Conto

A compra

Abriu a porta de casa e não compreendeu bem o quê fazia aquele entregador ali.

Residência do Sr. Ângelo? Ele se encontra?

Rubens, neto do Seu Ângelo, coçou a cabeça e chamou o avô. Seu Ângelo veio dos fundos da casa, mais exatamente da edícula onde morava, sorrindo. Conduziu o entregador e as quatro caixas até a sala de sua edícula e apontou o canto.

Ali, do lado do telefone.

O entregador começou a desmontar, sob olhar atento do Seu Ângelo e de Rubens, que curioso, não entendia nada. Vinte minutos depois, pronto, lá estava uma mesa, uma cadeira confortável e um computador completo, com impressora e tudo.

Nossa vô, investiu, hein?

Comentou Rubens admirando com uma ponta de inveja o computador do avô.

Toma, esse é o meu e-mail

disse Seu Ângelo estendendo um cartão de visitas com o nome e o e-mail, para o espanto do neto.

Seu Ângelo havia começado a estudar informática sem o conhecimento da família. Desde que sua esposa falecera, ele morava com a filha, o genro e o neto em uma edícula, ou, seu ateliê de poesia e memórias, como costuma chamar sua casa. Matriculou-se no curso de Informática para Melhor Idade, da Biblioteca Municipal próximo à casa onde morava, depois de pedidos insistentes da Aninha, bibliotecária e do Pedrinho, auxiliar administrativo da Biblioteca. Seu Ângelo era frequentador assíduo. Doara ele mesmo parte do acervo de poesia, livros que comprara para a Biblioteca e alguns de sua autoria. Promovia toda terça-feira o Sarau do Vôvô Ângelo, onde declamava poesias para as crianças do bairro. Sucesso de público entre adultos e crianças.

Naquela noite, no jantar, sua filha, curiosa, perguntou-lhe tudo do curso, do computador, onde havia comprado e tudo mais. Seu Ângelo, orgulhoso por entrar na modernidade, contou em detalhes como Aninha e Pedrinho o ajudaram a escolher o computador, como o rapaz da loja fora educado no atendimento e como ele mesmo resolvera tudo sem precisar recorrer à família, pelo menos até aquele momento. O neto, surpreso e orgulhoso do avô, quis saber como ele ia acessar a internet. Seu Ângelo coçou a cabeça e concluiu:

Não sei.

Sua filha e genro se entreolharam.

Puxa um cabo pro seu avô, Rubens.

Foi o genro, até então calado, salvando o sogro. Uma risada gostosa ecoou pela casa e em minutos neto e avô faziam planos para ir à loja no dia seguinte comprar os cabos necessários.

É, vô, bem vindo à modernidade…

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