Conto

O flautista de Hamelin na perspectiva de um rato

Havia acabado de comer uma banana. Que delícia! Era a terceira fruta em menos de um dia de hospedagem no meio daqueles animais bárbaros! Estava tão satisfeito que esboçava um sorriso no canto da boca. Olhou para o céu e viu as estrelas. Como são lindas, pensou enquanto contemplava o céu. Ali, inebriado pelo prazer de se sentir satisfeito, teve seu momento de prazer interrompido ao ser pisado por um passante. Logo em seguida, outro, e então mais outro. Então, olhou ao redor e viu todos seus amigos e irmãos caminhando numa única direção. Tentando entender, ele os cutucava, batia neles, jogava pedras, mas ninguém lhe respondia, pareciam enfeitiçados. Olhou para a direção onde caminhavam e viu um dos bárbaros com um graveto na boca e todos os seus amigos o seguindo, sem parar, sem se deter, nada os fazia parar. Quando o último deles passou por ele, resolveu seguir o grupo, não ia ficar sozinho com os bárbaros. Saíram das moradas dos bárbaros, subiram uma enorme montanha, desceram e chegaram até um rio. De repente, todos seus amigos pularam na água e ele, atônito, nada pôde fazer. Começou a chorar, sentou-se e olhou para aquele bárbaro e seu graveto, conduzindo seus amigos e familiares para a morte. Sentiu-se impotente.

Passada algumas horas, viu o bárbaro levantar-se e caminhar de volta pelo caminho que veio. Decidiu segui-lo. Estava certo, o bárbaro voltara para a sua morada. Temeu por sua vida, por agora estar sozinho e ficou sentado na entrada da morada dos bárbaros. Recostou-se numa pedra e dormiu. O dia fora longo. A noite de tristeza. Antes de pegar no sono, olhou para o céu e não havia mais estrelas. Suspirou e dormiu.

O dia amanhecia úmido e gelado. Uma gota de orvalho caiu sobre sua cabeça o fazendo acordar. Olhou ao redor e viu que tudo o que vivera na noite anterior não fora um pesadelo. Sentiu fome, mas não quis entrar na morada dos bárbaros, agora estava sozinho e temia por sua vida. Que feitiço mais estranho! Mortal! Cruel! O que foi aquilo? Seu pensamento viajava enquanto pensava em tudo que havia presenciado. Passou o dia caçando comida nos arredores, não se comparava aos banquetes do dia anterior, mas satisfazia seu apetite. A monotonia da solidão foi quebrada pela imagem daquele bárbaro, ressurgindo à sua frente, com o mesmo graveto na boca, só que dessa vez, seguido pelos filhotes de bárbaros! Ficou impressionado com tantos filhotes seguindo, como seus amigos e irmãos, o bárbaro com o graveto na boca. Decidiu segui-los. Teriam os filhotes a mesma triste sorte de meus irmãos e amigos? Pensou enquanto desviava de um ou outro filhote que marchava, seguindo o bárbaro.

Após horas de caminhada, estava exausto, parou e viu os filhotes, um a um, a passar por ele. Queria segui-los, mas não tinha mais forças. Depois de alguns minutos, estava só, no meio de um descampado enorme e completamente sozinho. Sentiu um frio na espinha. Era seu instinto avisando que algo não estava bem. Olhou ao redor e nada viu. Apenas sentiu uma garra arrancando-o do chão e um bico perfurando-lhe o peito. Morrera antes mesmo de olhar para cima e saber quem o feria mortalmente. Pobre rato! A surdez que o salvara do graveto encantador do bárbaro, o condenara a morrer nas garras de uma águia. Não ouvira o grito da ave de rapina.


*texto escrito como exercício do tópico “um outro foco” do curso “Redação: criatividade na escrita”, em maio de 2012, Faculdade Belas Artes.

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