Conto

Quando sonhos despertam

Levantou-se de sua cadeira, guardou o laptop na pasta e fechou a gaveta de sua mesa, passando as chaves nela. Abriu a pasta novamente, certificando-se que pegara o carregador do laptop, sua carteira e alguns papeis amarelados. Olhou ao redor, respirou fundo e saiu da sala. Passou pela secretária despedindo-se.

Roberta, volto só segunda-feira. Pelo que vi na agenda, nada de urgente nem amanhã, nem quinta, nem sexta.

Foi até a sala de seu braço direito na empresa. Mariana foi a primeira funcionária que Ângelo contratou para sua editora. Depois de três anos batalhando muito sozinho, promoveu um processo seletivo e contratou Mariana por dois motivos: a vontade de aprender e o brilho nos olhos quando falava de sua relação com os livros. Foi com essa paixão pelos livros que Mariana conquistou a confiança de Ângelo. Treze anos se passaram desde a abertura da empresa, dez desde a contratação de Mariana.

Ângelo bate na porta da sala de sua Gerente Editorial.

– Com licença Mariana.

– Oi Ângelo, pode entrar. Está de saída?

Perguntou ela reparando a pasta e as chaves nas mãos do chefe.

– Mariana, você trabalha comigo há dez anos. Você sabe por que eu te contratei?

– Não faço ideia. Sempre me perguntei o que você tinha visto naquela menina que gosta de lê e que tinha só dezessete anos.

– Pois é. Por incrível que pareça, eu lembro bem do dia em que te entrevistei. Sabe o que vi? O amor pelo livro. Não era só uma menina que gostava de ler, era uma menina que amava, e ainda ama, os livros. Vi isso no brilho dos seus ao falar sobre o que era o livro para você.

– Nossa – suspirou Mariana com a voz embargada – isso realmente mexeu comigo anjinho.

– Pois é Mariana. Agora, dez anos depois, acho que chegou a hora de você alçar vôos maiores.

– Como assim?

– Mariana, eu estou com quarenta e quatro anos. O tempo passa rápido para quem vive só e se dedica unicamente ao empreendimento que sonhou. Eu tenho que pensar no amanhã desta editora, no meu amanhã e mais, eu tenho que pensar no amanhã daquela menina com quem me comprometi profissionalmente, mas que aos poucos tornou-se mais que minha funcionária, é meu braço direito e melhor amiga.

– Onde você quer chegar, Ângelo?

– Mariana, eu quero que você seja minha sócia na editora.

Os olhos de Mariana arregalaram. Ela sentiu as pernas bambearem e seu coração disparou. Desde que tomou gosto pelo trabalho com Ângelo, ela passou a sonhar em um dia ter uma editora. Mas sua gratidão, e principalmente, sua relação pessoal e profissional com Ângelo nunca a deixaram sair da empresa. Quando fora promovida a Gerente Editorial, pensou que dali só sairia aposentada. Agora seu sonho se realizava, enfim ela teria uma editora, não só dela, mas uma editora para chamar de sua.

– Isso mesmo, Mariana. Quero você como sócia. Pense com carinho. Não precisa responder agora. Eu vou sair o resto da semana, só volto na segunda-feira, mas no sábado eu quero que você e o Marcos estejam lá em casa para almoçarmos. Ligue na sexta à noite para confirmar.

Mariana começou a chorar. Ela se levantou da cadeira e abraçou Ângelo. Um abraço como aquele, Mariana só tinha dado em Ângelo quando ele entregou a ela e ao Marcos o presente de casamento: uma viagem de lua de mel em Amsterdã. Naquele abraço, Ângelo soube que sua melhor amiga deixaria de se sua funcionária e seria sua sócia.

– Anjinho, agora que você não vai mais se ver livre de mim mesmo, né?

Disse ela enquanto enxugava as lágrimas.

– Posso te perguntar uma coisa Ângelo?

– Claro?

– Aconteceu alguma coisa para você sair assim?

– Aconteceu. Lembra que um dia você me perguntou por que eu não namorava, não tinha casos com mulheres, apesar de rodeado delas?

– Lembro. Você me contou sobre uma “moça” que você está esperando… Peraí! Não vai dizer que…

– Isso mesmo, ela me ligou hoje. Estou indo para São Paulo. Volto na sexta-feira com a mudança dela. No nosso almoço para selar a sociedade, você a conhecerá.

Num impulso, Mariana abraçou novamente Ângelo e sussurrou em seus ouvidos

– Meu anjinho vai enfim se separar da editora para se juntar ao seu amor. Estou muito feliz! Duplamente feliz!

Ângelo saiu pela empresa afora despedindo-se dos funcionários seguido de perto por Mariana. Vai até o estacionamento, despediu-se de sua sócia, entrou em seu carro, deu a partida e pegou a estrada que liga Jundiaí a São Paulo. Voltava para a metrópole, não por motivos profissionais, mas porque sua vida, enfim, ganhou sentido. Agora, ele não era mais da editora, ele era dela, de sua eterna e sempre moça.

Ao colocar os pés na recepção, os oito funcionários da empresa estavam ali sem entender nada olhando para Mariana e seu sorriso de extrema felicidade. Roberta, sempre curiosa mas muito discreta, rompe o silencio.

– Mariana, aconteceu alguma coisa para o chefe sair assim?

– Roberta, quando os sonhos despertam, não é preciso motivos para se correr em direção a eles, basta correr para viver os sonhos que enfim são realidade…

 

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