Conto

Uma chance

Sentou-se no sofá e ficou encarando o telefone. Era a terceira vez, desde que chegara do trabalho, que repetia o mesmo movimento: sentava-se no sofá, olhava para o telefone, coçava as mãos e hesitava em pegar o aparelho e ligar. Os sentimentos eram confusos. Conhecia Nanda fazia mais de oito anos. Agora, ela estava viúva, já há um ano, e ele hesitava em ligar. Eram próximos, não tão amigos, mas próximos o suficiente para ele pegar o telefone e convidá-la para jantar. Já não se falavam nem se viam desde a morte do marido dela.

Do alto de seus 35 anos não esperava mais relacionar-se com alguém, não tão cedo. Passara por um casamento conturbado, interrompido pela também viuvez precoce, já no primeiro ano de casado. Estava há dez anos sem namorar nem sair com ninguém. Daí, um dia, Nanda reapareceu, viúva, naquela manhã de terça-feira, para visitá-lo no trabalho. Aproveitou uma ida a um cliente e foi vê-lo. Facilmente seus olhos brilharam e seu coração acelerou. Ela lembrou-se de mim. Surto de carência? Necessidade afetiva em alta? Não sabia definir, mas sabia que aquele olhar e aquela voz doce o cativavam.

O telefone estava ali, imóvel. Ele olhava para o telefone. Pegou o aparelho em mãos, respirou fundo e ligou. Um toque, dois toques, três toques…

Alô

Alô, a Nanda por favor?

Quem gostaria?

Ângelo

Ouve uma voz gritando: mãe, um tal de Ângelo no telefone. Deve ser Bianca, a filha única do casal. Já deve ter seus dez anos. Pensou do outro lado da linha.

Alô, Ângelo? Que surpresa boa!

Oi Nanda, tudo bem? Atrapalho algo?

Tudo bem, atrapalha não, estava recolhendo a louça do jantar. E aí? A que devo a honra de seu telefonema?

Nanda, vou ser direto. Quer sair comigo, pra jantar, sexta-feira?

Fez-se segundos de silêncio, que na cabeça de Ângelo pareciam horas, quebrados por uma resposta maravilhosa, para ele.

Que delícia! Um convite inesperado assim é irrecusável.

Que bom, posso te pegar que horas?

Hum, 19h, pode ser?

Claro.

Ah, Ângelo, só nós dois, né?

Claro, só nós dois.

Até sexta.

Até sexta.

Desligou o telefone sentindo-se nas nuvens. Em seu rosto, um sorriso bobo, em seu peito, um coração acelerado. Sempre admirou a beleza e jeito de Nanda. Imaginou que a diferença de idade entre eles seria uma barreira para levá-la para jantar. Dez anos de diferença é muito? Pensou alto Ângelo enquanto se dirigia para a cozinha.


A semana voou no ritmo acelerado do trabalho. Quarta, quinta e sexta-feira parecem ter acelerado o ritmo para que a noite de sexta chegasse logo. Pontualmente, as 19h, o interfone toca no apartamento 74 do edifício de Nanda. Em poucos minutos, ela aparece no hall do prédio, linda, vestida em um vestido azul marinho, com detalhes brancos em renda e uma bolsa pequena. Ele a cumprimenta e vão em direção ao carro. A caminho do restaurante, conversam trivialidades. Chegam à casa de massas, mesa reservada, massa artesanal, vinho francês, escolhido com antecedência por Ângelo, fazem do jantar um momento perfeito para confissões, palavras sinceras e desabafos.

Ângelo, você comentou com alguém que sairia comigo?

Não, Nanda. Por que?

Por nada. Desde que tudo aconteceu, essa é a primeira vez que aceito um convite para jantar.

Nossa, fico honrado por saber disso.

É que os outros, que me convidaram… bem… eles eram muito enrolados. Falavam do tempo, da vida deles, da minha vida e então me convidavam para sair. Eu ficava puta da vida com isso. Custa ser direto? O cara quer sair comigo, fala, eu não tenho mais 18 anos, tenho 45.

É mesmo? Não parece, jurava que era 18.

Hahaha, seu bobo.

Sua linda.

O que você quer de mim, Ângelo?

Como assim?

O que você quer de mim?

Quero um sorriso, sincero, de quem realmente está feliz por estar dividindo uma mesa comigo.

De repente o salão iluminou-se com o sorriso de Nanda. Ângelo sentiu sua mão gelada, o coração acelerar e uma sensação de que sua vida estava mudando. Num impulso, desses que só o coração dá, ele segura a mão de Nanda.

Que sorriso maravilhoso.

Pra você.

Amei!

O que você quer de mim, Ângelo?

Como assim?

O que você quer de mim?

Tá bom, vou dizer. Quero te conhecer melhor. Quero saber qual o seu prato predileto, o que você come de café da manhã e com o que você adora se empanturrar nos momentos de gordices. Quero ir ao cinema com você, assistir um bom filme e dividir uma pipoca. Quero acordar do seu lado e ter a certeza que seu sorriso pela manhã é tão lindo, ou mais, que o que você me deu agora. Quero fazer parte da sua vida. Quero plantar em seu coração amizade, presença e carinho. Quero colher os frutos no futuro.

Futuro. Tenho 45 Ângelo. São dez anos entre nós…

E daí? Eu passei a terça-feira inteira pensando em você, depois da sua visita. Pensei em mil palavras para te dizer, quando estivéssemos aqui, para falar da nossa diferença de idade. Das que pensei, só uma serve: chance. Eu só preciso de uma para conquistar a confiança da Nanda e também da Bianca, afinal, como eu posso querer namorar a mãe, sem conquistar também a confiança da filha?

Nanda permaneceu em silêncio por alguns instantes. Olhos marejados. Ângelo a olhava, acariciando sua mão.

É tudo tão difícil, Ângelo…

Nanda, eu não quero tomar o lugar de ninguém no seu coração. Eu quero ter o meu lugar nele. Não estou te pedindo em casamento, ainda, estou te pedindo uma chance para namorarmos.

Lindo! Estou adorando tudo. É claro que te dou essa chance. Fiquei de terça-feira até hoje me sentindo uma adolescente, convidada para sair pelo menino mais lindo da escola. Estou nas nuvens até agora, com tudo o que me disse, com tudo o que me proporcionou até aqui. Eu quero, sim, eu quero ser sua namorada.

 Ângelo pediu a conta, pagou-a e saíram de mãos dadas.

Nanda, antes de te levar para sua casa, quero te levar num lugar. Confia em mim?

Claro.

 Entraram no carro e seguiram em direção ao prédio onde Ângelo mora. Chegaram pouco tempo depois. Carro estacionado, subiram o elevador direto para o terraço.

Eu moro aqui, nesse prédio, no décimo segundo andar. Mas vamos ao terraço. Tenho dois presentes para você.

Presentes? Adoro ganhar presentes.

Chegaram ao terraço. Ângelo abriu a porta do salão e conduziu Nanda para fora. Respirou fundo e apontou para o céu.

Esse é o meu primeiro presente.

Nanda ficou atônita. Jamais havia visto tanta estrela no céu de São Paulo.

Desde que me mudei para cá, há três anos, que toda noite venho aqui pro terraço contemplar o céu. Acima das luzes da cidade, as luzes das estrelas aparecem mais, apesar da poluição.

É lindo! Um céu de estrelas só pra mim!

Gostou?

Amei. Mas, e o segundo presente?

Ângelo a abraçou calmamente. Em seus braços, Nanda sentiu-se acolhida como há muito não sentia. Suas bochechas, coladas, foram deslizando até que os lábios se encontraram e, num beijo, o primeiro deles, selaram seu namoro.

Assim fica impossível não me apaixonar por você, menino.

 Desceram até o apartamento de Ângelo. Amaram-se, como se tivessem 18 anos, até o amanhecer. Acordaram as dez da manhã de sábado e Ângelo descobriu que o sorriso de Nanda era cada dia mais lindo que o da noite anterior.

Anúncios

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.