Conto

Muro

Fim de tarde. Outono. São Paulo é sempre linda no outono. Pensou enquanto dava os últimos passos até o portão do prédio que morava. Passou pela portaria, comentou o resultado do jogo do dia anterior com o porteiro, e seguiu para o elevador. Doze andares depois, abria a porta do apartamento, já ouvindo o interfone tocar.

Seu Ângelo, visita pro senhor.

Hum, quem é?

Dona Roberta.

O som daquele nome caiu como uma bomba em seus ouvidos. Permaneceu em silêncio por alguns segundos, até autorizar sua subida. O que ela queria com ele? De repente, todas as mensagens, telefonemas e encontros dos últimos anos vieram à sua mente. Todos por ela ignorados. Agora, ela o procurava. Para quê?

Enquanto divagava, parado diante do interfone, a campainha tocou. Voltando a si, foi até a porta e olhou pelo olho mágico. Era ela mesmo. Abriu a porta. Olharam-se e ele a convidou para entrar. Sentaram-se e passaram a conversar trivialidades. Família, empregos, filmes e livros foram pretexto para início de conversa. Depois de alguns minutos, ele foi até a cozinha e preparou dois cafés, voltou para a sala, serviu-a, e, de forma seca e direta, perguntou

Roberta, o que você veio fazer aqui?

Vim dizer que te amo, que quero viver ao seu lado.

O silêncio instalou-se solenemente. Fitou-a por alguns instantes. Suas palavras despertaram nele sentimentos há muito adormecidos. Calado, levantou-se, foi até o escritório e voltou para a sala com uma caixa de madeira. Era uma caixa de brinquedo. De dentro da caixa, foi retirando pequenos tijolos de madeira. Começou a empilhar os tijolos sobre a mesa de centro. Enquanto empilhava, olhando para cada tijolo antes de empilhá-lo com os demais, começou a falar-lhe

Você sabe como os antigos construíam muros?

Não…

Eles iam empilhando, calmamente, pedra sobre pedra. Não o construíam da noite para o dia, levavam dias, meses, até mesmo anos.

Vê?

Cada mensagem não respondida

Cada telefonema não atendido

Cada encontro ignorado ao longo desses anos

Cada um foi um tijolo que você colocou no muro que nos separa.

Esse muro foi construído ao longo de muitos anos, com suas negativas, com suas fugas, com seus “nãos”, com suas “não respostas”, sumariamente e unilateralmente me ignorando. Daí, um dia, você chega e me diz que está só, que quer viver comigo. Mas há um muro entre nós.

Em lagrimas, ela o interrompe:

Então vamos derrubá-lo!

Não!

Não?!?

Não! Se você simplesmente derrubar este muro, você poderá esmagar quem está do outro lado! É preciso remover os tijolos, um por um, calma e serenamente, para que não reste nenhum tijolo de mágoa, de desentendimento, para que o terreno seja limpo de maneira eficaz. Você não pode simplesmente derrubar, pois alguém vai se ferir se assim o fizer.

Enquanto falava, foi desmontando o muro e guardando cada tijolo na caixa. Ao terminar, ergueu os olhos e, mais uma vez, fitou-a. Em silêncio, ficaram por alguns instantes. Ela chorava, ele se segurava.

Cabe a você decidir. Você quer derrubar esse muro? Você quer desconstruí-lo? Meu amor por você não mudou. Mas eu não sei mais quem é você, Roberta, passaram-se anos, muitos, você mudou, eu mudei. Eu não sei mais quem é você, você não me respondeu meus contatos, eu não sei mais o que vai no seu coração e, mais a mais, eu sempre tive que aceitar, unilateralmente, suas decisões, você nunca me deu oportunidade de falar, de me manifestar. Você tem meu endereço, meu telefone. Eu não sei onde você mora. Daí, vinte anos depois, você me aparece querendo arrebentar o muro que há entre nós? Não. Eu não quero me machucar assim, eu me amo, eu te amo, mas eu não te amo mais que amo a mim mesmo. Você me quer? Reconquiste aquilo que você jogou na fundação desse muro, reconquiste a minha confiança!

Calada, ela se levantou, caminhou até a janela. A noite já havia tomado conta da cidade e uma brisa fria, típica do outono paulista, entrava pela janela. Virou-se para ele e disse, pegando sua bolsa e saindo

Um dia eu te respondo, um dia…

Saiu sem olhar para trás. Veio pensando que recomeçaria sua vida, como num romance, saiu com a realidade sobre os ombros, sabendo que a vida não é um filme, nem um romance de cabeceira, a vida é sentida e não se colhe aquilo que não se planta.

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