Conto

Retorno

Despertou naquela manhã e cumpriu seu rito matinal. Pôs as fatias de pão para torrar, ligou a cafeteira, dirigiu-se ao banheiro e tomou seu banho de despertar, como costumava dizer. Fez seu desjejum, sentou-se diante do computador e começou sua liturgia diária.

Desde que se aposentara, essa era sua rotina pela manhã. Invariavelmente sentava perante seu notebook, estrategicamente posicionado defronte a uma janela de onde se tinha uma vista fenomenal: o pasto e lá no horizonte uma pequena vila, cravada nos Alpes suíços. Havia se mudado para lá haviam exatos nove anos. Tinha sessenta e sete anos e, desde os trinta, havia tomado a decisão de se aposentar e mudar-se para suíça. Comprou uma pequena propriedade com aquecimento a gás e divertia-se aos sábados na vila, contando piadas e declamando poesias em francês, inglês, um italiano macarrônico e em português – coisa que ninguém entendia.

Naquela manhã, porém, foi diferente. Ligou o computador e, após escrever uma crônica – parte de sua liturgia diária – abriu seu correio eletrônico. Não acreditou no único e-mail em português que havia na lista. Aquele endereço eletrônico, tão familiar durante mais de trinta e sete anos, agora aparecia para ele. Um correio eletrônico que só duas pessoas acessavam e liam. Este endereço estava em sua tela. Abriu a mensagem. Leu. Moço, sou eu, você ainda espera pela sua moça, mesmo depois de tanto tempo? Nunca deixei, um dia sequer de ler seus versos… Suas mãos trêmulas buscaram conter as lágrimas de seus olhos marejados. Levantou-se, foi até a sala e chorou copiosamente. Após se recompor, voltou ao computador e decorou o número telefônico. Sua primeira ligação para o Brasil em nove anos. Olhou no relógio e calculou: Lá ainda é madrugada, cinco, não, seis da manhã. Ao atender o telefone do outro lado da linha ouviu uma voz que fez seu coração disparar. Não resistiu, repetiu o nome de sua moça. É você mesma? Eu não acredito! Você não me esqueceu! Você não esqueceu sua promessa! Tomou o primeiro trem para Zurique, seguiu no primeiro voo para o Brasil. Voltou para sua terra, para viver um amor que cultivara por trinta e sete anos em seu peito, em sua alma. Voltou para amar.

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