Conto

Perdas

Eram duas horas da manhã, chovia copiosamente, quando Pedro fora acordado pelo toque da campainha de sua casa. Quem seria uma hora dessas? Pensou enquanto tateava o escuro, para não acender a luz do quarto e acordar Joana, a esposa, o que foi inevitável, já que ela se levantara logo depois dele. Buscou a chave de casa no chaveiro e a abriu. Chovia tão forte que a cortina de água não lhe permitiu ver quem era. Do outro lado do portão apenas identificou o vulto de um adulto e uma criança, sem guarda-chuva. Correu até lá para abrir, foi quando, atônito, reconheceu  Luciano, seu irmão mais novo, com Joaquim, o filho de três anos, ao lado. Colocou-os para dentro. Joana levou o menino para um banho, a fim de aquecê-lo. Pedro ofereceu o outro banheiro e uma roupa para o irmão, que prontamente aceitou. Estranhamente, o Luciano demorou mais no chuveiro que Joaquim. Após o banho, a esposa ofereceu um chocolate quente ao sobrinho e, o levou para o quarto do primo Carlos, para dormir. Carinhosamente, esperou até o sobrinho cair no sono.

Luciano abriu lentamente a porta do banheiro. Pedro o aguardava com uma caneca de café amargo, sabia bem dos gostos do irmão.

O que está acontecendo, Luc?

Eu não posso, Pedro…

O quê?

Eu não posso com o Joaquim…

Por que? Ele é seu filho!

Eu sei! Mas eu não posso ficar com ele?

Qual o problema? Dinheiro? Saúde?

Não, nada disso…

O que é então?

Fêz-se silêncio. Joana voltava do quarto do filho e chegou bem na hora em que Luciano começou a chorar.

Nós vamos cuidar dele Luc

Disse Joana, colocando uma das mãos sobre os ombros do marido, e com a outra colocando o indicador em riste defronte  a boca dele.

Luciano se levantou. Abraçou a cunhada e o irmão. Beijou-os. Retirou da jaqueta molhada um envelope e deixou nas mãos de Joana e saiu, em direção à rua, pulou o portão e sumiu na chuva. Dentro do envelope, uma carta endereçada ao filho, para ser entregue quando ele completasse dezoito anos. Junto, uma foto dos três juntos e um recorte de jornal, datado um ano antes da carta ser escrita, onde se lia o relato de um acidente, causado por um motorista bêbado, que ceifara a vida de uma jovem mãe, mas deixara o pai e o filho ileso.

Pedro olhava atônito para o conteúdo do envelope. Joana também.

Ele não soube lidar com a perda da esposa.

Ele nunca soube lidar com a esposa, nem com o filho… e nem com ele mesmo.

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