Conto

Do fim ao começo

Sorriu-me com um ar de convencida. Estava certa de que tomara a decisão correta e estava parada, à minha frente, esperando que eu lhe dissesse algo à respeito. Dizer o quê? Não havia o que ser dito. Ela já tomara a decisão. Deixara a casa dos pais, aos 35 anos de idade para viver sozinha, e me contava isso com um sorriso no canto dos lábios como quem quisesse dizer “viu só, essa é a minha resposta para você, diz alguma coisa, vai?”. Mas o que dizer, um mês atrás havíamos terminado o relacionamento. No meio de uma discussão, na hora em que a língua não é mais controlada pela mente mas pelo esôfago (isso é possível?), soltei um “vê se cresce? você, que mora na casa do papai e da mamãe e não sabe o que é sustentar uma casa me diz vê se cresce?” Pronto, o caldo havia sido entornado e, após uns instantes de silêncio pedi desculpas e sai de cabeça baixa. Não nos falamos mais até hoje, 2h30 da tarde de um sábado, quando ela tocou a campainha de casa e, quando abri, mal me deixou falar um oi e soltou um “Saí da casa dos meus pais, aluguei um AP na Vila Madá”. “Vila Madá”, muito maduro. Mas como resistir àquele sorrisinho de canto de boca e aqueles olhos cor de mel me fitando?

Convidei-a para entrar. Peguei duas latinhas de cerveja e nos assentamos no sofá. Pedi desculpas. Ela sorriu. Pedi de novo. Ela também se desculpou. Engatamos uma risada amistosa, nossas mãos se encontraram, nossos lábios também. “Tá difícil esses dias sem você”, me disse segurando uma lágrima. Fez-se silêncio. Mas como voltar? Há uma fórmula para retornos? “Mas não sei se devemos, no fundo, acho que nos fazemos muito bem assim, como amigos.” Reclinou sobre meus ombros sua cabeça. Abraçou-me. Recostou-se sobre meu peito. Beijou-me. Ficamos em silêncio. Levantou-se, e, dançando lenta e sensualmente, despiu-se para mim e fizemos amor louca e apaixonadamente… Olhei para o lado. 2h30 da manhã. Ela se levanta da cama e avisa que está de saída. Veste-se, desce as escadas e pega o telefone para chamar um táxi. Eu beijo seus lábios lentamente. Sentamos e conversamos alguns detalhes. Sorrimos. Choramos. Parece ter acabado mesmo. Aquelas horas de prazer e descanso, em meu quarto, parecem ter sepultado de vez tudo que precisávamos sepultar. O táxi chega. Nos despedimos, assim, do passado de brigas, idas e vindas, e duas semanas depois eu me mudei para o “AP na Vila Madá” e nunca mais nos separamos.

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