Conto

O tempo rasgado

Chovia serenamente naquele fim de tarde. A serenidade da chuva contrastava com a agitação da cidade de São Paulo, mas combinava com a calma de seu coração. Tudo estava serena e calmamente colocado em seu devido lugar em sua vida. A empresa seguia bem, havia passado por um período de turbulência e agora se levantara. A vida amorosa, bem, desde que terminara seu ultimo relacionamento, dez anos atrás, nada mais lhe importava. Dedicara-se à sua empresa. Casara-se com ela, diriam os amigos mais chegados.

Naquele fim de tarde, chuva caindo serenamente, ele chegara ao centro de São Paulo para uma reunião. Estacionara o carro e caminhara cerca de duas quadras até o prédio. Sua secretária dera-lhe duas recomendações acerca da reunião

Trata-se de pessoa importante, sofisticada e tremendamente tradicional

Só isto bastou para que ele vestisse seu melhor terno e gravata para o dia. Chegou ao prédio, identificou-se na portaria e subiu os seis andares de escada. Há mais de oito anos não pegava elevadores. Chegou ao conjunto 61 do edifício, impecavelmente vestido, e bateu à porta. Do outro lado uma voz feminina o convidava a entrar. Abriu a porta e deu de cara com uma mulher, cerca de cinquenta anos, sorridente e com um brilho no olhar capaz de dissipar qualquer nuvem. Não reconhecera a voz, mas aquele olhar, aqueles contornos, aquele sorriso era dela, da mulher que revolucionara sua vida há tanto tempo e que se perdera no tempo e na correria da vida, mas que pulsava diariamente dentro dele.

Calmamente ele encostou a porta. Olhou naqueles olhos sorridentes. Em silêncio ficaram se contemplando. O tempo não pôde apagar aquele sentimento, sequer foi capaz de arranhá-lo. Ele a olhava como se ela fosse aquela mulher que conhecera vinte anos antes, como se ela fosse a menina de seus versos, tão perdidos em suas gavetas e tão vivo em seu coração. Ela o olhava como sempre o viu, um menino, eternamente carente, com os olhos verdes como a escarlate e palavras doces de carinho e amor. Calmamente ele foi em sua direção. Ela, elegantemente trajando um tailleur, o fitava devorando seus lábios com o olhar. Fitaram-se. Conforme se aproximava dela, ele balbuciava

Como? Quanto tempo? Quanto…

Sem nenhuma resposta, eles se abraçaram. Em seu ouvido, ela sussurrou

Como? Assim, abraçados. Quanto tempo? Eternamente, pra sempre…

Seus lábios deslizaram dos ouvidos de encontro aos lábios dele e, por um eterno instante, beijaram-se, como se aquele beijo rasgasse quinze anos e o tempo voltasse a uma certa manhã quando se beijaram uma única vez. Nada se ouvia além da chuva que caia serenamente e o respirar dos dois naquele beijo. Um beijo com sorrisos, com lágrimas de alegria, com abraços de puro fogo.

Passado o beijo, passado os olhares, juntaram suas coisas e saíram dali. Foram para o apartamento dela. No caminho, mãos dadas no carro dele, conversavam sobre o passado, falavam do futuro. Ao chegar ao apartamento, ele é surpreendido com uma mesa posta, luz de vela e um bom vinho. Jantaram, conversaram sobre a vida, sobre os sonhos, sobre os caminhos de cada um até aquele dia.

Altas horas da madrugada, a conversa já não mais existia. Ela sem tailleur, ele sem terno e gravata. O que se ouvia no apartamento era apenas o som de duas almas, corpos entrelaçados, que se amavam como dois adolescentes, como dois corações amantes, eternos e vivos. E o tempo, rasgado naquele fim de tarde, fez deles jovens amantes, não só naquela madrugada, mas para toda a vida.

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