Conto

Estação

O vento soprava friamente e fazia com que seu cabelo se agitasse. Nada comparado à agitação de seu coração. Em pé, na plataforma da estação de trem, ela observa um gigante de aço de oito composições sair da estação, ganhando velocidade. Mais rápido ainda, saía dela os sonhos e esperanças que tanto semeou em seu coração. Fora arrancado pela força de duas palavras e o partir do trem. “Me esquece”. Foi a frase mais curta e dolorosa que ouvira até então. Imóvel enquanto o trem partia rumo à periferia, do lado oposto ao que ela vivia, recolheu dentro de si o que lhe sobrou de dignidade. Segurou, enquanto pôde, o choro. Não resistiu, deu dois passos, buscou o banco vazio da estação e sentou, desaguando a tristeza que começa a lhe corroer a alma.

Ao largo disso tudo, eu, com um livro em mãos, observava de longe esta cena. Pelo agitar dos braços dele, de costas para mim, e pelo semblante dela, de frente para mim, percebi que a situação era extrema. Ao vê-la ali, frágil e solitária, em seu limite emocional, não tive duvidas. Sentei-me ao seu lado, com o livro em mãos, e retomei minha leitura onde havia parado. Detenho-me, atentamente, ao som de seu soluço, ao meu lado. Quando a freqüência diminui, não hesito em ler, a meia voz:

mas acontece que eu sou triste….

O som grave de minha voz a fez olhar para mim com rosto de indagação. Haveria alguém mais triste que ela naquele instante? Fitei-a e repeti o verso:

mas acontece que eu sou triste…

Ela me encarou, sem entender nada, e então pude ouvir a voz do desespero:

e eu quero morrer…

ao que eu, gentilmente lhe respondi:

eu também, mas não vale a pena morrer na dor, prefiro morrer no amor

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