Conto

O sempre ainda foi pouco

Havia acabado de chegar da padaria quando o telefone de casa tocou. Eram sete e vinte e o dia amanhecia preguiçoso, como todo dia de inverno paulistano. Era julho, e seu ânimo estava a mil, afinal o inverno era sua estação do ano favorita. Deixou os pães sobre a mesa e atendeu o telefone. Do outro lado da linha, sua mãe animada lhe contava de sua mais recente viagem, voltara de Belém do Pará no dia anterior, e já anunciava a viagem seguinte

–   Filho, se você puder nos hospedar, chegamos aí semana que vem, vamos passar três dias com você: quarta, quinta e sexta.

Desligou o telefone e foi tomar seu café da manhã. Ao terminar, seguiu para o computador e leu seu correio eletrônico e, logo após, as noticias e sites que acompanha. Ao terminar suas leituras e liquidar a lista de e-mails a responder, levantou-se e foi até a sacada de seu apartamento. Do alto do décimo oitavo andar ele tinha uma visão privilegiada de Perdizes e Pompéia. Suspirou um pouco e pensou o que animara tanto sua mãe a vir a São Paulo. Enfim. Descansou a mente contemplando o céu azul de inverno e perdendo-se em pensamentos e lembranças que nunca o abandonavam. Um nome. Apenas um nome. Jaqueline.

Os dias passaram-se sem sobressaltos. Até que quarta-feira, oito horas da manhã, seu interfone toca. Sua mãe chegara acompanhada das amigas, duas. Subiram e entraram no apartamento festejando o filinho queridinho da mamãe. Acomodaram-se nos quartos de visita e deixaram para desarrumar as malas depois. Foram direto para a mesa e, por duas horas, comeram, riram e conversaram. Saíram da mesa direto para a rua. As três amigas tinham muito o que fazer: compras, museus, tudo aquilo que a aposentadoria tem de bom a oferecer.

Ele passou o dia em casa, adiantando seu trabalho no computador e fazendo, à tarde, o que costumava fazer de manhã. Seguiu seu rumo assim até elas voltarem. Já eram seis e meia da tarde quando elas entraram no apartamento na alegria de sempre. Na cozinha, ele preparava a janta: frango ao molho de vinho com uvas e arroz integral, tudo acompanhado de uma salada de folhas.

–   Esse filinho da mamãe é um partidão!

Brincou uma das senhoras ao vê-lo na cozinha de avental pilotando o fogão. Sua mãe tratou logo de completar

–   Partidão e o passe dele é caro, ele é exigente que só!

Desconversaram o assunto e, após comida pronta, jantaram e deliciaram-se noite a dentro com um bom vinho e um jogo de canastra para divertir. Entre uma carta e outra, as amigas da mãe já iam se rendendo à Morpheus até que restaram mãe e filho à mesa, acompanhados de mais uma garrafa de um bom vinho e das cartas. Fez-se silêncio. O silêncio que antecede as conversas francas.

–   Filho, posso te perguntar uma coisa?

–   Claro, mãe.

–   Você pretende se casar novamente?

 Fez-se silencio por um instante. Ele baixou as cartas à mesa e suspirou. Desde a morte de sua esposa, prematuramente, vítima da violência de um assalto ao banco onde trabalhava, ele não pensava mais em casar-se. Mariana era uma mulher cheia de vida, eles se davam bem, mesmo não sendo ela o amor de sua vida. Seu grande amor tinha um nome, do qual nunca se esquecera e que não conseguia deixar de amar. O tempo já havia passado. Dez anos desde a morte da esposa, doze anos sem ver Jaqueline, e nenhuma mulher o fazia sonhar como Jaqueline, sua eterna inspiração.

–   Mãe, acho que a essa altura do campeonato, com quase cinquenta anos, não vou encontrar quem queira se casa comigo

Respondeu ele esboçando um sorriso. Voltaram ao jogo e às trivialidades. Após algumas rodadas e o término da garrafa de vinho, sua mãe volta às questões.

–   Posso perguntar outra coisa?

–   Claro.

–   Você tem visto a Jaqueline?

–   Mais de dois anos sem notícias, por que?

–   Ela me ligou, no dia que cheguei de viagem de Belém. Queria saber como eu estava e, inevitavelmente, falamos de você. Você ainda a ama?

–   Como nunca….

Nesse instante seus olhos marejaram e ele ergueu os olhos em direção a sacada. No horizonte o sol começava a raiar a manhã de quinta-feira. Segurou as lágrimas que sempre rolam quando ele está sozinho, em casa, e voltou-se para mãe.

–   Por que a pergunta, mãe?

–   Ela vem aqui hoje, quer te ver. Vou sair com as meninas e só voltaremos amanhã para pegar as malas. Vou levá-las para o litoral. Filho, escuta tudo que ela tem pra te dizer e depois fala alguma coisa, combinado?

–   Combinado. Que horas ela vem?

–   Considerando que já são quinze pras seis da manhã, faltam quinze minutos para ela chegar.

Ele correu tomar um banho enquanto sua mãe ajeitava a bagunça da sala. Seis da manhã em ponto toca o interfone. Dois minutos depois, toca a campainha do apartamento. Ele, calmamente, com a cara do dia anterior apesar do banho, abre a porta. Do outro lado, Jaqueline lhe sorri. Os olhos marejados de ambos dão lugar às lágrimas de um reencontro, que se realiza num abraço, ainda à porta do apartamento. Ela entra, cumprimenta a todas e ele desce para a padaria, buscar pães e leite para o café da manhã. De volta, após o desjejum, despedem-se da mãe e das amigas. Estão sós.

–   Tenho muito a te contar, Ângelo. Fazem dois anos que fiquei viúva. Tentei me preparar para o dia de hoje, mas percebi que não há nada a fazer quando se via reencontrar o amor da sua vida. Só quero que saiba de uma coisa: eu te amo e, se você me aceitar, eu vim pra ficar, pra sempre.

–   Todo o “pra sempre” ao seu lado ainda será pouco para viver ao seu lado, minha menina.

Naquela manhã, sol de inverno a aquecer-lhes o rosto, entregaram-se ao amor, o amor que não se acaba. Foi o início do que sempre sonharam. Duas almas tão diferentes, mas tão únicas quanto o amor que as moviam, uniram-se para sempre, e o todo sempre ainda foi pouco para eles.

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