Conto

Visão

Trânsito. Sempre a mesma ladainha todo dia, mas naquela quarta, voltando do trabalho, Ângelo não conseguia desviar seu pensamento. Carro andando, carro parado, vinha-lhe a mente ela, imóvel, bela, como um quadro renascentista exposto vivamente por alguns segundos diante de seus olhos. Pareceu-lhe uma eternidade, mas estava lá, para que seus olhos contemplassem.

Por um instante ele volta ao trânsito. Primeira. Ponto morto. Primeira. Segunda. Ponto morto. O trânsito parecia sua vida. A mesma ladainha, o mesmo ritmo, a mesma nota a soar constantemente, hoje quebrada por ela.

Estaciona em casa. Desce do carro e ao olhar para a porta do elevador vê, como que em um quadro de Leonardo, ela. Desce do elevador e olha para a porta do apartamento. Sente o cheiro de feijão com toucinho de sua esposa. Respira fundo, põe a mão no bolso para pegar a chave e entra.

Em casa, Ângelo está mais calado que o de costume, mais fora que dentro. A esposa, apaixonada, lhe faz elogios e carinhos. Por um instante ele sai da ladainha. À mesa ele observa a mulher jantando. Sempre foi fascinado pelo sorriso de Roberta e agora estava ali contemplando e insistentemente trazendo à mente ela.

Dez e meia. O ritmo é outro, a canção sai da mesma nota e ganha outros contornos. Voa a mente no travesseiro. De repente, abre os olhos. Silêncio. Apenas contempla, no teto, ela, que não sai de sua mente. Ângelo se levanta, vai ao banheiro, lava o rosto e chora.

– Deus! Tirai de mim esta cena!

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