Conto

Alvorada do silêncio

Duas horas da manhã. Lá fora a chuva caía ritmada, constante. Em seu quarto, deitado sob as cobertas, ele sente na pele o frio da madrugada do outono. Seu nariz está gelado. Seus pés também. Mas não é o frio do outono que lhe dói, mas sim a frieza do silêncio dela. Queria que ela reconhecesse o quanto magoou, e ainda magoa, seu coração. O quanto que lhe dói pensar nela todo dia, sem vê-la, sem saber dela. Mas ela permanece inerte, sem sequer pedir desculpas, sem querer qualquer contato. Ele sente sua ausência. Uma ausência que lhe machuca a alma. Quanto de esperança é preciso para que a ausência não doa tanto?

Três horas da manhã. A pergunta lhe martelava a cabeça. Seus pensamentos não desligavam. Seus dias passavam imersos na rotina. Visita a clientes, compras no mercado, passeios no parque com seu cocker spaniel. Chegava em casa e seguia a mesma liturgia: banho, janta, internet e televisão. Dormia, invariavelmente, no sofá, acordava por volta da meia noite, com seu cocker a ajeitar-se em suas costas. Levantava-se, ia para cama, e deitava. Era quando ela aparecia e o despertava. Saía de um canto de suas lembranças e dominava seus pensamentos. Por que? Como esquecer?

A pergunta lhe martelava a cabeça. Mas sabia bem a resposta. Não tinha como esquecer. Não tem como apagar marcas na alma e no coração. Ela o marcou definitivamente, tomou seus sonhos e seus desejos e o dominou. Sem perceber, ele foi tomado por ela. Quando viu, estava submerso em seus olhares, perfume e palavras. Ela o tomou, suave como brisa da primavera, intensa como chuva de verão. Ela o tem, mesmo não estando mais com ele. Onde ela está? O que fará agora? Não quer pensar, mas pensa. Não quer sentir, mas sente. Não quer lembrar, mas lembra.

Cinco horas da manhã. Convive com a dor da saudade, convive com o sentimento parado, represado em seu coração e que vaza-lhe pelos olhos.  O choro é sempre um romper de uma represa. Resolve levantar e passar um café. Coloca a água para ferver e separa o pó do café. Seu cocker, deitado no sofá, apenas o observa e suspira. Lá fora, a chuva continua ritmada. É outono, faz frio. Coloca a mão por sobre o fogão para esquentar-se. A água ferve. Começa a passar o café. Lentamente. Observa a água tocar o pó e virar café. Não tem pressa. Respira fundo. Sente a alma lhe apertar o coração. Revive, em segundos, os momentos que com ela esteve. Silêncio.

Nove horas da manhã. O telefone de sua casa toca. Em seguida, o celular toca. Ele não atende. O silêncio toma conta da casa. Ouve-se apenas o cocker spaniel gemer, baixinho, deitado ao lado de seu dono. O café esfria sobre a pia. O sol toca-lhe a pele do rosto, entrando pela janela da cozinha. Apesar do sol, tudo é frio.

Dez horas da manhã. Tocam a campainha. O cocker late. A campainha insiste. Ouve-se gritos. O cocker late mais alto, batendo as patas na porta da sala. Ouve-se o som dos carros de polícia. Mais gritos. Vozes do lado de fora da casa se confundem com o latido do cocker. Pulam o muro. Estouram a porta da sala. O cocker corre em direção ao dono. Sobre a pia uma caneca de café, em frente a ela, no chão, um corpo caído, morto. Os policiais reviram a casa, não encontram nada nem ninguém. Reviram a agenda, nenhum contato de algum familiar. Foi o gerente da empresa, que tinha uma reunião com ele na primeira hora do expediente, que tocara a campainha e chamara a polícia.

Onze horas da manhã. Entra a equipe do IML. Colocam seu corpo num saco. Levam-no para o rabecão. O legista analisa e examina todo seu corpo. Causa morte: aneurisma. Mentira. O que o matou, nenhum legista conseguiria saber. A ausência dela o matou. Morreu esperando. Morreu amando. Silêncio.

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