Conto

De repente angústia

De repente angústia. Parou entre a boca e o estômago, no esôfago da alma. Ficou ali, travando-me a respiração. As palavras, de dentro para fora, paravam nela. As de fora para dentro, por ela não passavam. Levantei-me. Boca da madrugada, insone em meus desvarios. Abri a garrafa e bebi um gole de vinho, seco, na esperança da alma engolir ou vomitar a angústia. Mas ela não saiu dali. Fui até à janela da sala e contemplei a noite. As luzes da cidade não me iluminavam. A árvore, defronte à janela da sala, não me floria. E aquela merda de sensação, de que nada arrancaria aquele caroço no meio do caminho de minha alma, não passava. Fechei a janela. Traguei o último gole do vinho no bico da garrafa, fechei o apartamento e saí. Desci pelas escadas, saí pela garagem, a pé — rebelando-me contra a babaca da síndica que insiste em nos proibir em sair a pé por ali — e segui, sem rumo, pela rua. Eram duas da manhã. Já? Sim, já, e a merda da vontade de gritar não passava. Eu gritava. Juro que gritava. Mas a voz não saía. Era a vontade de morrer que, insistentemente, me impedia de gritar. Que merda! Esse desassossego que me consome! Que horas são? Duas, três, que importa? O bar do Paulo já baixou as portas. Sento-me na sarjeta. Eu, a lua e essa merda desse caroço. Nem mesmo o bar do Paulo pode me consolar. Que merda de vida, hein? Que merda de noite. Que horas são? Quatro? Três? Merda! Levanto-me e volto pra casa. A noite é quente. Odeio noites quentes. Entro no prédio pela garagem — já falei que a síndica é uma babaca? — subo pelas escadas. Entro no apartamento, vou até o sofá e sou nocauteado. Vinho, desvario, angústia. Não sei quem me acertou. Fico ali, grogue. Quanto tempo? Não sei. Sei que levanto. Que horas são? Sete? Oito? Que importa? Segue a vida. Escolho um belo terno, dentre os muitos ternos pretos que tenho, e coloco um sorriso no rosto. Foda-se o caroço, tenho que viver.

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2 comentários em “De repente angústia”

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