Sermões

Conectados com o misterioso Jesus de Nazaré

Então ele lhes perguntou: “Onde está a sua fé?”. Admirados e temerosos, os discípulos diziam entre si: “Quem é este homem? Quando ele ordena, até os ventos e o mar lhe obedecem!”.

Lucas 8.25, Nova Versão Transformadora

Mistério. Aquilo que nos é oculto, aquilo que não compreendemos. Claudionor Corrêa de Andrade, em seu Dicionário Teológico, define mistério como Verdades divinas que só podem ser conhecidas através do auxílio do Espírito Santo. Às vezes, nem mesmo os profetas eram capazes de desvendar os mistérios que registravam. Todavia, o Espírito que em nós habita leva-nos a compreender as riquezas divinas. (Claudionor Corrêa de Andrade, Dicionário Teológico, CPAD). Ainda olhando para os acadêmicos, o Vocabulário Teológico Bíblico, da Editora Vozes, nos mostra Jesus emprega o termo grego μυστήριον em Marcos 4.11 para designar o Reino de Deus. Paulo desenvolve nesta linha sua “teologia do mistério”, apontando para o Evangelho como o mistério de Deus revelado em Jesus e mostrando como Deus cumpre na Igreja o mistério, trazendo salvação. Em Apocalipse, João usa o termo tanto na perspectiva paulina, quanto para designar algo não compreendido da revelação.

Mistério. Caminhar com Jesus é caminhar em mistério. O Evangelho de Lucas, à partir do capítulo oitavo, mais especificamente do nosso texto, passa a relatar eventos onde o mistério se faz presente de maneira grandiosa. A sequência é eletrizante: Jesus acalma a tempestade, liberta um endemoninhado, cura uma mulher enferma e ressuscita uma criança. Fritz Rienecker, ao comentar o Evangelho de Lucas diz: “Esses informes acerca de fatos atestam o auge do poder milagroso de Jesus. O Senhor demonstrou sua autoridade sobre as forças da natureza, sobre o mundo dos demônios, sobre as enfermidades e a morte”.

Forças da natureza, mundo espiritual, curas, milagre da ressurreição. Quanto há de mistério em cada uma destas passagens de Lucas 8? A mensagem de hoje quer apresentar o mistério como uma das características de Jesus que nós devemos aprender a conviver. Num mundo cheio de certezas, conviver com o mistério é um desafio para poucos. Ainda assim, é o desafio que apenas aqueles que são chamados e resgatados pela graça de Deus podem encarar, pois não encaram por mérito próprio, mas pela força do Espírito Santo. Vamos hoje mostrar como confiar e agir, mesmo convivendo com o mistério.

Confiando, mesmo convivendo com o mistério

“Onde está a sua fé?” é assim que Jesus se dirige aos discípulos que estão com ele no barco, após acalmar a tempestade. A pergunta não configura necessariamente uma reclamação, mas sim uma provocação: “eu estou no barco, por que vocês temeram? Eu estou aqui, cadê a fé de vocês?” Os discípulos temeram por suas vidas e recorreram ao único capaz de solucionar. Nada de errado nisso, certo? Jesus chama os discípulos para o barco, navegam, e o Mestre vai dormir, descansar. A tempestade vem e os discípulos se desesperam. Natural, você e eu faríamos o mesmo. Jesus é acordado e acalma a tempestade. A pergunta de Jesus vem, então, como uma provocação: “eu coloquei vocês aqui, confiem em mim”.

Confiança vem do convívio. Em todo relacionamento é assim e Jesus estava mostrando isso a seus discípulos. De igual modo, só confiaremos uns nos outros com a convivência. Só confiaremos em Jesus, durante as tempestades de nossas vidas, se convivermos com ele. Ele nos ensinará a viver com o mistério de uma paz que não é possível em determinados momentos, mas que é possível em Cristo. Paz que nos mantem firmes nas tempestades e nos fazem contemplar a perfeita vontade de Deus para nossas vidas, em toda e qualquer situação. Jesus não quer ser apenas uma presença constante em nossas vidas, ele quer ser parte prioritária dele e é para isso que ele nos mostra que é melhor confiar nele do que viver preso às certezas de nossos dias.

Confiar não é fácil. Exige entrega. Exige dedicação. Exige baixar as guardas e abrir o coração. Exige assumir diante de Cristo aspectos de nossas vidas que nem nossos familiares ou amigos mais íntimos conhecem, para que ele, com sua graça e amor, nos mostre como sermos transformados. Confiar exige de nós crer que Deus não perdeu o controle de nossas vidas quando passamos por tempestades, mas sim, em reafirmar que ele é soberano, ele controla tudo e também nossas vidas. Ele tem o poder para acalmar as tempestades, ele tem o poder para nos dar paz diante das ondas que nos assolam.

Confiança, portanto, não é apenas uma postura passiva, onde apenas esperamos que os outros confiem em nós, mas é também uma atitude ativa, onde buscamos confiar no outro. Nós ouvimos mensagens sobre Jesus, cantamos em louvor a ele, estamos na igreja para cultuá-lo, mas você confia em Jesus? Confiar em Jesus o levará a não ficar inerte diante das tempestades da vida, o levara a agir, mesmo convivendo com o mistério.

Agindo, mesmo convivendo com o mistério

O nosso texto não revela uma ação dos discípulos. Mas o bloco onde ele está inserido possuí o relato de uma mulher que convivia há doze anos com uma hemorragia e que foi curada ao tocar o manto de Jesus. O relato de Mateus 9.19-22 deste episódio nos acrescenta um fato que não está em Lucas 8.43-48: “se eu apenas tocar em seu manto, serei curada”. A iniciativa é de uma mulher que, à beira da morte, interrompe a caminhada de Jesus e é curada. Jesus caminhava para trazer de volta à vida uma menina de 12 anos, o mesmo tempo do sofrimento da enferma.

Aquela mulher viu em Jesus a solução para seu sofrimento. Mas ela não agiu egoisticamente. Tanto no relato de Mateus, quanto no de Lucas e no de Marcos, portanto, nos Evangelhos Sinóticos, a resposta de Jesus à atitude da mulher de tocar a veste e de se revelar como sendo curada é a mesma: “Filha, anime-se! Sua fé a curou”. “Sua fé a curou” a mesma fé que Jesus questionou dos discípulos: “Onde está a sua fé?”. O que os discípulos não foram capazes de exercer, aquela mulher, em igual situação de risco de perder a vida, exerceu.

O que estes dois episódios nos mostram? Que a fé não é uma prática meramente contemplativa e estática, reservada aos que estão na igreja. Também não é aquela “força” que você tem de encarar a sua vida. Muito menos a esperança de dias melhores. “Tenho fé que tudo vai melhorar”, não é assim que as pessoas falam? A fé é ação. A fé genuína pressupõe agir pelo Espírito Santo. Fé é agir. Não é ativismo, mas é agir diante das tempestades, das enfermidades, das dificuldades da nossa vida. Não é ativismo, pois não agimos por nossas vontades, por nossos princípios, mas sim movidos pelo Espírito Santo.

Agir diante das dificuldades é próprio de quem foi resgatado por Jesus. Não se entregar aos problemas da vida, mas saber que Deus está no controle, apesar do tempo que dure tal problema, é a prova de que confiamos que Jesus está no barco conosco e que continuaremos a navegar, pois não sou eu quem está no controle, mas sim meu Senhor e mestre. Não deixamos de agir para que Deus aja, Deus age por meio de nossas vidas e nos move, pelo Espírito Santo. Para tal, é preciso a fé e a coragem que a mulher com hemorragia teve, e que os discípulos, naquela ocasião, não tiveram.

Conclusão

Conectados com o misterioso Jesus de Nazaré. Não por ser alguém que não se revela, mas por ser Filho de Deus, incompreensível à razão humana, mas que se faz gente como a gente, para caminhar conosco. Ele não quer apenas estar ao nosso lado. Quer se relacionar comigo e com você, nos ensinando a confiar nele e a agir como ele agiu, no poder do Espírito Santo. Assim ele caminhou aqui, entre nós, com os discípulos, ensinando-os a confiar e agir pela fé. Assim, hoje ele está do nosso lado, nos ensinando como ensinou aos discípulos no passado.

Na Série de mensagens Jornada da Fé nós falamos sobre mistério na perspectiva paulina. Naquela ocasião, com base no texto de Filipenses 4.10-14, afirmamos que “Na maior parte do tempo não temos ideia do que Deus está fazendo, mas ele está fazendo, e isto é conviver com o mistério”. Haverá momentos em nossa vida que pensaremos que Deus virou as costas para nós. Não teremos perspectiva de solução ou saída para a tempestade que enfrentamos. As gigantes ondas nos aterrorizarão e paralisarão. Saiba que Deus está no controle. Ele controla tudo, em todas as esferas da vida.

Quero desafiar você a se conectar com Jesus. Relacionar-se com ele e aprender como viver a vida que ele nos oferece. Não se trata apenas de uma vida melhor que a nossa vida pecadora, se trata de vida verdadeira. Ele nos resgatou das trevas da morte para uma vida de paz e eterna. Temos muito o que aprender com ele. O mistério de Deus se revelou em Jesus. Ele é o salvador. Ele quer te ajudar, te salvar. Aproxime-se de Jesus. Como? Pelos meios de graça: oração, leitura da Palavra, Ceia do Senhor, Batismo. Achegue-se a Jesus e aprenda. Ele sabe o que é o melhor para nossas vidas. Conecte-se com o misterioso Jesus de Nazaré.

Reverendo Giovanni Alecrim
Pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil

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