Poesia

Dia de periferia

Cinco horas da manhã, despertador.
Amanhece mais um dia, dia de dor.
É triste ver a mesa vazia,
criançada perguntando:
– oh pai, quando vai chegar nosso dia?

É, não é fácil moleque.
Pro mundo lá fora,
mais um bandido, pivete.
Saio de casa
todo dia a mesma cena,
policia enquadrando
pai de família na esquina.
Eles esquecem quem paga o salário, propina.
Chego no ponto, meio hora depois,
ônibus lotado, lotação quebrada.
É, já era, o emprego foi pro saco.

Desempregado, sem fundo de garantia.
Artigo de luxo: carteira assinada hoje em dia.
Não querem saber se tem filho na escola,
o moleque deles tem grana, tem onde jogar bola.
Mas a vida é justa, seu filho ainda vai subir o morro.
É nessa hora que vem o seu choro.

Playbozada cheia de farinha.
Policia explode mais uma boca,
não importa, tem a vizinha.
Qualquer quantidade ainda é pouca.
Subiu mais um balão, fogos artifícios, gritaria diversão.
Preparem as ruas, a clientela vem aí:
Alphaville, Jardins, Morumbi,
Vila Olímpia, Higienópolis,
fazendo a alegria do povão do Heliópolis.
Pagaram o preço, nos criaram,
desigualdade vocês plantaram,
agora vão ter de colher
o filho de vocês cheirando farinha até morrer.

Na foto do jornal é mais um delinquente,
fruto da sociedade, maníaco adolescente.
Cheirou tudo que podia, começou a roubar.
Pai e mãe advogados, desesperados,
perderam tudo o que tinham.
Vocês criaram, já diria o poeta:
“…a sociedade me criou: mais um marginal…”

Volto pra casa no fim do dia:
periferia agitada, policia, delegacia.
Molequeda sem futuro, mais um corpo no chão,
pai e mãe chorando em cima do caixão.
Repórter igual urubu em cima da carniça.
Vale menos a vida do que a noticia.

O pó aqui não escolhe idade.
pra atender a playbozada,
moleques sem piedade
são tirados de suas famílias.
Sociedade injusta, bairro chique, vizinho da periferia.
É assim que funciona, meu filho tem de aprender.
Lá na escola tem traficante, fazer o quê?
Ele já ta ligado nos malandros, e nos esquemas,
vacilou perdeu a vida, por isso foge dos problemas.
Garoto esperto.
Peço a Deus todo dia que o livre do mal.
Aqui na periferia isso é impossível de acontecer.
O mal em cada esquina, mas a segurança eu sei que vou ter.
A policia é outra, o bandido também.
Mas isso, você já sabe muito bem.

– Vamo deitar menino.
– Já tô na cama pai.

É, amanhã a batalha continua.
E a verdade nua e crua, difícil de engolir,
desce pela garganta do povo, pendurado no morro.
Um dia, eu vejo o mundo melhor, quem sabe meu filho,
consiga mudar, o que seu pai tentou, até se humilhar.

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