Conto

Fim de noite

Caía a tarde em São Paulo, fria e seca, como são as tardes do inverno paulistano. Ângelo se inclinava, encostando a testa no vidro gelado de seu apartamento e contemplando as pessoas no vai e vem da rua Augusta, onde morava. Os luminosos dos bares começavam a brilhar e as luzes da cidade começavam, aos poucos, a tomar conta do escuro que dominava, lentamente, a cidade.

Testa no vidro, Ângelo suspirou, vendo o calor do ar por ele expirado embaçar o vidro. Desencosta-se do vidro e vira-se para seu apartamento, todo decorado conforme o projeto de Roberta, sua amiga de infância e arquiteta, que fez de um pequeno apartamento de 40m2 um verdadeiro paraíso particular para se viver. Foi o presente de Roberta a Ângelo, quando ele completou 38 anos, dez de viúvo, dez de perfeita solidão. Desde a morte da esposa, saía de casa raramente. Vendera o apartamento no Brooklin, aplicara o dinheiro, morara de aluguel por algum tempo no Jabaquara e, há dois anos, vivia na Augusta. Fizera do seu apartamento sua casa, seu escritório e seu bar. Fazia ali mesmo, solitário, seu happy hour de sexta-feira.

Naquela sexta-feira de inverno, vendo as luzes e o vai e vem da Augusta, lhe bateu uma vontade, repentina, de ver gente, conversar com pessoas reais, interagir, sem ser via computador ou celular, com vidas. De frente para o espelho, decidiu-se a sair. Tomou banho, mudou de roupa, trancou o apartamento e pegou o elevador. Dezesseis andares depois estava na portaria. Para onde vou? Pensou vendo tantas luzes e se tocando que esquecera de decidir qual pub ou bar ele iria. Cruzou a rua e foi no primeiro que encontrou aberto. Entrou, preferiu o balcão do bar à mesa. A sensação de solidão diminui num balcão de bar. À mesa, sozinho, sente-se mais a companhia da solidão. Sentou-se no balcão e pediu para ver o cardápio de bebidas. A bartender lhe sorri e entrega o cardápio. Pediu uma cerveja e uma porção de calabreza para petiscar. Ao trazer a bebida, a bartender pergunta

–     Esperando por alguém?

–     Não, sozinho, como sempre.

–     Então espera um minuto, não beba ainda.

Ela vira-se de costas, pega uma cerveja para ela, volta-se para ele e diz

–     Prazer, Leila, vamos brindar porque no meu pub ninguém bebe sozinho! Saúde!

Com um sorriso no rosto e sem entender muito a atitude de Leila, Ângelo responde

–     Saúde! Ah, e prazer, meu nome é Ângelo.

–     É eu sei.

–     Como assim?

–     Você mora no décimo sexto andar do edifício aí em frente, a sua vizinha da frente é uma loiraça linda, solteira, bem resolvida e dona de um pub na Augusta.

Disse Leila, sorrindo e se apresentando como vizinha.

–     Ah, você mora na minha frente?

–     Isso mesmo. Já faz um ano e meio. Vem, vamos sentar na minha mesa lá no fundo, acho que a noite vai ser de muito papo.

Deixando para trás o balcão do bar, Ângelo dirige-se ao fundo o pub, onde avista uma mesa, em um canto reservado. Leila era a proprietária do local. Sempre ficava no bar até a chegada das meninas que atendem nele. Ela o viu entrar no pub e o seguiu com os olhos enquanto a recepcionista o conduzia para o bar. Quando um dos garçons fez menção de ir atendê-lo, ela fez questão de pular a frente e assumir seu lugar provisório.

Sentados, o fundo do bar, Ângelo e Leila conversaram a noite toda. Atenta, ela o ouviu contar sua historia de vida, a viuvez precoce, os investimentos financeiros que lhe dão a segurança de vida para viver de seus textos, publicados sob pseudônimos em alguns sites do Brasil. Ele, por sua vez, ficou sabendo que Leila se divorciara de um empresário do ramo imobiliário e recebera, na partilha dos bens, um imóvel comercial e um residencial na Augusta. Levantou um empréstimo, foi morar com a mãe e alugou o apartamento dela enquanto o pub ainda não se sustentava. Há um ano e meio mudou-se para o prédio onde Ângelo também mora, depois de reformar seu apartamento e executar o projeto da mesma arquiteta que fizera o projeto de seu pub.

Quatro e meia da manhã. Sentados no fundo do pub, Leila e Ângelo percebem que a banda já guardou os instrumentos, que os clientes já começaram a sair e os funcionários já recolhem algumas coisas, prevendo o fechamento para as cinco da manhã. Já é sábado. Ângelo pede a conta, Leila recusa receber e, depois de uns minutos de insistência, resolvem rachar a conta. Ele a espera, no canto do pub, enquanto ela fecha tudo e se despede dos funcionários. Portas fechadas, Ângelo olha para a esquina e vê que a padaria do Antonio já está aberta.

–     São cinco da manhã Leila, vamos tomar um café e um pão com manteiga na chapa? Sempre venho esse horário na Padoca do Tonho. O velho até estranha quando não apareço.

Ela nem hesita, o pega pelo braço e segue para a padaria. Depois de muitas risadas com os causos do Tonho, seguem para o prédio. Sempre abraçados. Chamam o elevador, sobrem até o dezesseis. Descem do elevador e para à porta de seus apartamentos.

–   Bem… bom descanso, Leila. Você fez a minha noite muito especial.

–   Você também, Ângelo. Você também.

Viram-se de costas um para o outro e começam a destrancar a porta. Param. Entreolham-se. Correm, se abraçam, se beijam. De repente, dez anos de solidão e dois anos de só trabalho, terminam numa madrugada de conversas, de reconhecimentos, num pub, num gole de cerveja, numa padaria, num café, num pão, em casa, na cama, numa manhã de prazer entre dois corpos, fruto de uma madrugada de prazer entre dois corações. Alma, coração, corpo, reconhecem-se numa madrugada, para fazer da vida uma eterna canção de prazer.

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