Conto

Encontro inesperado

O sábado começava frio e seco, como são os dias de inverno em São Paulo. Ângelo estava sentado junto ao balcão da padaria, tomando um café e comendo um pão com manteiga na chapa, quando sentiu alguém tocar-lhe as costas.

– Desculpe, Ângelo?

Pousou o copo sobre o balcão e virou-se. Deu de cara com um jovem, cerca de dezoito anos, sorrindo-lhe.

– Você é o Ângelo, amigo da Jaqueline, autor dos livros que tem na estante lá de casa?

– Isso mesmo, sou eu. E você?

– Fábio. Filho da Jaqueline. Mamãe me disse que você tinha saído de São Paulo.

– Saí. Já tomou café?

– Ainda não.

– Senta aí.

Pediram mais uma rodada de café e pão com manteiga na chapa. Ângelo havia conhecido Fábio quando ele tinha seus oito anos. Agora era homem feito. Estava surpreso por ver aquele rapaz ali, na padaria no centro de São Paulo. Ângelo havia saído da cidade fazia mais de sete anos. Mudara-se para o interior e depois para a França. Chegara em São Paulo dois dias antes. Fora resolver algumas pendências pessoais e profissionais.

Na conversa com Fábio, pouco falaram sobre Jaqueline. O rapaz contou como foram seus últimos dias. O fim do primeiro namoro, por conta de uma traição dela. O emprego que conseguira duas quadras dali da padaria. Das desculpas que arrumava para sair de casa, como naquele sábado de manhã, que dera a desculpa para a mãe que tinha que resolver algumas coisas no centro da cidade. Ângelo percebe que o rapaz precisava desabafar. Deu corda e foi ouvindo as angústias daquele jovem. Ângelo lembrou-se das conversas com Jaqueline. Fábio sempre fora um menino quieto, gostava de rock e curtia ficar sozinho, no seu canto. O rock foi o pretexto para o convite.

– Fábio, vou emendar até a Galeria do Rock, que espero ainda tenha umas lojas das antigas.

Claro! Estou sem nada para fazer mesmo!

Ângelo pagou a conta e saíram em direção à Galeria. Quinze minutos depois, chegaram e subiram direto para uma loja pequena, no canto.

– Aqui, Fábio, comprei os melhores e mais raros discos da minha coleção. Hoje, com esse negócio de MP3, isso virou artigo de colecionador mesmo.

Ficaram cerca de duas horas ali. Saíram com quatro discos nas mãos cada um. Ângelo fizera questão de lhe dar os discos de presente.

– Fica como lembrança dessa manhã diferente para nós.

Ao saírem da loja, deram de cara com Jaqueline. Em pé, encostada na grade do vão livre, olhando impaciente para a loja. Ao se reconhecerem, Jaqueline gelou. Ângelo olhou em seus olhos, e sentiu o tempo se rasgar e voltar a um passado de amizade, paixão e amor. Virou-se para Fábio, deu-lhe um abraço e colocou na sacola dos discos um cartão com seu e-mail e telefone. Olhou novamente para Jaqueline.

Jaqueline havia seguido seu filho. O vira entrar na padaria, sentar-se ao lado daquele homem que a lembrava alguém, mas não sabia bem quem. Seguira de longe os dois, sem conseguir identificar quem era o homem que conversava com seu filho. Ao vê-los entrar na loja, subiu e pensou várias vezes em entrar na loja. Decidiu confrontar o filho. Esperou até que os dois saíssem. Ela só não imaginava que fosse Ângelo a pessoa que estivesse com seu filho naquela loja.

Os olhares os congelaram por algum segundos. Ângelo sentiu seus olhos marejarem. Foi em direção a ela, deu-lhe um abraço, sentiu-a se acomodando em seu peito, soltou-lhe e despediu-se de Fábio. Saiu dizendo, sem virar para trás:

– Seu filho é um cara muito especial. Parabéns.

Desceu pelas escadas e sumiu no centro de São Paulo. Jaqueline, ainda incrédula, abraçou Fábio e o convidou para almoçar com ela. Ao sentarem no restaurante, ouviu o filho falar sobre como Ângelo fora atencioso e companheiro e como ele se sentiu bem em conversar com ele. Em suas memórias, Jaqueline reviveu as conversas, os cafés, os momentos de alegria e desabafos com Ângelo. Mais uma vez Ângelo aproximava de seu filho, em um momento difícil para Fábio. Mais uma vez, ela era ajudada pelo homem que tanto a ama, mas que fica insistentemente à distância, sem interferir, aparecendo quando menos se espera.

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