Conto

Um alvorecer

Estava tudo silencioso. Não podia ser diferente. Três horas da manhã, cidade adormecida, só se ouvia, ao longe, o barulho do relógio da cozinha marcando os segundos. Irritante som que entrava por seus ouvidos e, volta e meia, o fazia voltar de seus pensamentos. Estava sentado, no sofá, na sala, encarando a tela da televisão que passava um seriado qualquer, desses de estilo americano que fazem sucesso rápido. Fechou os olhos por um instante e acomodou a cabeça no encosto do sofá.

Lembrou-se de uma manhã de inverno. Há muito tempo? Há pouco tempo? Depende de quem olha e de quem lembra. Lembrou-se de uma manhã de inverno em que acordara cedo para ver o sol nascer. Tinha dessas coisas. Amava as madrugadas, e não resistia a um nascer do sol. Mas aquele foi diferente. Ele foi levado a ele, não porque desejou emendar a noite e ver o sol nascer, mas porque quis acordar cedo, cruzar a cidade e contemplar os primeiros raios a tomar o concreto da cidade. Estranhamente, alguns de seus amigos, a quem relatou o alvorecer de seu dia de inverno, lhe disseram ser impossível ver tamanho brilho numa manhã nublada de inverno. Que nada. Ele viu o mais intenso brilho do sol nos olhos, sorriso e lábios que contemplara aquela manhã.

O relógio da cozinha continua marcando os segundos. Já são quinze para as quatro da manhã. Ele retoma de suas lembranças com um leve sorriso no rosto. Mas não há sol. Não há olhar. Não há sorriso. Não há lábios. Levanta-se e vai até a sacada. Observa a madrugada, ainda falta uma hora e meia para o nascer do sol. Quem dera. Para ele, falta mais, muito mais que horas, dias, semanas ou meses. Para ele, falta o próprio sol.

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