Conto

O florescer da eternidade

Era mais uma manhã de outono, como tantas outras já há dez anos. Ângelo acordara cedo, lera e assistira os noticiários do dia, escrevera sua crônica do dia enquanto tomava sua caneca de café. Na cozinha, enquanto fritava um pão com manteiga na frigideira e preparava mais uma rodada de café, pensava na sua vida nos últimos anos. Deixou-se levar pelos pensamentos e quase queima o pão.

De volta à sua mesa de trabalho, abre os e-mails, responde o que é preciso responder e volta ao romance que tem que entregar até o fim do mês para avaliação. Seu terceiro em dez anos. Sua vida, desde que optara por viver de escrever, mudou completamente e adequara-se em uma rotina caseira, escapando de casa apenas para eventos literários, visita à livrarias e escassos compromissos com os amigos.

Sobre sua mesa, alem do computador, um bloco de anotações, onde gosta de registrar seus versos à mão livre e também frases e trechos de músicas e filmes. Por um instante, sem que percebesse o quanto, fixou o olho em seu bloco, de capa vermelha, folhas amarelas e gasto pelo tempo. Pegou-o em suas mãos e abriu aleatoriamente, virando cada página como quem visita o passado em um museu de papel com frases e versos escritos em caneta azul. Após revirar algumas páginas, deteve-se em uma anotação, escrita doze anos antes, um trecho de um filme.

Mantenho tudo a distância. E todo mundo. O homem que estava na minha frente e queria casar comigo eu afastei. Fugi dele. Enquanto isso…o único homem com quem nunca vou me encontrar…Para ele, eu entregaria meu coração. (Dra. Kate Forster (Sandra Bullock) em a Casa do lago)

Estranhamente, sentiu-se como a Dra. Kate, uma pessoa só. Sentiu-se, embora cercado do carinho de seus leitores, só e carente. Sabia que a pessoa que amava – e ainda ama – estava, naquele momento, em algum lugar da cidade, cuidando dos filhos, da casa e do marido. Sentiu uma ponta de saudade de quando a conheceu e lembrou-se dos dias que desfrutaram juntos, tudo num passado distante, tudo antes de sua vida revirar e ele passar de um simples escritor que sobrevivia de suas atividades extras para viver de escrever.

Não sabe quanto tempo ficou ali, preso àquele bloco e nem sequer sentiu seus olhos marejarem e uma lagrima correr do olho direito, apenas contemplou aquelas palavras e viajou em seus pensamentos.

Em algum lugar da cidade, uma mulher pega o seu carro na garagem do prédio e sai em direção ao outro lado. No caminho ouve Tunai cantar em seu rádio.

Meu coração pulou
Você chegou, me deixou assim
Com os pés fora do chão
Pensei: que bom…
Parece, enfim acordei
Pra renovar meu ser
Faltava mesmo chegar você
Assim sem me avisar
Pra acelerar…
Um coração que já bate pouco
(Tunai, Frisson)

No caminho para um endereço desconhecido para ela, pensa em como pode esperar tanto tempo para ir até lá. Sozinha há seis meses, julgou-se no tempo certo, embora desejasse fazer esse caminho todo dia, desde que se divorciara do marido. Lembrou-se dos últimos dois livros que lera, de como a sua escrita evoluíra, de como seu estilo se firmara e conquistara o público. Esse meu menino, ainda pensa em mim? Pensou enquanto se lembrava dos romances escrito por Ângelo. Perdida no tempo, chegou à portaria do edifício, tendo em mãos um bloco de papel e sua bolsa.

Ângelo, com o seu bloco de papel aberto, imerso em lembranças e pensamentos, desperta com o interfone tocando. Respira fundo, abre a agenda do computador para conferir se esperava alguém naquela manhã, e atende o interfone.

Seu Ângelo? Tem uma senhora aqui, Jaqueline, querendo subir.

 Ângelo emudeceu por um instante.

Seu Ângelo? Senhor está ai?

Sim, sim, pode subir.

 Abriu a porta de seu apartamento e ficou esperando o elevador chegar. Seis andares nunca lhe parecera tão alto como naquele instante. A luz do hall acendeu-se com o abrir da porta do elevador, viu sair dele uma senhora de cabelos roxos, blusa azul, calça jeans e olhos marejados. Parados de frente um para o outro, fitaram-se, olho no olho, e correram se abraçar. Parecia uma eternidade, parecia que dez anos voltaram e tudo que estivera sufocado por esse tempo florescia. Entraram no apartamento e viveram, o resto de suas vidas, tudo o que dez anos de sonhos e desejos represara, o tempo não pode vencer o que é eterno, e o amor, este pode ser sufocado, mas seus sonhos e esperanças fazem dele eterno. Naquela manhã, o que é eterno floresceu.

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