Sermões

Justiça diante da calamidade

Mensagem pregada em 18 de setembro de 2016 na Igreja Presbiteriana Independente de Araraquara, SP. Você pode assistir esta mensagem no vídeo, no fim do texto.


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16Ouvi-o, e o meu íntimo se comoveu,
à sua voz, tremeram os meus lábios;
entrou a podridão nos meus ossos,
e os joelhos me vacilaram,
pois, em silêncio, devo esperar o dia da angústia,
que virá contra o povo que nos acomete.
17Ainda que a figueira não floresça,
nem haja fruto na vide;
o produto da oliveira minta,
e os campos não produzam mantimento;
as ovelhas sejam arrebatadas do aprisco,
e nos currais não haja gado,
18todavia, eu me alegro no SENHOR,
exulto no Deus da minha salvação.
19O SENHOR Deus é a minha fortaleza,
e faz os meus pés como os da corça,
e me faz andar altaneiramente.
Ao mestre de canto. Para instrumentos de cordas.
(Habacuque 3.16-19)

Corrupção: misericórdia e juízo em Habacuque é uma serie de mensagens baseadas no livro do profeta Habacuque. Nosso objetivo é lançar os olhos sobre o texto do profeta e a circunstância que o cerca e, em Cristo Jesus, olharmos para os nossos dias e vermos como Deus nos aponta a direção de como agir diante da corrupção. Em cada mensagem mostraremos o cenário em que aqueles versículos estão inseridos; qual é o clamor do profeta; qual a resposta que Jesus, por meio de seus ensinos, apresenta e qual a mensagem que fica para nós. A presente serie é dividida em duas partes. Num primeiro momento, andamos durante cinco domingos pelos dois primeiros capítulos de Habacuque. Agora lançaremos nossos olhos sobre o capítulo três durante três domingos.

O livro do profeta Habacuque pode ser dividido em três partes, cada capítulo uma parte. A primeira registra uma queixa do profeta referente a situação interna de Judá e a resposta de Deus a essa queixa. A segunda registra a violência e a falta de fidelidade do povo, que o levou a sofrer nas mãos dos Caldeus. Estas duas primeiras partes podemos data-las em torno de 600-597 a.C. A terceira parte é tardia e a autoria de Habacuque é posta e cheque por conta disso. Esta parte é um Salmo de lamentação sobre a situação que passa Judá diante da invasão dos caldeus.

O cenário

Vamos olhar versículo a versículo nosso texto e tentar compreender o cenário que cerca o texto.

Verso 16: O salmo, que começa com a expressão “Tenho ouvido”, agora, inicia a conclusão afirmando que ouviu e assimilou a palavra de Javé. Assimilou tanto que sentiu no próprio corpo as consequências. Assimilou tanto que compreende que confiança em Javé é a única esperança, e deve ser vivida em silêncio.

Verso 17: O profeta reúne em um verso todas as necessidades básicas de vida em seu tempo. Falta tudo, a terra e desolada a ponto de a produção mentir, ou seja, ser impossível de ser consumida. Pode aqui se entender de duas formas este verso: a desolação por conta da invasão do inimigo, ou a desolação nos fins dos tempos, quando tudo estará morto. Seja qual for a interpretação, ecoa aqui o espírito do verso 16 que se derrama sobre o verso 18

Verso 18: Diante da desolação, da terra devastada, do poder do opressor, Habacuque confia, e por confiar, ele pode se alegrar e exultar em Deus.

Verso 19: Encerra-se o salmo com a declaração de que, apesar de todo o cenário de destruição narrados nos dois primeiros capítulos, tudo o que vier será pouco diante da fortaleza que é Javé. Há aqui um contraste interessante na poesia. Se no verso 12 Javé “calca aos pés as nações”, ou seja, pisa fortemente para promover separação, no verso 19 a segurança que vem de Javé permite ao povo caminhar como uma gazela, pisando suavemente sobre a terra, sem separar, sem debulhar, sem romper, mas preservando suavemente a criação. Este andar é um andar de quem foi feito vitorioso, acima daquilo que foi destruído, acima da opressão e do opressor vencido.

A súplica do profeta

Diante do cenário que o texto nos apresenta, vejamos o que nos diz a palavra de Javé por meio do salmo do profeta. Há duas imagens que chamam atenção no trecho final do salmo. A primeira delas é a de como o profeta reage diante da súplica e da resposta de Javé. A segunda, a imagem vitoriosa ante a total destruição das condições de vida.

O verso 16 nos coloca diante da reação do profeta ao ouvir tudo o que Javé faria. Diante de tudo o que o Senhor viria a fazer, Habacuque sente seu corpo reagir à profecia. O meu íntimo se comoveu. A tradução da Bíblia de Jerusalém talvez seja mais poética e nos coloque mais próximo do sentido que o profeta quis passar: minhas entranhas tremeram. No seu mais íntimo, Habacuque sente os efeitos de contemplar a profecia da justiça de Javé. Como tudo o que move o íntimo de nosso ser, o profeta sente seus lábios tremerem e seus joelhos vacilarem. A imagem da vitória de Javé é assustadora para ele, mas ele a anseia, e sabe que deve aguardar em silêncio o dia do juízo.

Já os versos 17 e 18 nos colocam diante da concretização desta espera. Uma vez que Javé virá exercer seu juízo, Habacuque expressa sua confiança diante do cenário que vive em contraste ao cenário da profecia. Ele expressa sua confiança no verso 18 e o faz descrevendo um cenário de total desolação. A terra será tão profundamente desolada que não conseguirá produzir vida. Não bastando a terra não produzir nada, os animais também desaparecerão. Não há possibilidade de se sobreviver, no entanto, Habacuque reconhece que sua vida não depende do alimento produzido pela terra ou pelo gado, mas sim, depende das mãos daquele que virá exercer justiça, está nas mãos de Javé.

A resposta de Jesus

O que Jesus tem a nos dizer diante do clamor do profeta? Não há ligação direta do texto de Habacuque com os evangelhos, no entanto a temática da justiça diante da calamidade é presente nos ensinos de Jesus. O texto que rememoro aqui talvez seja o menos provável diante do cenário de Habacuque, mas sua temática alia-se à justiça exercida para a vida. Vejamos como João 8.1-11 pode ser lido como livramento diante da calamidade.

1Jesus, entretanto, foi para o monte das Oliveiras. 2De madrugada, voltou novamente para o templo, e todo o povo ia ter com ele; e, assentado, os ensinava. 3Os escribas e fariseus trouxeram à sua presença uma mulher surpreendida em adultério e, fazendo-a ficar de pé no meio de todos, 4disseram a Jesus: Mestre, esta mulher foi apanhada em flagrante adultério. 5E na lei nos mandou Moisés que tais mulheres sejam apedrejadas; tu, pois, que dizes? 6Isto diziam eles tentando-o, para terem de que o acusar. Mas Jesus, inclinando-se, escrevia na terra com o dedo. 7Como insistissem na pergunta, Jesus se levantou e lhes disse: Aquele que dentre vós estiver sem pecado seja o primeiro que lhe atire pedra. 8E, tornando a inclinar-se, continuou a escrever no chão. 9Mas, ouvindo eles esta resposta e acusados pela própria consciência, foram-se retirando um por um, a começar pelos mais velhos até aos últimos, ficando só Jesus e a mulher no meio onde estava. 10Erguendo-se Jesus e não vendo a ninguém mais além da mulher, perguntou-lhe: Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou? 11Respondeu ela: Ninguém, Senhor! Então, lhe disse Jesus: Nem eu tampouco te condeno; vai e não peques mais.]

O episódio é bastante conhecido. Uma mulher foi pega em adultério. Os escribas e fariseus levaram esta mulher diante de Jesus para testá-lo na Lei. No entanto, os escribas e fariseus distorcem a Lei de Moisés. Em Deuteronômio 22.22 e Levítico 20.10 temos o registro da Lei: Se um homem adulterar com a mulher do seu próximo, será morto o adúltero e a adúltera. Os fariseus queriam apedrejar a mulher? Talvez, mas queriam mesmo ter do que acusar Jesus. A resposta do mestre é conhecida de todos nós e coloca em pé de igualdade todos os pecadores.

Onde está a calamidade? Na perspectiva da mulher, o que acontece ali é uma calamidade. A calamidade do adultério. A calamidade do peso da Lei com ares de morte. A calamidade da opressão masculina sobre a oprimida mulher em uma sociedade profundamente patriarcal. Aquela mulher estava a caminho da sua condenação, ela enfrentaria outros líderes e a população que estava ávida por exercer justiça com as próprias mãos. Calamidade que começa no erro do adultério, tal qual o povo de Judá que se distanciara de Javé e se entregara a outros deuses. Uma sequência de erros que estavam conduzindo à morte.

Jesus então surpreende os escribas e os fariseus, desarmando os acusadores e colocando-os em pé de igualdade com a mulher adúltera. É a justiça de Deus se manifestando diante da calamidade. A calamidade maior não é o adultério em si, mas sim todo e qualquer pecado, do qual o adultério faz parte. Diante da falta de possibilidade de defesa, diante da vontade dos escribas e fariseus em pegá-lo em contradição com lei, o que Jesus faz é resgatar a mulher e colocá-la novamente diante da vida. Não há mais acusadores. Não há mais condenação. Há vida. Há perdão.

A mensagem para nós

Vimos o cenário, o salmo do profeta e a resposta de Jesus a essa súplica e agora podemos perguntar: o que fica de mensagem para nós? Fica a lição de que diante de nossas calamidades Javé não nos abandona. Contemplamos um cenário calamitoso quando se fala de justiça no Brasil. Em todos os âmbitos temos o que apontar de erros que geram calamidades para o povo. No entanto, como Igreja de Cristo, nós somos chamados a cuidar e proclamar para que a justiça seja exercida. Não podemos, por conta da imensa onda de corrupção e injustiças em nossa nação, nos calarmos diante da opressão.

Tal qual o profeta Habacuque confiou em Javé como Deus da sua salvação. Confiar em Deus como salvador de nossas vidas nos leva a confiar em sua justiça. Nós temos, na Bíblia, a expressão daquilo que acontecerá com o opressor. Tal qual o profeta, tal revelação deve mexer com nossas entranhas e não podemos nos calar, mas proclamar a justiça. Perceba que Habacuque fica em silêncio, no verso 16, quanto ao juízo que acometerá o opressor. Isso nos mostra que nossa função é denunciar a injustiça, tal qual o profeta fez nos dois primeiros capítulos, e não condenar o opressor. Quem condena o opressor é Javé, não nós. Nós denunciamos as injustiças e apontamos para aquele que virá cumprir a justiça que não falha.

Foi assim que Jesus desmontou a linha argumentativa dos escribas e fariseus diante da tentativa de pegá-lo em erro de interpretação da Lei de Moisés. Ao perguntar à mulher onde estão aqueles teus acusadores? Jesus coloca um ponto final à calamidade do pecado e alinha novamente a vida daquela mulher com a vontade do Pai. Vai e não peques mais. Mude de vida. Arrependa-se. Diante dos problemas de sua vida e da calamidade ao seu redor, saiba que Jesus não nos desampara, ele está conosco sempre. O arrependimento é o primeiro passo diante do perdão que Cristo nos dá. Mudemos nossas vidas e lutemos pela justiça.

Conclusão

Habacuque nos mostra que a confiança em Javé diante da calamidade é a melhor maneira de se esperar pela concretização da justiça. Javé ama e liberta o oprimido. Habacuque reconhece tal verdade em forma de salmo, expressa a justiça de Javé e como ele viria para dar cabo do opressor. Sua confiança se traduz em esperança. Mesmo diante da ausência de recursos e possibilidade de vida, Habacuque confia que sua vida está nas mãos daquele que é sua salvação, Javé. Confiemos que quem nos mantem vivos é Deus, e não as circunstâncias ao nosso redor.

Jesus nos mostra que diante da opressão do pecado, a vontade de Deus é que tenhamos compaixão do pecador e mostremos como mudar de vida, se arrepender e não cometer novamente os mesmos erros. Não podemos condenar, não podemos criar armadilhas para que outros sejam pegos, devemos viver com compaixão e amor a mensagem do evangelho. Jesus confronta o pecado da mulher sem deixar de lado a necessidade dela se arrepender: Vai e não peques mais. Não pecar, não errar. Somente em Cristo temos o pleno perdão para os nossos pecados e a possibilidade de encarar as calamidades da vida sem nos entregarmos ao pessimismo e à injustiça.

Hoje somos convidados a olhar para a corrupção que toma conta de nossa sociedade e não nos calarmos. Mais que uma opção pela justiça, é uma missão de vida. Como cristãos somos chamados a buscar o perdido, aquele que se encontra oprimido pelo pecado em suas mais diversas manifestações em nossa sociedade. Não podemos nos calar diante da opressão. Não podemos negociar com o pecado. Mas devemos amar e alcançar o pecador. Diante de tantas corrupções em nossa sociedade, olhamos para o texto de Habacuque e contemplamos a corrupção, mas vemos a misericórdia de Javé para com o pecador e o juízo para com o opressor. Vivemos num país onde a corrupção está impregnada nas mais diversas esferas da sociedade. Igreja de Cristo, é tempo de denunciar a corrupção e anunciar ao corrupto que há como se viver de maneira diferente; é tempo de anunciar ao oprimido que a visão ainda está para cumprir-se no tempo determinado, mas se apressa para o fim e não falhará; se tardar, espera-o, porque, certamente, virá, não tardará. Eis o soberbo! Sua alma não é reta nele; mas o justo viverá pela sua fé.

Reverendo Giovanni Alecrim
Pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil

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