Conto

Encontro de solidões

Abriu os olhos e viu que não era seu quarto. Olhou para o lado e viu aqueles cabelos longos cobrindo o pescoço dela. Sorriu e lembrou-se do dia anterior. Acordara cedo, abrira seu e-mail e lá estava uma mensagem dela: Oi, lembra de mim? Estou sozinha em Sampa e não conheço ninguém. Se puder, me liga. Lembrou-se do charme e beleza dela e não hesitou, pegou o telefone e discou de imediato. Do outro lado da linha ouviu dela como foi difícil recuperar-se do divórcio há dois anos, a decisão em vir para Sampa e deixar no interior a família e os amigos, tudo para recomeçar a vida. De como a solidão a havia feito ver o mundo de um jeito diferente de como, para ela, era certo que não ficaria só para sempre. Foi então que a ouviu contar o quanto ela pensava nele, meio sem saber o motivo e que tomou coragem e lhe mandou um e-mail. Combinaram de almoçar.

Encontraram-se na praça de alimentação do Shopping. Enquanto almoçavam, ele falou da viuvez, há cinco anos, da decisão de manter-se um tempo só, do costume e da comodidade da solidão em uma cidade como Sampa e de como o telefonema para ela o deixou impressionado. Não conteve em fixar o olhar naqueles olhos verdes. Olho no olho ele a convidou para se encontrarem mais tarde. Ela estendeu um cartão: 20h, vai jantar em casa.

Cinco para as 20h ele toca o interfone. O porteiro lhe abre o portão, ele entra e, de elevador, sobe até o décimo andar. Ela o recebe de avental e cabelo preso. Vão para a cozinha e por lá ficam. Ele a ajuda a terminar a janta, resolvem comer por ali mesmo. Entre trocas de olhares e mãos que se tocam, ele se aproxima de seu rosto lentamente e eles se beijam. Do beijo ao abraço, do abraço ao calor dos corpos, do calor dos corpos para a sala. Da sala, despindo-se, para o quarto. Entregam-se como se fossem íntimos há anos. Entregam-se como se fosse a primeira e a última transa.

No quarto, após voltar de suas lembranças, ele sussurra em seu ouvido: acordar ao seu lado, é sonho, é poesia. Ela abriu os olhos, lentamente e espreguiçou-se. Fitaram-se, beijaram-se e decidiram que não se deixariam mais. No encontro de solidões prevaleceu a paixão, prevaleceu a vontade de ser um.

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