Conto

Encontros

O primeiro encontro: o começo.

Na primeira vez que ele a viu, não imaginava o impacto que ela causaria em sua vida. Os primeiros contatos foram simples e diretos, típicos de uma relação que começa despretensiosa e cercada de cuidados e zelos de ambos os lados. Aos poucos, o dia a dia foi revelando, em pequenos contatos e descobertas, a maneira de ser dela, que ele passou a contemplar.

Foram dias de pequenos contatos. Palavras simples e diretas, olhares singelos e pequenos favores feitos com sinceridade.

Foram dias de pequenas descobertas. Um sorriso que o deixava leve, um olhar que revelava segurança, um senso de humor afiado, um gosto musical por vezes fantásticos por vezes duvidoso.

O primeiro encontro se desdobrou na rotina da convivência. Cada dia um contato diferente, cada contato uma nova descoberta e cada nova descoberta um fascínio.

O segundo encontro: uma confissão.

Dizem que o sexto sentido é uma exclusividade feminina. Não sei, eu sei que ele confiou em seu sexto sentido poucas vezes e, excetuando uma única, ele nunca falhou. Seja pessoal ou profissionalmente, seu sexto sentido era afiado.

Um dia, confiando em seu sexto sentido, ele abriu a primeira janela de seu coração e confessou. Uma confissão simples, alguém diria que até infantil, mas uma confissão verdadeira. Confiança é algo fundamental para ele e ao lhe confessar que ela inspira confiança nele, de uma maneira direta, ele se abre e se revela, mesmo que abrindo só uma janela do coração.

Inspirar. Quando você respira o mesmo ar de uma pessoa, mesmo que esta esteja a quilômetros de você, é inevitável a inspiração, que se manifesta das maneiras mais diversas. Você pode expressar sua inspiração em versos, músicas, pinturas, esculturas ou de outras maneiras, com um sorriso, um abraço ou um olá, por exemplo. Inspirar. Talvez ele ainda não fizesse ideia do quanto usaria esta palavra nem do quanto expressaria sua inspiração.

Respiro

O que mais dizer,
se aspiro o seu ar
e expiro versos?

O terceiro encontro: um sonho.

Ele acordou atordoado. Não conseguiu reconstruir a cena toda. Faltou-lhe alguns muitos detalhes. Mas ela estava lá. Sorria, falava, caminhava. Ele estava do lado. Atento, sorrindo, caminhando com ela. Era um sonho. Foi o primeiro de muitos. O que ele não sabia era do por quê ela estar em seus sonhos. Talvez soubesse, mas não quisesse admitir para si mesmo.

Aquele sorriso, o do sonho, era igual ao que ela lhe sorria todas as vezes que o encontrava. Um sorriso leve, de alguém que, sem saber – ou quiçá saiba mas não se vangloria disto –, irradia alegria e sensibilidade.

Aquela fala, a do sonho, ele não ouviu. Assim como não conseguia ouvir os seus pensamentos mais verdadeiros a respeito dela, por deixar que a rotina e as dificuldades do dia a dia e da convivência abafassem a voz que ia dentro dele.

Aquele caminhar, o do sonho, de nada parecia com o dia a dia, entregue a uma rotina estressante. Era um caminhar leve, despreocupado, sem tempo, sem espaço. Caminhavam por caminhar.

Ele acordou atordoado, e atordoado ficou. Mal sabia que era só o começo.

O quarto encontro: perdido e achado.

Como você vai se encontrar se nunca se perdeu? A pergunta do autor de O Vendedor de Sonhos  – O chamado é um eco de tudo o que vai dentro dele.

Perdido eu

Quis esquecer, apagar da mente e recomeçar,
mas seu olhar me prendeu num instante
e por um momento pensei respirar a liberdade
dos que amam e não tem nada a temer.

Então lutei contra aquilo que desejava,
entreguei meu coração ao vazio
e mergulhei no fundo da minha alma,
sem perceber que ao me perder, me achava. 

Perdido, busquei a luz dos teus olhos
e encontrei o gris de um sorriso pálido
me convidando para cantar e dançar
coisa que não quis, por não ter o que desejo.

Desejei, sonhei, acordei e desacordei.
Tentei me reerguer, sublimar, apagar,
calar a voz de um coração perdido.
Perdido eu, em você…
você…
você…
você…

Perdido dentro dela. Era assim que ele se achava em meio a um turbilhão de acontecimentos em sua vida. E quanto mais ele contemplava aquele olhar, em busca de explicação para o que sentia, mais ele se perdia nela. Enquanto mil projetos eclodiam profissional e pessoalmente, ele não conseguia apagar da sua mente e dos seus sonhos o sorriso, o olhar, as palavras, os gestos e o corpo dela. O gris de um sorriso pálido era a manifestação de alguém que pedia um sorriso a quem queria chorar, por não poder expressar o que sentia, por não poder deixar o que lhe prendia e correr em sua direção. Ele quis gritar, fugir, desistir de tudo. Ele se fechou em si mesmo, ninguém tinha acesso aos seus mais sinceros pensamentos. Ele se tornou insuportável para ele mesmo. Ele não podia falar, não podia confessar, não podia desabafar. Ele só podia contemplar.

Achado

Contemplei,
e por contemplar, desejei,
e por desejar, sonhei,
e por sonhar, me perdi,
e por me perder,
me encontrei em ti

De repente muita coisa deixou de fazer sentido para ele. E ele se viu no fundo daquele olhar, aquele mesmo olhar que o fizera se perder agora o revelava para si. Cada vez que pensava, sonhava ou a via, mais ele se encontrava. De perdido, agora ele tinha se achado e ao se achar, ele se sentiu leve, ele se sentiu dela.

O quinto encontro: a conquista.

Em uma paixão correspondida não há conquistador e conquistado, há conquistados. Assim, com versos e pequenas confissões, com gestos e olhares, ele se aproximou dela e, aos poucos foi abrindo as portas e janelas de seu coração, revelando a ela toda sua paixão. Aos poucos, ela foi abrindo as portas e janela de seu coração, e ele entrou. Eles se conquistaram.

Intensidade, força e serenidade

Com a intensidade da paixão,
a força do desejo
e a serenidade da amizade
fiz dos meus versos confissão. 

Confesso-te: sou teu.

Já não tinha mais volta. Ele era dela. E ela? Era dele? Aos poucos ele percebe que o sorriso mudou, que as palavras mudaram, que a presença mudou. Aos poucos ele percebe que ela também quer ser dele, se já não era…

Confessou

Ouvi pelo telefone
a sua confissão.
Feliz, percebi que
a razão deu as mãos
ao coração e à alma.

Suas palavras ainda ecoam
nos meus ouvidos e coração,
pelo corpo inteiro
sinto o tremor
de sua confissão.
Sinto o calor.
Sinto a sinceridade.
Sinto a confiança.
Sinto você.

O encontro

Sentado, ele observa o movimento das pessoas de um lado para o outro. Espera um telefonema. Espera a chegada. Espera. Pensou: Como o tempo é cruel! Voa quando não queremos e é lerdo quando queremos que voe. Logo a espera dá lugar ao abraço, ao encontro.

Confusos pelo turbilhão de emoções, eles vagueiam até encontrar um lugar para sentar e conversar. É quando, pela primeira vez, se olham nos olhos e confessam o que sentem. Até então, todo o calor das emoções era expresso em versos no papel ou enviados eletronicamente. Ao contemplar aquele olhar, brilhando, enquanto confessava sua paixão, ele percebeu o quanto a sua vida ganhara sentido, o quanto ele havia se encontrado nela.

A conversa muda de tema, muda de lugar, mas não muda o foco. Ela se confessa a ele, abre seu coração, entrega seus desejos e anseios em palavras sinceras. Ele retribui, se revela como nunca antes. Ele está aos seus pés, mesmo caminhando ao seu lado.

Os dois se aproximam, estão sentados, a caminho da casa dela. Estão felizes, estão confusos. As mãos se encontram, os braços se encostam. O sorriso é largo, a felicidade irradia, os desejos se afloram. Um carinho no rosto, um carinho na nuca. Olhares sinceros, sorrisos sinceros, confissões sinceras. Um abraço, um beijo no rosto, um sussurro apaixonado.

Encontro

Os olhos brilharam
o coração acelerou
as mãos transpiraram
um sorriso se apresentou 

Os olhos se encontraram
os corações se abriram
as mãos se tocaram
as bocas sorriram

E a vida segue
ensinando a viver,
a gostar, a encontrar

 Os porens…

Toda história de paixão tem um porem, esta possui vários. Famílias, amigos, trabalhos… Eu poderia tecer uma lista de porem e assim deixar muita gente com raiva desta história ou quem sabe com dó destes dois. Mas o fato é que há uma cordilheira de porem diante da realização dos sonhos e vontades deles.

Cordilheira. Sabe o que é? Um conjunto de montanhas. Cada montanha tem sua característica e beleza. Cada montanha tem seus desafios. Cada montanha tem sua história. Ele tem as montanhas dele, ela tem as montanhas dela, e ainda existem montanhas que pertencem aos dois. Estas montanhas formam a cordilheira.

Mas não estamos aqui para falar de montanhas. A grande questão agora é: o que estes dois apaixonados confessos farão de suas vidas? Olharão para esta cordilheira e escalarão os montes, encarando as dificuldades, suportando os arranhões e feridas? Ou vão parar aqui, diante da cordilheira e regressarão para suas vidas e deixarão estes momentos como uma marca perene em seus corações? Se a escolha é ir adiante, qual o preço a ser pago? Se a escolha é regressar, há como sair sem deixar feridas? Qual o preço a ser pago para se viver uma grande paixão? Qual o preço a ser pago para se deter uma grande paixão?

 

E nossa história não estará
pelo avesso assim, sem final feliz.
Teremos coisas bonitas pra contar.
E até lá, vamos viver,
temos muita ainda por fazer
não olhe pra trás,
apenas começamos.
O mundo começa agora
apenas começamos.

(Metal contra as nuvens – Renato Russo, Dado Villa-lobos e Marcelo Bonfá)

Um dia, ela quis saber que futuro ela tinha para ele, e ele respondeu:

É com você que eu sonho, e sonhar é futuro.

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