhecer que da porta para dentro da Igreja existam pessoas assim, mas é necessário reconhecer para sermos ensinados e exortados a mudar de atitude. É preciso quebrar o ciclo vicioso de inveja e ingratidão dentro de nossos templos.

Aqui é oportuno retomar a frase de Lutero ao sapateiro. Fazer o que é bom e justo é o melhor caminho para se testemunhar do amor de Deus. Lutero não viveu a lógica do capitalismo e do consumismo. Diferente de nós, que estamos imersos nesta lógica de mercado, Lutero viveu num tempo em que as relações econômicas estavam ligadas às relações entre Reis e com a Igreja. Fazer o que é justo é viver pela fé. Somos bombardeados diariamente com a ideia de que eu devo ter a primazia, eu devo ser privilegiado antes de tudo. Devemos romper com esta cadeia que nos aprisiona.

O testemunho cristão deve ser consequência de uma vida transformada por Deus. O testemunho não começa no culto, o culto é uma expressão do testemunho de vida. O culto é o momento que a Igreja, que é testemunha viva e constante do Evangelho, se reúne para louvar a Deus pelas dificuldades que enfrenta em ser fieis e agradecer pelas vitórias diante dos empecilhos em se viver uma fé pautada na justiça, misericórdia e amor de Deus. O testemunho, portanto, é uma ação individual de cada cristão que faz parte de um todo, formando o testemunho institucional da Igreja na sociedade. Cristãos que testemunham o evangelho são pessoas que vivem pela fé. Viva pela fé, seja testemunha fiel de Jesus em todos os momentos, não apenas no domingo na hora do culto.

Conclusão

A Reforma Protestante do século XVI trouxe para Igreja o seu real significado: servir a Deus e ao próximo. As dificuldades enfrentadas por Lutero, Calvino e os herdeiros da Reforma desde aquele 31 de outubro de 1517 não foram empecilhos para o crescimento da fé em Deus e o desenvolvimento da sã doutrina. Quando as dificuldades se avolumarem, lembre dos versos finais do Hino Castelo Forte

Se temos de perder
Os filhos, bens, poder,
Se tudo se acabar
E a morte, enfim, chegar,
Com ele reinaremos.

Tenha estes três pilares para sua vida: a prática da oração, a vida de louvor e o testemunho. Lembrem-se, quando parecer que as músicas, os livros e tudo isto que é feito em nome de Deus apontar mais para qualquer lugar que não para o próprio Deus, é hora de colocar a mão na massa e viver o ECCLESIA REFORMATA, REFORMATA EST.

A Reforma Protestante do Século XVI foi uma mudança de rota da Igreja de Cristo, marcando a história. Olhamos para hoje e reconhecemos os frutos da Reforma em nossa Igreja. Assim como João Calvino, Martinho Lutero e João Knox mudaram o rumo de suas vidas, cidades e países, reconhecendo o poder e a sabedoria de Deus, arrependendo-se de seus passados de erro, nós hoje somos convidados a fazer o mesmo. Somos convidados a corrigir a rota. Para muitos, parecerá loucura: ” Certamente, a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos, poder de Deus.” diz o apóstolo Paulo em 1 Coríntios 1.18.

O poder é de Deus, a sabedoria é de Deus, o conhecimento de sua vontade, só teremos se nos dispusermos a deixar de lado uma vida de frequentadores de igreja para uma vida de discípulos de Jesus. Discípulos não ficam inertes e passivos, discípulos participam da caminhada e do crescimento do Reino de Deus. Neste dia, quando rememoramos o Século XVI e a Reforma Protestante, o nosso desafio é sermos os loucos a dizer ao mundo que a vida que o mundo vive é morte, e que vida verdadeira, só em Jesus. SOLI DEO GLORIA! Somente à Deus glória!

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