Sermões

Conectados com o perigoso Jesus de Nazaré

Constatamos que este homem é um perturbador, que vive causando tumultos entre os judeus de todo o mundo. É o principal líder da seita conhecida como os Nazarenos.

Atos 24.5, Nova Versão Transformadora

Jesus. Cantamos, lemos e falamos de Jesus. A imagem que Jesus traz é de paz, amor, benevolência. Se você perguntar a um não cristão o que ele tem a dizer de Jesus, possivelmente serão estas as palavras que você ouvirá. No entanto, esta imagem pública e comum de Jesus difere um pouco do Jesus do Evangelho. Ele é sim nossa paz em meio a perseguições e dificuldades. Ele é sim a garantia de amor constante em meio a medos e inseguranças. Ele é sim benevolente conosco em meio às aflições e temores de nossas vidas. No entanto, passamos por perseguições e dificuldades, medos e inseguranças, aflições e temores porque fomos alcançados pela graça e chamados a viver os valores de Cristo. Sim, os valores de Cristo nos farão enfrentar tudo que dissemos até aqui.

O texto de nossa meditação fala sobre um episódio na vida de Paulo onde seguir a Cristo o fez se tornar um perigo para a sociedade vigente. Quero começar esta mensagem falando um pouco deste contexto e mostrando o perigo que representava Paulo e, depois, mostrar o perigo que nós devemos representar.

O perigo que representava Paulo

Para entendermos o contexto das palavras de Atos 24.5, precisamos compreender a história que a cerca. Paulo havia voltado para Jerusalém contado as bênçãos da viagem aos demais apóstolos. Instruídos pelos cristãos de Jerusalém, a fim de não causar problemas com os judeus, Paulo vai ao templo se purificar. Quando faltavam sete dias para o fim da purificação, Paulo é reconhecido por judeus vindos da Ásia como sendo um pregador que distorcia o judaísmo. Paulo então é preso, mas tem a oportunidade de discursar e fazer sua defesa. Quando os guardas estavam para açoitá-lo, ele então revela sua cidadania romana e é levado diante do conselho de líderes judeus. Neste interim, os judeus armam um plano para matar Paulo, que é advertido por seu sobrinho e este revela tudo à guarda romana. Paulo então é escoltado até Cesareia e lá, depois de cinco dias preso, é levado diante do Governador Félix. O julgamento é instalado, tendo como acusadores o Sumo Sacerdote Ananias e alguns líderes judeus, que tinham como advogado Tértulo, que foi quem proferiu as palavras do verso 5 de Atos 24. Os detalhes desta história você pode ler à partir do capítulo 21 de Atos dos Apóstolos. Quero me ater à sentença de Tértulo.

A acusação de Tértulo no verso quinto é feita em duas partes, há ainda uma terceira acusação, no início do verso sexto que contemplaremos nesta análise preliminar. Primeiro, Paulo é acusado de ser um agitador. Uma das traduções possíveis para o termo grego λοιμὸν é “peste”, o que nos leva a crer que Tértulo, ao chama-lo de agitador, quisesse dizer que Paulo era um homem que espalhava a peste de sua seita. E tal interpretação é fundamentada, pois em seguida, Tértulo afirma que Paulo é um agitador que causa “tumultos entre os judeus de todo o mundo”, ou seja, para Tértulo, Paulo era um espalhador de peste. Tal afirmação pode nos parecer exagerado, no entanto, consideremos que Tértulo se dirigia a Félix, Governador, de quem é o dever de manter a PAX ROMANA, ou seja, a ordem dentro de sua jurisdição. Não se tratou, portanto, de um exagero de Tértulo, mas de um recurso discursivo para sinalizar o perigo que Paulo representava não só para os judeus, mas para todo o império. A segunda acusação contra Paulo é o de ser “o principal líder da seita conhecida como os Nazarenos”. Aqui, mais uma vez, Tértulo faz uso de um recurso discursivo. Ele procura associar os cristãos à um grupo de judeus que tinham um rígido comportamento ético e moral com a finalidade de se purificarem constantemente. A justificativa para tal associação vem do fato de Jesus ser de Nazaré. O que ele tentou fazer foi colar a imagem de um no outro, o que não convenceu Félix, pois, no relato de Atos 24.22, temos a informação de que o Governador “tinha bastante conhecimento sobre o Caminho”, o que deve o ter levado a desconsiderar tal discurso. Na terceira e última acusação, Tértulo volta sua atenção para o povo judeu, dizendo que Paulo “estava tentando profanar o templo” (v.6a). O que não é fato, visto que nos versos 27 e 30 do capítulo 21, temos o relato de que Paulo fora reconhecido por judeus da Ásia, que levaram a multidão a se rebelar contra o apóstolo.

Paulo representava um perigo para o Império? Em certa medida sim, mas era mais uma ameaça aos judeus, dado o número de adesão crescente na igreja em seu início, já era notável a presença de cristãos na sociedade judaica. Isto incomodava os judeus. Paulo representava um perigo por ser um cristão que carregava e honrava o nome de Cristo. Ele não apenas era identificado como do Caminho, mas trilhava este caminho. Sua área de influência era grande e ele era conhecido por toda a Ásia e, em breve, também na Europa. Olhamos para o contexto e percebemos o quanto Paulo representava, em seu tempo, um perigo: ele era servo de Cristo, servo daquele que venceu a morte, daquele que ousou afrontar o ensino hipócrita e aprisionador dos fariseus (grupo do qual Paulo fez parte). E nós? O que fazemos para confrontar a sociedade?

O perigo que devemos representar

Quando olhamos nossa sociedade, nossa família, por conta de nossa educação e do contexto que fomos formados, tendemos a achar normal determinadas situações e práticas. No entanto, quando confrontamos nossa criação familiar e a sociedade em que fomos formados com o Evangelho, encontramos diversos pontos onde questionamos e somos desafiados a mudar. E isso independe se você nasceu em lar cristão ou não. Lares cristãos tendem a ser ótimos ambientes para a formação de caráter e para a vida como um todo, mas muitos cristãos têm baixado a guarda na educação de seus filhos, e isto não é de hoje. Ensinar nossos filhos a conviver com Cristo é uma missão difícil e requer dedicação e submissão constante. Falo estas palavras com muito temor e tremor, pois meus filhos ainda são pequenos e estamos justamente na fase de semear os valores do Reino e seus corações. Por que é tão difícil? Por que os valores do Reino representam uma afronta à sociedade. O cristão é um perigo para a sociedade nos alicerces sobre os quais ela está firmada. Por que? É o que veremos a seguir.

O primeiro perigo que o cristão representa diz respeito a valores. Os valores de nossa sociedade divergem dos valores do Reino de Deus. E, por favor, não me leve a mal, mas até os valores de nossas famílias divergem dos valores do Reino. E esta transformação que exige de nós coragem para enfrentar. Um cristianismo plástico, feito para atender demanda de mercado, não é cristianismo, é uma religiosidade amorfa, sem fundamentação bíblica e firmada em valores positivistas. Os valores de Deus vão nos confrontar, inclusive em relação à educação que recebemos de nossos pais. Eu sempre agradeço a Deus pela minha família, pelo legado que recebi de meus avós e pais, o legado do Evangelho. No entanto, tem o lado da história que a gente não costuma contar no púlpito, mas que precisa ser pontuado, que são as práticas familiares, as condutas que temos e reproduzimos, como sendo natural, pois nossos pais agiam assim, e nossos avós também, mas o Espírito Santo nos mostra que aquela atitude não condiz com o Reino de Deus. Você já fez esta autoanálise? Você já questionou se determinados valores familiares são condizentes com o Reino de Deus? Ouse, pelo poder do Espírito vencer valores familiares que estão dissonantes com o Evangelho. Não estou dizendo para você afrontar sua família, mas sim para avaliar o que em sua vida é influência de atitudes negativas de sua família e o que é valor do Reino que sua família te legou.

Se o primeiro perigo que devemos representar para a sociedade está nos valores, o segundo está na visão. A maneira como cristãos veem a sociedade não pode ser da mesma maneira que a sociedade em geral vê. Vou dar alguns exemplos. Diante da corrupção que é diariamente noticiada, não cabe ao cristão tomar medidas extremadas, mas sim apontar a direção para a solução da corrupção. Qual a solução para a corrupção? Cristo. Diante da lei da vantagem, Cristo nos oferece o caminho da justiça e da generosidade. Diante de injustiças que vemos noticiadas, não devemos, de igual modo, tomar medidas extremadas, mas sim apontar para a solução da injustiça. Até mesmo da injustiça causada pela Justiça. A solução é Cristo. Ele é o justo. Agora, você pode me perguntar: como fazer isso? Que trabalho gigantesco! Como sermos ouvidos diante de tão gigantes problemas? Seja ouvido pela sua família. Seja ouvido pelo seu amigo. Seja ouvido pelo seu vizinho. Seja ouvido pelas pessoas com quem você convive. Mostre para as pessoas que existe uma maneira de se viver com justiça e equidade. Policie e vigie sua vida para que não caia nestes erros. Dê o exemplo. Aponte mudanças, aponte Cristo. Mas não espere receptividade. Não espere que, ao apontar soluções cristãs para dilemas e problemas do dia a dia, você encontrará acolhimento para suas palavras. O evangelho traz confrontação, traz mudanças profundas. E mudanças profundas requerem de nós submissão à vontade de Deus. Ninguém gosta de se submeter. Nossa natureza humana pecadora quer sempre prevalecer.

 

Conclusão

Conectados com Jesus de Nazaré, o perigoso Jesus de Nazaré. Não gostamos muito desta imagem de Jesus, como aquele que veio trazer divisão, provocar transformações profundas. Não gostamos de ter nossas bases mexidas. Ninguém gosta de ser questionado em seus valores íntimos. Jesus nos chama para remexer com estruturas que nos aprisionam e nos conduzem para a morte. Jesus nos garante vida e a vida que ele nos oferece milita com a nossa morte, que achamos que é vida.

Quero desafiar você, diante de tanta coisa que foi dita aqui, a olhar para sua vida e encontrar onde há valores que precisam ser transformados. É perigoso seguir a Jesus? Sim, é, basta nos lembrarmos do sermão do monte, o final das Bem-aventuranças, Mateus 5.11-12: “Felizes são vocês quando, por minha causa, sofrerem zombaria e perseguição, e quando outros, mentindo, disserem todo tipo de maldade a seu respeito. Alegrem-se e exultem, porque uma grande recompensa os espera no céu. E lembrem-se de que os antigos profetas foram perseguidos da mesma forma”.

Ouse conectar-se a Jesus. Ouse aprender dele os valores de vida. Haverá grandes e profundas transformações, também haverá confrontações, zombarias, perseguições e maldades. Mas saiba que Cristo tudo isso venceu e, nele, podemos superar tais dificuldades, não por méritos nossos, mas pelo poder do Espírito Santo de Deus.

Reverendo Giovanni Alecrim
Pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil

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