Conto

Mãe

Sentou-se na penteadeira e olhou-se no espelho detidamente. Prestou atenção nos cabelos, retocou a maquiagem. Suave, ele sempre preferiu suave. Conteve as lágrimas. Suspirou. Levantou-se e foi para a sala. Deteve-se em pé, ante a janela, olhando. Táxi demorado. Pensou. Daqui até o centro é rápido. Espero que ele seja pontual.

Do outro lado da cidade, o avião pousava no aeroporto. Voo direto da Europa. Saíra de Zurique, escala em Paris, Amsterdã e Rio de Janeiro. Agora, em São Paulo, ele descia do avião e retirava suas bagagens na esteira. Olhou no relógio. Dez anos, muito tempo sem voltar aqui… pensou enquanto caminhava em direção ao táxi.

Centro de São Paulo.

Disse ao motorista enquanto colocava sua única mala  no porta-malas.

Ela, impaciente, olhava para o relógio. De repente o táxi aparece. Ela corre, pega a bolsa, confere as chaves de casa. Sai, tranca tudo e entra no táxi. No caminho para a Avenida Ipiranga troca uma ou duas palavras com o motorista. É domingo, a cidade está vazia. Chega ao edifício marcado. Paga o táxi, toma o elevador e sobe para a cobertura. Na porta do restaurante dá seu nome. A atendente confere na lista e a encaminha em direção à mesa reservada para dois.

No mesmo instante um táxi estaciona na entrada do mesmo edifício. Ele paga o táxi, pega sua única mala e caminha até a esquina. Compra um arranjo de tulipas, volta até o edifício e sobe até a cobertura. Chega à porta do restaurante e dá seu nome. A atendente o encaminha até à mesa reservada.

No caminho da mesa ele vê aquela senhora, cabelos brancos, maquiagem suave no rosto, elegantemente vestida, com um sorriso encantador nos lábios.

Sentada, ela observa aquele menino elegante, terno e gravata, alinhado, equilibrando um arranjo de tulipas nas mãos e olhando sorridente para ela.

Filho! Que saudades!

Conteve as lágrimas enquanto abraçava o filho em meio a mesas e clientes do restaurante.

Mãe! Feliz dia das mães!

Sentaram-se e jantaram. Conversaram sobre sua infância. Lembraram-se dos momentos felizes e das dificuldades. Sorriram. Discordaram. Choraram ao se lembrar dos momentos emocionantes.

Filho, desde que você foi para a Suíça, cada vez que te vejo, é como se nascesse de novo de mim!

Entre lágrimas, ele sorriu, puxou da carteira um bilhete e entregou-lhe:

então não tem mais separação. Vamos comigo!

Ela tomou o bilhete e ao abrir, além da passagem de ida, uma foto de uma moça, que ela já vira antes e que agora, estava grávida.

Mãe, eu vou ser pai!

Na reconstrução da vida, redescobriu o valor de sua mãe. Na reconstrução da vida, redescobriu que é criança, que é menino a pular nos braços desta senhora e a reencontrar o valor da vida em seus braços. Mãe, mesmo distante, o aconchego e a certeza do calor do amor. Mãe, mesmo ausente, presente nele, em mim e em cada um de nós.

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