Sermões

Jornada da fé: do interior à transformação

10Como eu me alegro no Senhor por vocês terem voltado a se preocupar comigo! Sei que sempre se preocuparam comigo, mas não tinham oportunidade de me ajudar. 11Não digo isso por estar necessitado, pois aprendi a ficar satisfeito com o que tenho. 12Sei viver na necessidade e também na fartura. Aprendi o segredo de viver em qualquer situação, de estômago cheio ou vazio, com pouco ou muito. 13Posso todas as coisas por meio de Cristo, que me dá forças. 14Mesmo assim, vocês fizeram bem em me ajudar na dificuldade pela qual estou passando.

Filipenses 4.10-14, Nova Versão Transformadora

Você com certeza já ouviu uma mensagem sobre esse texto. “Tudo posso naquele que me fortalece” é um desses versículos que são repetidos com amuleto por muitos cristãos. Está passando por uma crise de saúde? Tudo posso naquele que me fortalece. O relacionamento com o marido ou a esposa está mal? Tudo posso naquele que me fortalece. Falta dinheiro na conta? Tudo posso naquele que me fortalece. Talvez seja este um dos versículos mais mal interpretados da Bíblia. Paulo, em seu relato, expressa sua gratidão aos filipenses pelas ofertas recebidas e conclui que ele aprendeu o segredo de viver contente em qualquer situação. Como ele aprendeu? Passando por uma das muitas muralhas que ele passou em sua vida. O apóstolo que, ao que tudo indica, era de família com posses (o fato de ter recebido educação formal e ter cidadania romana contribui para tal conclusão) agora vive por conta do seu ofício de fazer tendas e viaja, império a fora, para semear o evangelho. Imagine a jornada muralha à dentro que Paulo teve que percorrer para se dar conta de que viver o evangelho não é viver o conforto que o status social pode dar.

Em seu livro Espiritualidade emocionalmente saudável (Ed. United Press), o pastor da Igreja New Life Fellowship, Peter Scazzero, nos apresenta um capítulo inteiro dedicado a passar pela muralha que se interpõe em toda caminhada cristã. Ele nos mostra seis estágios pelos quais o cristão passa em sua relação com a fé em Deus e precisam ser compreendidas para que possamos ser achados fieis diante do Pai. É pensando nestes estágios que passamos a falar da Jornada da fé em duas mensagens. A muralha que se apresenta nos faz compreender que a vida com Cristo é apenas o que vimos na mensagem de domingo passado, o que nos prende a uma visão limitada do que é o Evangelho em sua plenitude.

Na primeira mensagem abordamos os três primeiros estágios desta jornada: conhecimento a respeito de Deus, discipulado e a vida ativa no serviço. Agora chegamos face a face com a muralha e vamos compreender que muitos de nós está com sua fé em um desses primeiros estágios e que devemos enfrentar e passar pela muralha para desenvolvermos nossa fé, assim, vamos compreender os estágios seguintes: a jornada para dentro, a jornada para fora e transformados em amor.

A jornada para dentro

O quarto estágio da nossa fé, proposto por Scazzero, é a jornada para dentro da muralha. Tal jornada inclui uma série de situações pelas quais passamos e que não temos como evitar. Quando estamos diante da muralha estamos diante de um sofrimento, uma situação que nos faz mal e que buscamos evitar ou não confrontar, até que chega o momento em que não se terá outra alternativa, o sofrimento será tão insuportável que permanecer onde está não será uma alternativa considerável, então, somos conduzidos através da muralha. Nesta jornada temos os conflitos internos e as passagens que trilharemos.

Os conflitos internos. Não chegamos diante da muralha por nós mesmos, Deus nos conduz até ela e ele tem uma razão para isso. Ele quer que cresçamos, que o conheçamos melhor. Diante da muralha, tendemos a nos retrair, ou a bater de frente com ela, o que nos leva muitas vezes a ricochetear e voltar a bater novamente. Acontece que tais atitudes semeiam em nosso coração a amargura, a desesperança, a incredulidade. Nunca passamos por uma muralha só em nossa vida. Pense, por exemplo, em Abraão. Durante cerca de 30 anos ele passou pela muralha da espera pelo filho prometido com Sara. Dez a treze anos depois de ter Isaque em seus braços, ele enfrenta outra muralha, a de levar seu esperado filho para o sacrifício. Agora pense nos conflitos internos que Abraão teve ao passar por tais experiências. Elias, Moisés, Neemias, Jeremias, Paulo, muitos são os exemplos na Bíblia de pessoas que passaram pelas muralhas de suas vidas e cresceram na fé em Deus.

Passagens. Perceba que em nenhum momento falo de derrubar a muralha, mas sim de passar por ela. Muitos ficam presos a ela. É o que São João da Cruz, frade carmelita do século XVI, chama de a noite escura da alma. Nela nos confrontamos com nosso orgulho, cobiça, ira, inveja, ou seja, com aquilo que nos dá um certo conforto e que não gostamos de mexer. No entanto, é preciso passar pelo confronto, encontrar um caminho através da muralha e isto não quer dizer que vai se resolver rapidamente. Por isso não podemos confundir as provações do dia a dia com a muralha. Mais uma vez, pense no exemplo de Abraão e a longa espera pelo filho. O quanto isso deve ter consumido o orgulho de um homem inserido numa sociedade patriarcal e que tinha na quantidade de filhos um dos seus manifestos de poder. Pense em Sara, que numa sociedade onde a mulher deve ser mãe de muitos filhos, passar por tantos anos de ausência e cobranças, quer dos outros, quer dela mesma.

Fixando na mente. Uma muralha não é uma provação, mas sim uma jornada pela qual Deus nos leva. Alguns a chamam de deserto, e talvez essa imagem seja a mais conhecida. A grande questão para nós é decidirmos entrar e passar por esse momento, tendo certeza que em todo o trajeto não estaremos sós. Se alimentarmos nossa fé de maneira saudável e firmarmos nossa fé em Jesus, algumas reações como “eu estou perplexo”, “não sei o que Deus está fazendo no momento”, “Ó Deus, por que me abandonaste” ocorrerão durante a caminhada, no entanto, devemos ter a certeza que ele nos faz enxergar a perplexidade e nos conduz em caminhos que não entendemos, mas ele não nos abandona. Ele deseja que passemos por este caminho e ele tem um propósito para isto. Não fique preso na muralha, confie em Deus e caminhe confiando em Deus. Se aproxime dele e ele te conduzirá para o quinto estágio: a jornada para fora.

A jornada para fora

Tendo passado pelas crises de fé, enfrentado as dificuldades de uma jornada interior, nos movemos em direção ao fazer, à uma vida ativa novamente. Podemos nos voltar para nossas atividades e ações agora com mais vigor, com um novo centro de tudo: não mais faço pelo despertar da minha fé, mas porque de fato Deus é o centro de minha vida. Assim, não há mais como nos deixarmos levar por tempos ruins. Descobrimos o amor profundo, intenso e tolerante de Deus por nós. Não vivemos mais agitados, de um lado para o outro, mas somos inundados pela paz de Deus que chega até nós pelo quebrantamento e pela maneira como vivemos diante do mistério de Deus.

Quebrantamento. “A raiz e a origem do pecado é a arrogância na qual o homem quer ser juiz de si mesmo e do seu próximo” Karl Barth define bem a origem do pecado e sua afirmação nos coloca diante da necessidade que temos, diante das muralhas de nossas vidas, de determinar o bem e o mal em vez de deixar que Deus nos guie. Quebrantamento não é um estado emocional, mas antes, uma atitude. Ser quebrantado é reconhecer que somos dependentes de Deus em toda e qualquer situação, inclusive diante do mistério. Uma forma de medir o nível de quebrantamento, proposta por Scazzero, é considerar quanto somos “ofensáveis”. Se for uma pessoa quebrantada, diante das ofensas sua reação não será reagir ou recuar, mas sim pensar “É bem pior do que você pensa!”. Uma pessoa quebrantada reconhece seu estado de pecador e é capaz de confiar e conviver com o mistério com mais naturalidade.

Mistério. Quando Paulo afirma “Aprendi o segredo de viver em qualquer situação, de estômago cheio ou vazio, com pouco ou com muito” ele nos revela uma postura de profunda dependência de Deus e depender de Deus é, em última análise, conviver com o mistério. Eu gosto de estar no controle. Quem não gosta? Quando vou viajar, consulto o mapa, planejo, vejo onde tem paradas, onde é possível economizar no trajeto, onde ganhar tempo. O problema é quando eu e você pensamos que a nossa caminhada com Deus é como a viagem que planejamos. Não estamos no controle, ele está. E ele é diferente de nós. Agostinho afirma que “Se você compreende, não é Deus que você compreende”. Na maior parte do tempo não temos ideia do que Deus está fazendo, mas ele está fazendo, e isto é conviver com o mistério. Scazzero afirma, acertadamente, que “um dos excelentes resultados da muralha é a ingenuidade pueril, o profundo amor pelo mistério”. Há um conforto quando saímos da muralha, que não havia do outro lado e nem dentro dela, o conforto de saber que Deus está no controle de tudo.

Fixando na mente. Quando saímos da muralha estamos menos no controle de nossa vida. Esta verdade precisamos compreender. Passar pela muralha nos quebranta e nos jogas nos braços do Pai, confiando e convivendo com o mistério. Eu não sei o que Deus vai fazer, mas eu sei que será grande, pois ele é grande. Quando saímos da muralha, não somos mais os mesmos, fomos transformados. Aprendemos a esperar em Deus e nos desapegamos daquilo que consideramos ser nosso porto seguro. “Posso todas as coisas por meio de Cristo, que me dá forças”, ou se preferirem, “Tudo posso naquele que me fortalece”. Quebrantado e entregue a Deus, tudo posso enfrentar e vencer, não por mérito meu, mas pelo mérito de Cristo. Tal compreensão nos leva ao sexto estágio da jornada da fé, quando saímos da muralha, não somos mais os mesmos, somos transformados pelo amor.

Transformado em amor

Uma vez trilhado os caminhos para dentro e para fora da muralha, já não somos mais os mesmos. Voltemos ao exemplo de Abraão. Somente quem passou por cerca de trinta anos na muralha da espera do primogênito poderia confiar que Deus proveria a resposta para o que era o desejo do seu coração, enquanto caminhava para o monte do sacrifício com o jovem Isaque. Abraão confiou e ele aprendeu a confiar em Deus caminhando com ele. Mas houve um senão nesse caminho. O filho com Agar. Quando erramos, precisamos reconhecer nosso erro, corrigir. Assumir que não somos donos de nós mesmos. Deus prometeu cuidar do filho rejeitado por Abraão, e tal qual ele o lançou fora, Deus agora pedia que Abraão sacrificasse Isaque. Imagine a cabeça de Abraão, subindo o monte, lembrando que mandou Agar e Ismael para o deserto, e vendo que Deus pediu o seu filho. Que muralha! E como Abraão saiu transformado dela.

Face a face com o erro. Como você reage quando seu erro é exposto. Eu tenho visto, nos últimos dias, pessoas que não admitem que erraram, que não reconhecem seus erros e fazem de tudo para prejudicar o próximo e o Reino de Deus. Uma pessoa que não consegue admitir os próprios erros não pode ser chamada de cristã. Encarar o erro e reconhecê-lo é nossa resposta diante do amor de Deus. Não devemos temer o erro, pois o perdão de Deus é sobre nós e seu imenso amor nos acolhe e nos mostra como corrigir nossos erros e não errar novamente. Ser transformado em amor é enfrentar a realidade de nossos erros e buscar a reparação. Mas poucos estão dispostos a trilhar o caminho da reconciliação. Preferem se ausentar, se omitir, se recolher a ter que se desculpar e reconstruir o que foi destruído. No entanto, Deus nos assegura que não precisamos temer, se formos firmados e transformados em amor.

Lançando fora o medo. “Esse amor não tem medo, pois o perfeito amor afasta todo medo. Se temos medo, é porque tememos o castigo, e isso mostra que ainda não experimentamos plenamente o amor” 1 João 4.18 pode ser lido à luz do que Paulo escreveu em Filipenses 4.13: se vivo firmado no amor de Deus, não sei o que é descontentamento, mesmo passando fome ou com pouco recursos para viver. Aqueles que passam pela muralha são capazes de amar incondicionalmente pois experimentaram o amor incondicional de Deus em meio às trevas e sofrimentos de suas vidas. O próprio Paulo é exemplo disto para nós. O antes furioso perseguidor de cristãos, quando passa pela muralha de cerca de 10 a 15 anos de discipulado e conversão, transforma-se num homem que vive na total dependência de Deus. Não há o que temer, pois o temor provoca em nós reações como retração ou perseguição ao que nos causa medo. Há o que se viver debaixo da graça de Deus.

Fixando na mente. Vimos que devemos nos colocar diante do erro e da falha de nossas vidas e reconhecer que precisamos mudar e buscar a reconciliação. Se estamos firmados no amor de Deus, não devemos temer trilhar tal caminho. A vida é difícil e você precisa ter consciência disto. Mas saiba de uma verdade: você não é tão importante quanto você pensa e a sua vida não consiste única e exclusivamente em você, pelo simples fato de você não estar no controle dela. Nós caminhamos para a morte. Um dia iremos morrer. Mas lembre-se que o propósito de Deus é que, ao final da jornada, nós tenhamos trilhado o caminho da vida em união amorosa com ele, que se consumará na eternidade. Lance fora o medo, experimente o amor de Deus.

Conclusão

Jornada para dentro, a jornada para fora e transformados em amor. Você já trilhou estes caminhos em algum momento de sua vida com Cristo? Peter Scazzero diz “A jornada com Jesus nos chama a uma vida de devoção inseparável dele. Isso requer que simplifiquemos nossa vida, removendo distrações. Parte disso significará aprender a sofrer nossas perdas e aceitar o dom de nossos limites”. Diante de nossos limites, somos convidados a afirmar, com fé, que “Posso todas as coisas por meio de Cristo, que me dá forças”. Não significa você sair fazendo a sua vontade e seus desejos de qualquer jeito, mas sim descobrir o segredo de estar contente em toda e qualquer situação, sabendo que nosso sustento, tudo o que precisamos, vem de Deus e em Cristo temos acesso.

Ao terminar esta série de duas mensagens, eu espero que você seja incomodado pelo Espírito Santo a conhecer mais de Deus e resolva trilhar o caminho do discipulado e passar pelas muralhas de sua vida, acompanhado de Deus, que está contigo sempre. O desejo do meu coração, como pastor, é que você se dê conta que a jornada da fé não é um mero cumprir de etapas num conteúdo programático, mas sim uma caminhada em direção à sermos feitos perfeitos em amor e que o amor de Cristo se torne no nosso amor, tanto para com Deus, quanto para com os outros.

Sempre fazemos uso da expressão “vida com Cristo” e nos esquecemos que vida é um constante movimento e crescimento. Se buscamos o crescimento do Corpo de Cristo, devemos buscar o desenvolvimento da nossa fé e da nossa relação pessoal e comunitária com ele. Vivemos um novo tempo, tempo de erguer a cabeça e ver que, do alto de nossos 57 anos de Igreja Presbiteriana Independente de Araraquara, somos chamados a levar adiante a chama do evangelho, que é vida a todo momento e para todo aquele que o busca. A jornada da fé é, em última análise, o único caminho que temos para trilhar, pois não servimos aos interesses deste mundo, desta sociedade, nem aos nossos próprios interesses, somos servos do Reino de Deus e, diferentemente dos outros reis e governantes dos nossos dias, o nosso Rei caminha conosco a nossa jornada da fé

Reverendo Giovanni Alecrim
Pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil

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