Conto

A carta

Procurou num canto da escrivaninha sua caneta. Pegou uma folha em branco na base da impressora e ensaiou alguns rabiscos. Pensou, repensou, rabiscou algumas palavras desconexas. Passaram-se alguns minutos. Pronto! Estava pronto! Correu até a sala e chamou o neto.

Pronto, põe no correio pra mim!

O neto, sem entender, dá de ombros.

Correio? Por que não manda e-mail?

No dia seguinte veste sua melhor roupa, coloca seu chapéu, pega a bengala e sai sem avisar ninguém. Caminha, com dificuldade as cerca de quinze quadras que separam o prédio da família até a agência dos correios. Chegando lá, entra na fila e é convidado a se dirigir ao guichê especial. Com um envelope em mão, o entrega à atendente.

Registrada, por favor.

Quando ia saindo, vira-se para a atendente e pergunta:

pois sim, uma pergunta: quanto tempo até Muriaé? Cinco dias? Obrigado.

Voltou para casa ansioso. Cinco eternos dias, sempre os mesmos cinco eternos dias. Pensou enquanto caminhava.

Passaram-se dez dias e, como sempre, nada de resposta. Numa manhã de sexta-feira toca o interfone do apartamento.

Seu Ângelo, visita pro senhor, é de Minas. Pode subir?

Seu coração acelerou.

Claro, agora, agora!

Correu mudar de roupa e em minutos estava em pé ao lado da janela da sala. A campainha tocou. Seu coração acelerou. A empregada abre a porta e ele vê entrar por ela uma moça aparentando vinte anos, cabelos longos e um sorriso que lhe remete logo ao semblante da destinatária da carta.

Seu Ângelo, muito prazer, sou Joana, neta da Dna. Jaqueline.

Por cerca de quatro horas e sob os olhares atentos da filha e do neto, ele ouviu Joana contar como um câncer havia consumido sua avó e o quanto ela desejou rever o homem que a enviava mensalmente uma carta com poesias sobre o amor que ele sentia por ela. Pouco antes de morrer, a avó lhe entregara todas as cartas e um bilhete. Trêmulo sua mão se estendeu até encontrar o papel. Com os olhos marejados não conseguiu ler, repassou para a filha, que em lágrimas desde o início da história e sem entender nada, repassou para o neto.

Meu anjo, desde o primeiro verso eu soube que você me acompanharia, de um jeito ou de outro, até o fim da minha vida. Hoje eu não estou mais aqui, mas sei que você me tem aí, em você. Nunca deixei de te querer. Sempre te quis. Nunca tive coragem. Sempre te amei, do meu jeito. Seus versos me mantiveram viva. Beijos, sempre apaixonados. Jaque.

Em lágrimas se abraçaram, sorriram e se tornaram todos uma só família.

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