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5 lições que o conservadorismo teológico tem me ensinado

Do início de minha caminhada teológica, até o presente momento, fiz uma jornada de desconstruir e reconstruir minha forma de ler e interpretar a Palavra de Deus. Tal exercício é fundamental, independentemente de sua linha teológica. Quando olho para o que produzo de teologia, o que me influencia e o que cala em minha mente e coração, claramente não me identifico com a maioria conservadora que toma conta dos rincões reformados (e ditos reformados) brasileiros. Por outro lado, os meus amigos progressistas e liberais teologicamente tendem a dizer que, por vezes, sou conservador demais. Eu amo cada um deles do mesmo jeito, apesar de tal definição.

Faço todo esse arrazoado para entrar no tema do artigo. Tenho convivido com pastores e líderes alinhados ao lado mais conservador da força (não resisti o trocadilho com Star Wars) e percebi que existem coisas que precisamos — progressistas, liberais e demais correntes — aprender com eles. Vamos a elas.

1. Produzir e divulgar ideias

Via de regra os conservadores são especialistas nisto. Quantos blogs, vlogs, páginas no Facebook, perfil no Instagram e Twitter você conhece que divulgam suas ideias e alimentam seus seguidores com conteúdo constante. Via de regra, um único artigo é replicado, resumido e sintetizado em mais de três meios diferentes de divulgação digital.

2. Pessoas de referência e visível digitalmente

Cite uma teóloga ou um teólogo não conservador de referência que tenha presença digital ampla. Apenas uma ou um. Não precisa de mais. Os conservadores “elegem” seus líderes que são referenciais de produção e os incentivam e apoiam – até mesmo financeiramente – para produzirem conteúdo. Eles reproduzem suas frases, seus textos, seus vídeos. São capazes de mencionar trechos inteiros de livros. Os “seguidores” fundamentam sua forma de ver igreja, dentro de nossas igrejas, com a visão dos teólogos que nós, muitas vezes, combatemos, mas não temos ninguém para apresentar no lugar com igual produção de conteúdo digital, apenas em livros impressos e de difícil acesso.

3. Aproveitar as oportunidades

Se montarmos uma lista de teólogos conservadores em nossos dias, a imensa maioria deles rompeu as barreiras institucionais, estão presentes em diversas plataformas de diversas denominações e até fora do arco de influência de seus princípios teológicos. Tal conquista não se dá da noite para o dia. Eles aproveitaram as oportunidades e não criaram caso quando seus textos, áudios e vídeos começaram a aparecer em sites e perfis de pessoas de fora de suas denominações. Eles não se negam a participar de vídeos e podcasts, quer você tenha 10 seguidores, quer você tenha 50.000. Tal comportamento cria o que se chama divulgação orgânica de conteúdo.

4. Separam bem a política da teologia

Talvez seja este um dos pontos mais polêmico. A realidade política atual é tema da teologia sim. Nossas convicções teológicas nos levarão a fazer teologia sobre situações políticas. Há, no entanto, uma diferença substancial. A imensa maioria dos ícones conservadores tendem a se reservar o direito de não assumir partido, preferência de candidato ou posicionamentos acerca de alguma personalidade política. Por outro lado, progressistas e liberais, em suas análises, muitas vezes mais parecem cabos eleitorais que teólogos. É preciso ser sóbrio.

5. A igreja é bênção, não problema

Umas das características do pensamento progressista e liberal é sua capacidade de análise crítica da estrutura da Igreja. No entanto, muitos “perdem a mão” na crítica e a Igreja passa a ser, em seus textos, mais um problema que uma bênção. A instituição oprime? Sim, como toda instituição humana. Mas não é porque a Igreja nos oprime que devemos concordar com tal situação. A transformação de uma instituição não acontecerá com gritos públicos e desconexos, mas com atitudes concretas dentro da Igreja e seus mecanismos de gestão e transformação. No caso Presbiteriano, é nos concílios que se deve manifestar e protestar. Fora do ambiente institucional, a Igreja deve ser bênção e ela é. Não há uma teóloga ou teólogo que não possa dizer que a Igreja a qual pertence não a abençoou de alguma forma. Basta lembrar que ela nos proveu, além de instrução Bíblica para a vida, formação teológica.

———X———

Tais lições aqui apresentadas são percepções do que tenho observado nos últimos dez anos, particularmente nos últimos cinco, em que tenho convivido mais de perto com os conservadores por conta de projetos e parcerias. O que tenho aprendido é que o diálogo com uma vertente mais conservadora que a nossa depende de compreensão e força de vontade. Alguns pontos serão difíceis de compreender, e até melhor nem falar neles, mas uma coisa eu tenho aprendido com eles e, confesso, me dá uma invejinha: eles são excelentes em prover conteúdo sobre o que pensam e fazer este conteúdo chegar nas mãos do povo de maneira fácil. Tal prática talvez nos ajude a compreender a razão do conservadorismo ter crescido tanto nos últimos anos, não só teológica, mas também politicamente: quando aqueles que se decepcionaram com o discurso progressista e liberal se frustraram, encontraram vasto conteúdo disponível de maneira fácil, literalmente à mão. Se você não se considera um conservador teologicamente, pense um pouquinho no que escrevi e crie vergonha na cara e passe a produzir e divulgar conteúdos que refletem o que você pensa.

Reverendo Giovanni Alecrim
Pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil

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1 thought on “5 lições que o conservadorismo teológico tem me ensinado”

  1. Muito boa reflexão, Giovanni. Eu arriscaria uma sexta lição, que tenho percebido há muito tempo: capacidade de produzir literatura didática e de fácil acesso. Os pensadores críticos têm a chata mania de escrever de forma empolada, usando muitos teóricos difíceis até para o pessoal da academia. É muito texto de especialista para especialista. E aí não divulgam boas ideias críticas.

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