Conto

Amar ao mar

Amanhecia e o sol entrava lentamente pelas janelas de seu apartamento no décimo segundo andar. A cortina, entreaberta, deixava que o sol tomasse conta lentamente do quarto e assim, clareando lentamente o ambiente, ele despertava. Já não era refém de despertador há mais de vinte anos.

Após levantar, tomou um bom banho, preparou seu desjejum e tomou-o em frente à TV enquanto zapeava os canais. Pegou sua pasta, verificou se o apartamento estava trancado e saiu. Que horas eram? Não sabe, não se lembra. Pegou o elevador, desceu até o térreo, cruzou o hall e passou pela portaria.

Bom dia seu João.

Bom dia seu Ângelo, pouco transito hoje hein?

Disse em tom jocoso o porteiro. Ao que Ângelo sorriu de volta. Atravessou a rua e chegou à sua empresa para mais um dia de trabalho.

Proprietário de um escritório editorial que surgira na sala de sua casa, Ângelo vira o negocio se expandir a ponto de ocupar toda a casa, foi quando decidiu mudar e ir para um apartamento em frente. Vinte anos mais tarde, seu escritório era referência em processo editorial no país. Uma carreira de sucesso, desenvolvida com paciência, dedicação e disciplina. Em mais de dez anos com Ângelo, Vivian, sua secretária, não se lembrava de nenhum episódio do chefe envolvido com algo que não seja trabalho. Livro é minha vida. Era a frase escrita em relevo na parede de seu escritório. E era o que realmente parecia ser para Vivian.

Ângelo entrou em seu escritório e encostou a porta, conferiu no relógio as horas, 8h30, e ligou o computador. Puxou a agenda do dia, suspirou fundo e pediu a Vivian que o trouxesse um café e se preparasse para uma reunião não agendada. Vinte minutos mais tarde, Vivian estava sentada à sua frente com os olhos marejados sem entender muito bem o que motivara Ângelo tomar aquela decisão. Embora pudesse parecer tristeza, era antes alegria. Vivian, em dez anos de empresa, nunca vira o chefe dedicar um tempo para si. Nos últimos três anos, desde a morte da mãe, Ângelo passara natal e réveillon no escritório. Fatos que Vivian sabia pois ela providenciava a compra do vinho e do queijo, que encontrava invariavelmente no lixo após as festas.

Por que você está chorando, Vivian?

Desculpe, Sr. Ângelo, é que sempre comento com meu marido que o senhor precisa de um tempo de descanso, viajar, férias e sempre pensamos em como poderíamos convencê-lo a tirar uns dias… desculpe, me emociono de felicidade pelo senhor.

Dois minutos após a conversa, a agenda de Ângelo começava a ser mudada e transferida e logo as passagens para Paris estavam compradas. Duas semanas na França me farão bem, pensou enquanto acertava detalhes de sua ausência com o gerente financeiro e com a gerente editorial. Decidira se desligar de tudo. No dia seguinte embarcaria para sua primeira viagem de férias em vinte anos. Não imaginava que isso aconteceria um dia…

No fim de dia, de volta para casa, Ângelo senta-se na varanda para assistir o ocaso, não tão belo quanto no campo, mas tão belo quanto São Paulo pode proporcionar, e diante do sol, escondendo-se por entre os concretos, ouve, ao longe, o seu computador avisar que chegou um e-mail. Pensa se vai levantar para ler, decide que está de férias e deixa para a volta.

No dia seguinte, malas prontas, casa fechada, cópia da chave entregue à Vivian, ele pega o taxi em direção ao aeroporto. Malas despachadas, check-in feito, ele se dirige ao saguão de embarque. Observa esposas se despedindo de maridos, filhos despedindo-se de pais. Embarca. Assenta-se confortavelmente na primeira classe do Airbus e espera as instruções. O avião levanta voo e, no trepidar da aeronave, sente que deveria ter lido aquele e-mail. Besteira, pensou enquanto reclinava o assento e preparava-se para um cochilo.

Eram quatro horas da tarde quando o telefone de Vivian tocou no escritório. Era da companhia aérea. O avião que levava Ângelo para França chocara-se com outra aeronave e explodira sobre o oceano atlântico. Após horas de telefonemas e contatos com os poucos familiares, Vivian ouve a campainha da empresa tocar. Ao abrir a porta, entra por ela uma moça de pouco mais de dezesseis anos, com um envelope em mãos.

Sr. Ângelo se encontra?

Após uma hora de conversas e histórias, Vivian abre o e-mail do chefe e nele vê a mensagem enviada no dia anterior pela jovem Joana. Sr. Ângelo, minha avó faleceu hoje, a cerimônia de cremação será amanhã as oito horas e jogaremos suas cinzas no mar. Gostaria de encontrá-lo após retornar do litoral. Vivian olha para Joana, que em lágrimas lhe conta de tudo o que não aconteceu, de como sua avó amou um homem que não pode com ele viver e como ela ficou encantada com a possibilidade de conhecer o Ângelo de sua avó.

Após muitas lágrimas, Joana levanta-se e, em tom solene, diz

Se aqui não lhes foi possível amar, o amor os fez amar ao mar.

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