Sermões

Melhorando nossos relacionamentos: Menor para ser maior

1Antes da festa da Páscoa, Jesus sabia que havia chegado sua hora de deixar este mundo e voltar para o Pai. Ele tinha amado seus discípulos durante seu ministério na terra, e os amou até o fim. 2Estava na hora do jantar, e o diabo já havia instigado Judas, filho de Simão Iscariotes, a trair Jesus. 3Jesus sabia que o Pai lhe dera autoridade sobre todas as coisas e que viera de Deus e voltaria para Deus. 4Assim, levantou-se da mesa, tirou a capa e enrolou uma toalha na cintura. 5Depois, derramou água numa bacia e começou a lavar os pés de seus discípulos, enxugando-os com a toalha que estava em sua cintura. 6Quando Jesus chegou a Simão Pedro, este lhe disse: “O Senhor vai lavar os meus pés?”. 7Jesus respondeu: “Você não entende agora o que estou fazendo, mas algum dia entenderá”. 8“Lavar os meus pés? De jeito nenhum!”, protestou Pedro. Jesus respondeu: “Se eu não os lavar, você não terá comunhão comigo”. 9Simão Pedro exclamou: “Senhor, então lave também minhas mãos e minha cabeça, e não somente os pés!”. 10Jesus respondeu: “A pessoa que tomou banho completo só precisa lavar os pés para ficar totalmente limpa. E vocês estão limpos, mas nem todos”. 11Pois Jesus sabia quem o trairia. Foi a isso que se referiu quando disse: “Nem todos vocês estão limpos”. (João 13.1-11)

O texto de nossa meditação é um marco de virada no relato de João. Aqui, o evangelista começa uma nova seção textual que vai até o capítulo 17. Aqui, Jesus se volta para o seu círculo de amigos, seus discípulos mais íntimos. O mestre sabia qual seria seu fim, e por isso, aqui ele passa a instruir os doze acerca da formação e da missão da Igreja, que se forma pela atuação dos primeiros mensageiros de Jesus. A preparação destes é essencial e o Mestre sabia disso. Temos como marco inicial da Igreja o envio, já com Jesus ressurreto, e aqui, Jesus está semeando, mais uma vez, a semente do Evangelho que haveria de ser proclamado.

Quero destacar algo que me chama atenção neste texto. A riqueza de detalhes que João usa para registrar, no verso 4 e 5, ainda que de maneira tão sucinta. Há uma razão para isto. Na sentença anterior, Jesus afirma que “o Pai lhe dera autoridade sobre todas as coisas e que viera de Deus e voltaria para Deus”. Agora, Jesus passa a lavar os pés dos discípulos. Ao narrar esta transição, João faz questão de pontuar a indumentária e o procedimento de uma pessoa que lava os pés dos outros. É necessário? Talvez até não fosse, mas faz todo o sentido para a mensagem que Jesus quer passar, que João aqui demonstre como o filho de Deus agora se coloca como servo. Ele é o maior, mas se faz menor diante de todos.

É olhando para o lava-pés que vamos procurar entender como nossos relacionamentos podem ser melhorados, entendendo que é preciso ser menor para ser maior. Para tal, precisamos compreender que não somos o umbigo do mundo, devemos entender que devemos nos vestir de servos e que para tal a humildade é uma escolha diária.

O umbigo do mundo

Temos uma tendência, equivocada, de achar que o mundo gira ao nosso redor. Umbigo do mundo, sabe? Já ouviu essa expressão? Então, além de termos uma tendência natural a achar isto, ainda temos os comerciais e a mídia a nos dizer que nós podemos fazer o que bem entendermos e que ninguém pode dizer nada a respeito do que você faz ou decide. Essa egolatria é incentivada desde a mais tenra idade e, acredite-me, ela não tem nada com o Evangelho de Jesus. O evangelho é deixar de olhar para o próprio umbigo, pois Deus deixou toda sua glória e se fez homem como nós.

Uma das transformações constante, ao longo de nossa jornada cristã, é a de vencer nosso ser “umbigo do mundo” e passar a ser servo de Deus. Eu quero te dizer que não tem como, sozinho, vencermos. Somente pelo poder do Espírito Santo é que podemos passar a pensar com a mente de servos. Daí retomo a narrativa de João e seu detalhamento da forma como um servo se porta ao lavar os pés. É preciso ter esta consciência de que não temos prioridade, que ser filho de Deus é servir uns aos outros, é servir independentemente de quem é a pessoa e qual a circunstância.

Quando pensamos na maneira como nos relacionamos, será que temos pensado primeiramente em nós e não em como servir ao próximo? Será que temos nos vestidos como senhores da razão e não como servos de Deus? A nossa tendência é a de nos colocarmos em primeiro lugar. Precisamos aprender com Jesus a servir aqueles com quem convivemos. Deixar de olhar primeiro para nós, e passar a olhar com os olhos de Jesus, que buscava o perdido, enfrentava as injustiças e trazia todos ao caminho do Pai. Por isso é preciso vestir-se de servo.

Vestir-se de servo

João narra, com riqueza de detalhes, a forma como Jesus lavou os pés dos discípulos: “Assim, levantou-se da mesa, tirou a capa e enrolou uma toalha na cintura. Depois, derramou água numa bacia e começou a lavar os pés de seus discípulos, enxugando-os com a toalha que estava em sua cintura”. Todas os detalhes aqui apresentados são itens de serviço. Toalha e bacia não são decorativos, nem usados em ocasiões solenes, mas sim para o serviço, até mesmo em nossos dias. Enxugamos as mãos, o restante do corpo e objetos com a toalha. A bacia tem diversas utilidades. Assim, te desafio a se vestir de servo.

A vestimenta do servo hoje é a mesma de Jesus? Não é para você sair lavando pés dos outros, mas sim, se colocar a servir e ajudar os outros. Como podemos fazer isto? Agindo como Jesus agiu. Olhar para os que estão conosco e ver que há uma necessidade urgente de sermos sal da terra e luz do mundo onde vivemos. Ser cristão é mais que vir à igreja e atuar nela em alguma atividade. É viver para servir. Os primeiros cristãos compreenderam isto forma, para nós, radical, mas para eles, real e intensa, a ponto de venderem os bens e repartirem entre todos.

Quando você pensa em servir, o que você pensa? Servir é mais que fazer caridade, é atuar de maneira eficaz a proclamar o evangelho em palavras e atitudes. A boca deve refletir o que vai no coração. Boas obras não salvam, mas via de regra, quem as faz, quer ver seu nome em destaque, faz questão de mostrar. Está servindo ao seu umbigo, não a Cristo. Servir a Cristo é deixar a glória para agir como menor entre todos. No nosso caso, deixamos as glórias do mundo para assumirmos a glória de Deus em nós, e tal glória nos convida a viver servindo, e servir é atributo dos que são humildes.

Humildade: uma escolha diária

Ser humilde. Vamos entender a humildade à luz da nossa passagem: “Jesus sabia que o Pai lhe dera autoridade sobre todas as coisas e que viera de Deus e voltaria para Deus”. Os evangelistas são categóricos em afirmar que Jesus tinha total consciência de quem ele era e qual a sua missão entre os homens, no tempo em que ele aqui esteve. Ele tinha a autoridade que o Pai lhe dera. Ele sabia para onde voltaria, após a ressurreição. Portanto, ao tomar a bacia e a toalha, retirou sua capa, e passou a lavar os pés dos discípulos, Jesus tinha total consciência de quem ele era e por isso ensinou o que é ser filho de Deus: servir.

A humildade é uma escolha diária. Quando lemos nos evangelhos que Jesus foi tentado, e uma das tentações foi ter a autoridade sobre os reinos do mundo, ou seja, ser senhor sobre todo o poder que poder pode ter. Ele negou, pois sabe que todo o poder deste mundo nada é diante da glória do Pai. Durante toda sua jornada, Jesus foi questionado sobre sua autoridade, sua procedência e seu poder. A todo questionamento, a resposta era a humildade do servo de Deus, ou seja, ele poderia ter feito o que quisesse, mas optou por ser um servo, trazendo consigo a marca de quem sabe como viver de verdade.

O que devemos fazer em nossos relacionamentos? Escolher a humildade. Como eu posso, humildemente, agir com meu próximo? Olhando com os olhos de Jesus. Ele não deixa de ser filho de Deus ao lavar os pés dos discípulos. Ele continua sendo quem ele é. Não nos anulamos ao servir o próximo, pelo contrário, revelamos nosso caráter transformado pelo Espírito Santo. Ser humilde é uma necessidade para que nossos relacionamentos sejam transformados. Seja um servo humilde, aprenda com Jesus a ser verdadeiramente um filho e uma filha de Deus.

Conclusão

Concluindo. Jesus, o filho de Deus, a quem o Pai deu autoridade sobre todas as coisas, se fez servo para mostrar como é ser filho de Deus. É preciso ser o menor, para ser o maior. A lógica do Reino de Deus inverte e subverte a lógica do nosso mundo, não é de hoje. Enquanto nos pedem que busquemos glórias e vitórias, conquistas e benefícios financeiros, Jesus nos mostra que o maior de todos é aquele que serve. Jesus, na sequência, explica o que ele fez: “Eu lhes dei um exemplo a ser seguido. Façam como eu fiz a vocês” (João 13.15) e conclui dizendo: “Agora que vocês sabem estas coisas, serão felizes se as praticarem.” (João 13.17).

Ser menor para ser maior não é uma máxima a ser repetida, mas uma verdade a ser vivida. Ao olhar para nossos relacionamentos, precisamos identificar onde estamos nos impondo como donos da verdade ao invés de servir ao nosso semelhante. Há tanto a quebrar e reconstruir em nós, há tanto a ser transformado e moldado à luz da vontade de Deus que não podemos nos dar ao luxo de não nos avaliarmos com Deus. Para isso, faça a oração do salmista: “Examina-me, ó Deus, e conhece meu coração; prova-me e vê meus pensamentos. Mostra-me se há em mim algo que te ofende e conduze-me pelo caminho eterno” (Salmo 139.23-24).

Ao concluir esta série, o desejo do meu coração é que você compreenda que para melhorar seus relacionamentos depende da sua disposição em mudar seu jeito de ser, não para um jeito qualquer, mas para ser cada dia mais parecido com Jesus, que não fez de sua condição de Filho de Deus o pretexto para ser arrogante, mas agiu como servo. A base de tudo, é o amor, foi por amor que Deus enviou seu filho, para nos mostrar que só se pode viver pelo amor, como amor e amando. Melhorar os nossos relacionamentos é possível somente pelo amor de Deus.

Reverendo Giovanni Alecrim
Pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil

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