Sermões

Melhorando nossos relacionamentos: Apontando o dedo para mim

9Em seguida, Jesus contou a seguinte parábola àqueles que confiavam em sua própria justiça e desprezavam os demais: 10“ Dois homens foram ao templo orar. Um deles era fariseu, e o outro, cobrador de impostos. 11O fariseu, em pé, fazia esta oração: ‘Eu te agradeço, Deus, porque não sou como as demais pessoas: desonestas, pecadoras, adúlteras. E, com certeza, não sou como aquele cobrador de impostos. 12Jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo que ganho’. 13“Mas o cobrador de impostos ficou a distância e não tinha coragem nem de levantar os olhos para o céu enquanto orava. Em vez disso, batia no peito e dizia: ‘Deus, tem misericórdia de mim, pois sou pecador’. 14Eu lhes digo que foi o cobrador de impostos, e não o fariseu, quem voltou para casa justificado diante de Deus. Pois aqueles que se exaltam serão humilhados, e aqueles que se humilham serão exaltados”. (Lucas 18.9-14)

O texto de nossa mensagem é um bloco exclusivo de Lucas que, provavelmente, o autor inseriu como uma passagem da sequência anterior, de 17.20—18.8, com a sequência seguinte, que retoma a ligação com os evangelhos sinóticos. Segundo Rienecker, em seu Comentário Esperança, “não há correlação cronológica com o ensinamento escatológico anterior, embora haja uma ligação no conteúdo”. Em outras palavras, Lucas ouviu sobre este ensino, encontrou relatos dele, e pela temática próxima, o inseriu aqui, como um dos relatos da viagem para Jerusalém, onde ele de fato ocorre. É possível que Lucas a tenha inserido aqui por conta da sua fácil ligação com a temática seguinte, principalmente o verso final desta parábola.

Uma prática do fariseu me chama atenção neste texto. Em sua oração ele faz referência ao jejum. Moisés havia prescrito um único jejum, praticado para o Dia da Expiação. Havia, no entanto, a prática do jejum para acompanhar as orações, penitências e lamentos. No período intertestamentário, a tradição oral judaica acrescentou uma série de situações onde o jejum deveria ser praticado. O jejum é útil na vida do cristão? Sim. Jesus, porém, o condenou como forma de obter favores de Deus ou ostentar piedade. E era exatamente isto que o fariseu fazia ali, naquele momento, apresentava o jejum como mais um feito seu para mostrar para Deus como ele era bom.

Apontando o dedo para mim. Ao invés de olhar primeiro como o outro vive, os erros do outro, as palavras dos outros. Olhe para você mesmo. Olhe como você vive. Apontando o dedo para mim. É o que me vem à mente quando leio a parábola do fariseu e publicano, e é olhando para ela que quero chamar sua atenção para duas práticas que devemos ter em nossas vidas e uma verdade que devemos assumir sempre: não seja hipócrita, seja íntegro e saiba que Deus é misericordioso.

Hipocrisia

O fariseu da parábola é a expressão da hipocrisia em pessoa. Conhece as leis, as observa, mas não é capaz de refletir a justiça e misericórdia da lei na sua vida. Nas palavras de William Hendriksen em seu comentário a este texto do Evangelho de Lucas: “O fariseu também volta para casa, porém… sem nada! Bem que poderia ter ficado em casa nesse dia, e nunca ter ido ao templo. Na verdade, isso teria sido melhor para ele” Na expressão de Hendriksen está a constatação real de que se o fariseu não subisse ao templo com o coração voltado para Deus e não para si, de nada adiantaria ele ir ao templo. Não venha com o coração hipócrita, a Deus não se engana.

Não pense que você é muito diferente do fariseu. Não é. Nem você, nem eu somos. A hipocrisia é uma característica do ser humano. Poderia arriscar que é inerente ao ser humano ser hipócrita. Nossa régua de medida de justiça é rígida demais para os outros e flexível demais para nós. Temos sempre uma justificativa para nossas incoerências e hipocrisias. Via de regra, são bem parecidas com as do fariseu da parábola: desmerecemos o outro, apontamos seus erros e exaltamos nossas características que são publicamente reconhecidas como boas. Um cristão precisa aprender a reconhecer que é um pecador. Só se vence a hipocrisia pelo poder da cruz, e é reconhecendo nosso pecado que enfrentamos a nossa hipocrisia com a certeza da vitória pelo poder de Cristo.

O fariseu se coloca em lugar de destaque em relação aos demais. Ele fica de pé, olhando para o alto, falando abertamente com Deus, demonstrando seu conhecimento e suas qualidades. No entanto, o fariseu sai do templo da maneira que entrou. Quantas vezes, no silencio do quarto em oração, na leitura da Bíblia em sua devocional, no discipulado, na Escola Dominical ou no culto você saiu da maneira que entrou? Quantas vezes tudo não passou de um teatro bem encenado aos olhos dos homens? A Palavra de Deus não é para mexer com nossas emoções. É para mudar nossa natureza hipócrita e nos fazer entender que só há um caminho para sermos íntegros.

Integridade

O publicano não era bem quisto. Ninguém gosta de um cobrador de impostos de uma nação que invade a sua. Ainda mais quando o cobrador de impostos é da mesma nação que a sua. Ele não possuía o respeito da sociedade em que nascera e vivera. As pessoas de bem não andavam com ele. Evitavam sua companhia. Para os fariseus, ele era uma escória: “E, com certeza, não sou como aquele cobrador de impostos”. O publicano não ignorava sua condição. Tanto é verdade que ele fica à distância, também de pé, mas ao invés de olhar para o alto, para Deus, olhava para baixo e, como que orando de si para si, repetia incessantemente, batendo no peito, ‘Deus, tem misericórdia de mim, pois sou pecador’.

Integridade. Palavra tão difícil em nossos dias. Nosso país clama por integridade. Quantas denúncias, escândalos e mal feitos ainda vamos assistir como se fosse uma notícia corriqueira? Só quem vive buscando a integridade de caráter que Deus, por sua justiça, nos dá, é capaz de se incomodar com a injustiça diária estampada em nossos noticiários e a nos cercar em nosso cotidiano. Buscar a integridade não é um caminho fácil, persistir com mente coração focados na graça de Deus para que ele nos transforme diariamente, constantemente.

Algo acontece com o publicano, que não acontece com o fariseu. Algo que não está no controle do fariseu determinar, nem do publicano. Algo que só Deus pode fazer. O publicano volta para casa justificado diante de Deus, o fariseu não. O fariseu confiou em seus próprios méritos, achando que sua perfeição pessoal seria suficiente para agradar a Deus. Ninguém é perfeito diante de Deus. O fariseu se esquecera, ou ignorara, tal verdade. O publicano não. Ele vai diante de Deus confiando única e exclusivamente na misericórdia de Deus. Acontece que a misericórdia se derramou sobre o publicano, não sobre o fariseu.

Misericórdia

‘Deus, tem misericórdia de mim, pois sou pecador’. A oração do publicano nos coloca diante de uma verdade que devemos viver: Deus é misericordioso. O Reino de Deus é um reino de um Rei misericordioso. Ele está diante de nós para exercer sua misericórdia para todo aquele que, sinceramente, se arrepende e confessa seus pecados, reconhecendo que ele é o único capaz de nos dar a justificação, o perdão, nos tornar justos. O publicano se coloca diante de Deus humildemente. Sua fé é genuína. Sabemos disso por sua postura humilde e sua perseverança em sua oração. A justificação se derrama sobre ele, não por mérito pessoal, mas pela misericórdia de Deus, que ele tanto clamou em sua oração.

Fé e oração andam juntas. Pela fé, o publicano sobe ao templo. Pela fé, ele pede por misericórdia. Pela fé, ele se reconhece pecador. Pela fé, ele sai justificado. Não se pode ser alguém de fé sem oração. A prática religiosa nos coloca diante da tentação do ritualismo, da automatização da vida de fé. Oramos do mesmo jeito, com as mesmas palavras e no mesmo tom de voz. O que Deus quer não são vãs repetições, mas uma fé genuína, manifesta em uma oração honesta, fruto de um coração arrependido.

Jesus encerra esta parábola com uma sentença que Lucas já registrara em 14.11, quando tratara dos primeiros lugares num casamento. A Bíblia registra tal princípio em Mateus23.12, Jó 2.29, Provérbios 29.23, Tiago .6 e 1 Pedro 5.5. O ensino de Cristo sobre a humildade é um dos mais importantes e repetidos no Novo Testamento. A humildade é necessária para que clamemos por misericórdia. Só se clama por misericórdia quem tem ciência de seu pecado. O publicano tinha tanta ciência, que repete incessante: ‘Deus, tem misericórdia de mim, pois sou pecador’. Percebem? Misericórdia e pecador juntos. Pecador vive debaixo da misericórdia e sabe que só por ela é possível alcançar justificação diante de Deus.

Conclusão

Concluindo. A parábola do fariseu e publicano é rica em verdades acerca da doutrina da justificação. Ela retrata como um pecador arrependido de seus pecados é tornado justo diante de Deus, ao confessar seu pecado e clamar por misericórdia. A Bíblia nos ensina que pecadores são justificados quando Deus imputa sua perfeita justiça neles. Os fariseus confiavam em sua própria retidão. Padrão de retidão colocado por eles mesmos para que eles mesmos cumprissem. A Bíblia Pastoral, ao comentar este texto nos lembra que “Não são posturas aparentes e repetidas de piedade que tornam o ser humano digno de estar diante de Deus”. Você pode criar o ritual que for, o que Deus quer de nós é coração arrependido.

O fariseu não foi ao templo em busca do perdão de Deus, nem em busca de sua misericórdia, ele foi em busca de sua autopromoção. Ele apontou o dedo para si, não para ver seus erros, mas para se promover. E para tal, ele aponta o dedo para o publicano. Ao contrário do fariseu, o publicano foi ao templo para pedir misericórdia a Deus pelos seus pecados. Um foi humilde, outro, hipócrita. A hipocrisia é um perigo, conduz ao menosprezo e autossuficiência. Não permita que seus sucessos subam ao seu coração e tomem conta dele. Lembre-se quem é o seu Deus e o senhor de tudo o que há.

Aponte o dedo em primeiro lugar para você mesmo. Saiba e reconheça seus erros. Reconheça sua condição de pecador e que sem a misericórdia de Deus não tem como sermos justos. Entenda que devemos viver arrependidos. Arrependimento é a marca do cristão. Pecadores remidos, salvos por Jesus. Não podemos, nem devemos, nos colocar como baluartes da moral e dos bons costumes, mas como exemplos de pecadores que oram, a todo momento, a oração do publicano: ‘Deus, tem misericórdia de mim, pois sou pecador’.

Reverendo Giovanni Alecrim
Pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil

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