Conto

Um amor sobre-humano

Estava sentado na sala de espera. Ao ouvir seu nome, levantou-se e levou-a até o consultório. Relatou à doutora os problemas que ela vinha tendo. Fizeram-se alguns exames e após um tempo de espera, ouviu da doutora o diagnóstico. Não poderia mais ficar com ela.

Lembrou-se do dia em que ela chegou em sua casa. De como foi feliz sua chegada e de como, pequena e indefesa, necessitava de cuidados especiais. Logo, com certa independência e já crescida, era companhia certa na frente da TV ou ao lado de sua escrivaninha, enquanto trabalhava no computador. Ele a viu crescer, enfrentou doenças e momentos de silêncio ao seu lado. Caminhou com ela e com ela viveu dias de felicidade e paz, divertiram-se, foram amigos como poucos. Quando chegava em casa, ela o recebia com tanta felicidade que esquecia-se dos problemas e logo se animava. Era mais que uma companheira, era para ele a companhia certa nos momentos mais incertos e nos mais alegres também.

Agora, uma doença a consumia. Já era idosa. O diagnóstico foi fatal e ele, naquele momento, em silêncio, olhava para a veterinária que via em seu semblante o olhar do desespero e da inconformidade.

Não há nada a fazer. Deixá-la viva é vê-la sofrer.

Eu pago doutora, eu pago o que for.

Não há dinheiro que cure, infelizmente.

Em lágrimas, a veterinária se levantou e o abraçou, provocando o ciúmes da adoentada cadelinha no colo do dono.

Se o senhor quiser, não precisa acompanhar.

Ele pensou nas palavras da veterinária. Lembrou-se dos momentos de tristeza por que passou com sua cadelinha ao seu lado. Lembrou-se dos dias difíceis de falta de dinheiro em que, deitado no sofá, chorava e era acompanhado de perto pelos gemidos tristes de sua cachorra.

Não, doutora, ela esteve comigo até aqui, eu vou com ela até o fim.

Entrou na sala, e aplicou ele mesmo a vacina letal. Viu nos olhos dela o olhar de gratidão e ele nunca mais foi o mesmo.

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