Conto

Dentro

É madrugada. O relógio do celular marca dez para uma da manhã. Deitado sozinho, em sua cama, seu pensamento viaja. Cem, mil, dez mil quilômetros. Desde que se mudara para o hemisfério norte ele nunca mais havia falado com ela. Mas toda madrugada, sozinho no quarto, seu pensamento viajava até o hemisfério sul em busca dela. Relembrava o sorriso, o olhar, o jeito de ser. Tudo acontecera tão sereno, mas ao mesmo tempo tão intenso, que ele fora impactado eternamente. Seu coração, a pulsar freneticamente, ditava o ritmo da saudade. Ah, saudade, você que faz tão bem quanto mal, visitava-o diariamente, sem o deixar dormir, aliás, só dormia quando vencido pelo cansaço.

Na sua solidão, convivia com a dor. A dor das mensagens sem repostas, da falta de mensagens voluntárias, do silêncio que sempre temera viver e com a certeza, eterna, de que lhe era inútil chorar, fugir, dormir, a dor não passaria. Jamais passará. Essa dor de amar, solitário, intensamente, essa dor o fazia viver, o fazia sonhar, mas era dor. Tentou fugir, tentou abafar. Sofrera calado. Sofrera sozinho. Sofrera a dor de amar. Ele não sabia mais o que fazer. Tinha vontade de correr, de gritar e de parar tudo e ir encontrá-la. Ele a ama. Mas não pode viver esse amor. Tem que matá-lo, sufocá-lo. Mas como matar a razão de sua vida? É como atentar contra a própria vida, é suicídio. Ele a ama, mas não há o que ser feito, não há para onde ir. Há o tempo e a incerteza. Quem precisa de certezas? Quem precisa de mais ou menos tempo? Ele a quer. Mas nada sabe. Nada sabe.

O dia amanheceu frio e sem sol. O despertador tocou às seis da manhã. Ele sentiu as pernas frias, mesmo debaixo do cobertor, mas levantou-se. Alongou o corpo, foi até o banheiro, tomou banho, fez a barba, vestiu-se, colocou nos fones de ouvido o playlist de MPB que tanto gosta e saiu para o trabalho, à pé mesmo, sorrindo e cantando, porque a dor que o consumia por dentro jamais o atingira por fora. Em um sorriso sincero há sempre um quê de melancolia e dor.

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