Conto

As palavras do silêncio

Deitado em seu quarto, abriu lentamente os olhos, incomodado por um fio de luz que entrava pela janela, teimosamente deixada com uma fresta aberta. Sentiu o frio do outono tomar conta de seu corpo e fitou o teto. Fez seu exercício matinal de pensar nos compromissos do dia e lembrou-se que não havia compromissos. Ele estava de férias.

Após dez anos de total dedicação à sua empresa, decidira tirar vinte dias seguidos de férias. Mantinha uma vida empresarial agitada, mas conseguia manter um ritmo saudável de exercícios físicos, que mantinha seu corpo relativamente saudável. Sabia que precisava se desligar um pouco, passear, viajar, descansar a cabeça. Não planejara as férias, simplesmente, numa manhã de quinta-feira, chamou seu braço direito na empresa e comunicou que pegaria vinte dias de férias à partir de segunda. Sua amiga, e braço direito, comemorou! Sempre o incentivara, em vão, a tirar alguns dias de férias. Enfim ele se convencera.

Agora estava ele ali. Deitado, olhos fitos no teto, sem saber o que faria. Era outono. Decidiu viajar. Levantou-se, tomou um banho e preparou seu desjejum. Ligou o computador e, com a tigela de frutas e um copo de café ao lado, acessou o mapa do estado e passou horas brincando de traçar rotas. Decidiu-se por seguir de São Paulo até Minas e de lá voltar. Faltava decidir como: moto ou carro. Optou pela moto. Se é para se aventurar, que seja total! Vestiu-se, foi até uma loja de esportes no centro da cidade e comprou saco de dormir e botas novas. Voltou para casa e montou seu kit de viagem, mandou e-mails para alguns chegados comunicando da viagem e preparou-se para dormir mais cedo. No dia seguinte queria madrugar e sair.

Acordou no dia seguinte às quatro da manhã. Tomou seu desjejum, desceu até o estacionamento, carregou a moto, voltou para o apartamento, verificou se estava tudo em ordem, respirou fundo e saiu. Em pouco mais de vinte minutos deixava para trás a cidade de São Paulo e subia a serra da Fernão Dias ainda sem o sol. Ao chegar em Minas, passou a seguir a rota de seu GPS, cuidadosamente instalado em sua moto, chegando a uma pequena cidade. Conceição das Pedras. A agitação da cidade era menor que qualquer recreio de qualquer escola paulistana. O pequeno grupo de pessoas nas poucas lojas da cidade correram para a porta de seus estabelecimentos ao ouvir o ronco do motor da moto.

Cuidadosamente estacionou ao lado da matriz. Desceu, olhando a cidade ao seu redor e percebendo que era o centro das atenções esboçou um sorriso tímido. Uma senhora se aproximou e convidou gentilmente

O senhor quer conhecer a matriz? É nosso orgulho, construímos tijolo por tijolo. Ah, sim, muito prazer, Matilde.

A igreja, de traços modernos e aparentemente nova, era um tanto convidativa. Não colocava seus pés em uma igreja há mais de cinco anos. De origem protestante, nem lembrava a última vez que pisara em uma igreja católica.

Prazer, Ângelo. Claro, por que não? É verdade que em Minas toda cidade tem uma matriz e um coreto?

Claro, e aqui temos a mais bela matriz e o mais feio coreto!

Pisou suavemente o solo sagrado do templo. Contemplou as poucas imagens que ali haviam. Respirou fundo, contendo as lágrimas que marejavam seus olhos. Lembrou-se de um passado religioso não tão distante, mas que deixara marcas tão profundas a ponto de mudar sua vida  e distanciá-lo de amigos e família. Lembrou-se de sua mãe e de sua fé e orações. Passou um tempo sentado no primeiro banco pensando e lembrando.

Saiu calmamente da Igreja e deu uma volta, acompanhado de dona Matilde, que contou-lhe brevemente a história da cidade e apresentou o coreto com ar de reprovação.

Não disse que é o mais feio coreto?

Acompanhado de dona Matilde, tomou um suco de maracujá, colhido na hora para o freguês turista no bar do seu Arnaldo. Trocou um dedo de prosa, no bom estilo mineiro, com os presentes no bar. Algum tempo depois, despediu-se de todos e decidiu mudar o rumo de sua viagem. Precisava se reconciliar com o passado, caso contrário, bem sabia que não conseguiria construir seu futuro. Pegou sua moto e voltou para São Paulo.

Impactado pelo silêncio da matriz e pela receptividade de dona Matilde, voltou para São Paulo em busca de sua mãe. Entrou na cidade no amanhecer. Cruzou-a em pouco mais de uma hora. Estacionou sua moto diante de uma pequena chácara no extremo sul da cidade. Desceu dela solenemente e tateou a porteira até achar uma campainha.

De dentro da casa, aquela senhora, cabelos brancos, ainda de camisola, jogou uma jaqueta sobre os ombros e abriu a porta de casa. Mesmo distante, reconheceu aquele rosto. O mais rápido que pôde, seguiu para a porteira. Calados, não precisaram de nenhuma palavra para reconciliar, com um silêncio tão solene como o da matriz da pequena Conceição das Pedras, uma relação que se perdera e que hoje, nas palavras de um silêncio e nos braços de uma mãe, renascia um filho, que há muito, sonha em apenas viver e amar.

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