Conto

Sem saber

 

O expediente se encerrava mais cedo para ele naquela quarta-feira. Havia concluído mais um projeto de divulgação da empresa e agora preparava-se para sair. Desligou o computador, despediu-se dos companheiros de empresa e desceu os dois lances de escada até a rua. Passou pelo café da esquina e pegou um capuccino para viagem. O inverno paulistano o deixava mais confortável para beber enquanto caminha e admirava a maneira como Marina, a atendente do café, preparava seu capuccino, sempre com uma dose extra de cobertura de canela e um sorriso caloroso.

Dirigiu-se para a avenida, passou pela banca, na porta da estação, e trocou dois dedos de prosa com o Seu Julio. Seguiu para a estação, passou a catraca, desceu as escadas, caminhou até o meio da plataforma. Olhou a estação lotada já naquele horário e concluiu: São Paulo um dia trava. Ouve o som das rodas nos trilhos e perfila-se para embarcar. Abre-se a porta, todos se empurram para dentro. Recosta-se contra a parede do vagão e passa a conferir os seus e-mails no celular. Uma, duas, três estações depois, guarda o celular e passa a observar as pessoas ao seu redor. Observa o vagão de um lado a outro. Seu olhar para. Cabelos ruivos, pele branca, levemente coberta de sardas, pouco mais baixa que ele. Seu olhar fixa-se, por alguns segundos, naquele rosto, mais especificamente naquele olhos, verdes, luminosos. Sente no olhar dela uma melancolia que lhe dá uma estranha paz, uma certeza de que se o mundo acabasse agora, a vida teria lhe valido a pena. Como se o trabalho e a correria para concluir o projeto naquele dia não tivesse existido e agora só lhe restava o silêncio daquele olhar, o vagão cheio e ao mesmo tempo vazio do metrô, a paz que lhe inundava sem entender.

O metrô para na estação, percebe que é ali que tem que descer. Desembarca e permanece parado na plataforma, vendo o trem se distanciar. Por alguns instantes ficou ali, vendo o trem do metrô desaparecer no túnel. Pareceu-lhe que a melancolia da moça impregnara nele. Teve a impressão de ter deixado algo lá, no vagão. Mexeu e remexeu os bolsos, não conseguiu saber o que lhe faltava. Sua carteira estava ali, seu celular também, as chaves de casa e o crachá idem. Foi então que percebeu, num momento de lucidez e voltando a si, que nos olhos verdes daquela linda ruiva ele esquecera seu coração. Apaixonara-se sem saber!

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